Publicado em: Pecuária

Para os criadores de Guzerá, a mansidão na raça não é novidade. Mas o mito de que este seja um animal agitado ainda persiste. Sejam pelos chifres grandes, crescidos em forma de lira, ou pelo perfil do gado, muitos ainda creem que esta seja uma raça de temperamento ruim. Isso remete a dificuldades no manejo e, consequentemente, risco aos tratadores e às instalações, com um impacto negativo na produtividade.
Muitos criadores já selecionam os animais mais dóceis naturalmente, de maneira positiva. Descartam as vacas que não apresentam bom temperamento e, aliado a esse processo, mantêm práticas de amansamento, que já se mostraram eficazes em estudos. Tais técnicas e comportamento ainda não tinham sido comprovados cientificamente, até pesquisa realizada recentemente.
No intuito de verificar as características de comportamento da raça, as pesquisadoras Dra. Maria de Fátima Ávila Pires e Dra. Maria Gabriela Campolina Diniz Peixoto da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Gado de Leite), com o apoio do Centro Brasileiro de Melhoramento Genético do Guzerá (CBMG2), deram início a uma série de estudos sobre o temperamento das vacas Guzerá.
As pesquisas começaram com a utilização de um equipamento de fácil uso chamado Reatest, desenvolvido pelo grupo do professor Dr. José Aurélio Garcia Bergmann, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mediante um sensor de movimento, o aparelho capta a reatividade do animal quando confinado no brete-balança, um local usual de manejo de animais. Desta forma, diminui-se a subjetividade na aferição e evita a presença de um técnico estranho no rebanho no momento da aferição, que pode estressar o gado. 
Em seguida, foram testados grupos de animais. Ao final das análises, perceberam que o comportamento das fêmeas Guzerá, com relação à reatividade, não foi diferente dos demais bovinos leiteiros. “Há animais nas diferentes categorias - de mansos a bravios. Verificamos também que apenas 5% dos animais estavam na categoria de bravios. Portanto, seria fácil eliminar este comportamento nos rebanhos, sem prejuízos ao efetivo populacional”, explica a Dra. Maria Gabriela, da Embrapa, que participou da condução dos estudos ao lado de outros pesquisadores.

 


Impacto
Nos estudos, os valores de herdabilidade encontrados não sinalizaram para uma possibilidade de resposta efetiva à seleção, contudo, o que foi encontrado já permite dizer que boas práticas de manejo se mostraram muito importantes para melhorar o comportamento animal e obter mais docilidade.
“Animais mais dóceis significam animais com melhores condições de bem-estar animal. Assim, animais mais felizes e tranquilos, como acontece conosco, têm melhor desempenho em qualquer característica, seja de saúde, produção, ou de reprodução”, afirma Maria Gabriela.
Ainda pouco trabalhado no Brasil, o manejo positivo, que consiste em se adotar práticas de manejo com foco no bem-estar, deve ser garantido desde o nascimento de um animal. A prática não só garante seu bem-estar, mas melhora sua produtividade e também amplia os lucros do criador.
“Há ainda que se conscientizar o criatório nacional quanto aos direitos dos animais. Nos países desenvolvidos já se faz a certificação das propriedades que adotam tais práticas em função das exigências do mercado consumidor. Portanto, precisamos estar atentos a todos os aspectos do bem-estar, porque também estão relacionados à aceitabilidade dos produtos de origem animal, além dos aspectos econômicos da atividade pecuária”, prossegue a pesquisadora.
Dentre as boas práticas citadas, estão o manejo sem utilização de instrumentos, como ferrões, que provoquem ferimentos nos animais, a movimentação de novilhas gestantes à sala de ordenha preferencialmente junto às vacas em lactação e o treinamento prévio das novilhas gestantes na ordenha, reproduzindo a situação real de ordenha.

Prática
Para colocar os estudos desenvolvidos sobre o Guzerá em prática, a equipe de pesquisadores busca conscientizar os produtores para a necessidade de um bom manejo e de separar animais de temperamento ameno. A expectativa é que com a ajuda de associações, criadores, escolas, universidades e cooperativas, o tema possa ser inserido em treinamento de profissionais e de mão-de-obra rural com uma nova visão, de acordo com a realidade atual da pecuária brasileira, integrando os elos da cadeia produtiva neste esforço. Ainda há outras estratégias de mercado em vista, como a certificação de produtos provenientes de rebanhos que adotam práticas de manejo positivo.
Por enquanto, o próximo passo das pesquisas é ampliar a aferição do temperamento nos rebanhos por meio do Reatest, ou usando também outros testes como o da velocidade de fuga, para explorar com mais precisão tais características. “Há também estudos com as ferramentas genômicas, com o intuito de desenvolver futuramente um painel de marcadores genéticos para a seleção genômica. Estudo coordenado pela profa. Dra. Maria Raquel Santos Carvalho na UFMG que já identificou algumas regiões fortes candidatas a marcadoras desta característica. Mas, ainda precisamos de mais estudos para confirmar os nossos achados”, diz Maria Gabriela.
O equipamento Reatest ainda não está disponível no mercado e vem sendo utilizado principalmente em nível acadêmico. Até se alcançar novos objetivos na pesquisa, os criadores podem estar atentos ao rebanho, utilizando um manejo que preze pelo bem-estar dos animais e fazendo o descarte de animais de temperamento ruim, ou através de adoção de técnicas como o amansamento dos animais.