Publicado em: Pecuária

Se um terço dos herdeiros rurais não der continuidade ao empreendimento da família, isso significa que 30% das terras das propriedades no campo estarão disponíveis no mercado ou subutilizadas. Mas, as perspectivas podem ser ainda piores. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o Brasil possui 5,2 milhões de propriedades rurais. Deste total, apenas 28,8% foram repassadas por herança. Isso sinaliza uma grande desvantagem para os negócios pecuários: a descontinuação do trabalho.

Por Natália Escobar

O pecuarista Riacava não espera que nenhum dos seus três filhos siga seus passos. “Não quero que eles sigam o mesmo caminho que o meu, porque na vida temos que fazer o que gostamos. O que espero é que eles gostem, valorizem e tenha vontade própria de continuar esse trabalho”, explica.  Ele mesmo sabe que será um sucessor do seu pai, Carlos Viacava, que atualmente trabalha lado a lado do filho na seleção de Nelore mocho da família, em Paulínia, interior de São Paulo. 

“Sucessão é sobre ter orgulho daquilo que você faz, mostrar seu trabalho para os filhos desde pequenos. Na nossa classe brasileira de agropecuaristas falta um pouco de orgulho, ou faltou ao longo das gerações. Às vezes a pessoa quer logo que o filho vá estudar na cidade, morar na capital, ser médico, advogado. É tão comum conhecer médicos que são filhos de médicos, advogados que são filhos de advogados, mas, na nossa classe, não é tão comum conhecer pecuaristas que tiveram pais pecuaristas”, opina Ricardo. 
Carlos Viacava adquiriu sua primeira propriedade em 1976, mesmo ano de nascimento do seu quinto filho, Ricardo, que é o caçula e único filho homem da família. A seleção do Nelore CV, marca fundada por Carlos, começou em novembro de 1986, com aquisição de 50 fêmeas OB, escolhidas com todo cuidado pelo amigo e grande incentivador do novo plantel, Ovídio Carlos de Brito. Hoje, 30 anos depois, com três fazendas no interior de São Paulo e um rebanho composto por 2,2 mil matrizes Nelore Mocho PO, a seleção coloca anualmente no mercado 600 touros e 200 matrizes. 
Ricardo sempre conviveu muito com o pai, de maneira natural. Criado na cidade, a diversão dele quando criança era ir para fazenda. Andavam por longas horas pelos campos, conversando, e Carlos ia mostrando ao menino o início de um sonho. O sucessor diz se lembrar de quando viu pela primeira vez as vacas chegando. “Nem tínhamos estrutura direito e o gado foi chegando, fomos aprendendo juntos como fazia aquilo”, conta. A caminhada compartilhada levou Ricardo a se interessar pelos negócios do pai, que agora também são dele. 
Casado com a também filha de pecuarista Ana Luiza Junqueira Vilela, Ricardo é pai dos trigêmeos de cinco anos Helena, Francisco e Sebastião. As férias são sempre na fazenda, e as crianças se envolvem de verdade na rotina: andam a cavalo, vão para o curral, cuidam dos animais e participam do trabalho ao lado do pai. Os três tem em comum o gosto pela terra, mas cada um tem uma predileção. Francisco é o mais ligado aos animais, já Helena gosta também das plantes e flores, enquanto Sebastião adora tratores e quer saber mesmo é do maquinário das fazendas. Cada um a sua maneira, todos aprenderam a valorizar e amar o trabalho da família, porque tiveram o exemplo dentro de casa. 

De pai pra filha 
Helder Galera foi um sucessor que se tornou um dos mais queridos e admirados pecuaristas que já passou pela família nelorista. Filho do fundador do rebanho J.Galera, José Galera, Helder era empreendedor e visionário, colaborando em muito para história da raça no Brasil. Foi ele quem criou a modalidade de venda de gado chamada shopping, que hoje é usada por todo país. A seleção no interior de São Paulo foi responsável pela descoberta e criação de potenciais reprodutores, como Fajardo da GB, comprado ainda bezerro, e as fêmeas Ópera da SM e Endívia da J.Galera, matrizes símbolo da JGal.  
Com apenas 46 anos de idade, Helder já era um colecionador de premiações e títulos da raça Nelore, quando faleceu, em junho de 2009, vítima de câncer no fígado. Deixou o pai, a esposa Solange Galera e dois filhos: Lucas e Fernanda Raia Galera. Além da família de sangue, deixou também toda família nelorista órfã de um grande amigo e incentivador. Em 2010 o plantel J.Galera foi liquidado em um emocionante remate na Fazenda Eldorado, em Pontalinda (SP). Foram mais de mil convidados e 99 lotes ofertados, faturando quase R$ 28 milhões, o que demonstra a força do plantel na pecuária seletiva. Ali, o Nelore J.Galera se despedia. Mas a força da sucessão ainda iria falar mais alto.
A filha de Helder, Fernanda, guarda com carinho as memórias da infância ao lado do pai. Ela conta que, nas férias, o pai a acordava e ao irmão gritando de longe: “Quem vai com o papai para fazenda?”, e os dois pulavam correndo da cama, sabendo que tinha chegado o momento mais empolgante das férias: ir para fazenda. Quando eram férias de julho, a alegria era ainda maior: tinha leilão da J.Galera, e os pequenos passavam todo o mês na fazenda participando dos preparativos, e depois do remate. 
Fernanda gostava da movimentação na fazenda, de estar entre os bezerros, brincar no curral e andar a cavalo. Porém, aos olhos da criança, aquilo tudo era diversão, e ela não imagina que podia estar tendo uma das maiores aulas da sua vida. Antes do falecimento do pai, Fernanda ainda não tinha percebido o tanto que que gostava da criação. Por influência de Helder cursou Administração e trabalhou na área, se voltando para sucessão do rebanho J.Galera somente anos depois. 
“Eu amo o que faço. Eu já sabia que gostava desde criança, mas não sabia que era tanto. Hoje, penso no quanto eu deveria ter prestado mais atenção naquela época, teria aprendido muito mais coisas com meu pai e toda infância na fazenda. Eu sempre amei o campo, mas sinto que o falecimento do meu pai despertou uma chama em mim. Agora, com a missão da Agropecuária Helder Galera nas mãos, eu percebi que precisava mesmo continuar esse trabalho. E o que não aprendi naquela época, aprendo agora com os amigos que meu pai nos deixou”, conta a sucessora. 
Fernanda tem nas mãos uma tradição de 25 anos para prosseguir, e hoje tem consciência disso. Atualmente é ela, na companhia da mãe Solange, a responsável pela nova propriedade que abriga a genética JGal. A Fazenda Galícia, em General Salgado, no interior paulista, é o cenário para essa tradição, que se renova com a marca Agropecuária Helder Galera, uma homenagem ao pai, filho, esposo e pecuarista.
“Meu pai nunca forçou a gente a seguir o caminho dele, nem tentou. Foi tudo muito espontâneo. Na época eu ainda não sabia, mas a sementinha do amor pelo campo tinha sido bem plantada, naturalmente. Por isso, hoje eu sei que posso levar a frente essa pesada responsabilidade”.
Na abertura do Leilão Helder Galera edição comemorativa de 25 anos da seleção, em julho desse ano, Fernanda e Lucas receberam das mãos do avô e fundador do plantel, José Galera, a marca simbólica da Agropecuária Helder Galera, representando a transferência do título para os netos. “Por todos os cantos que vou, todo mundo fala da Agropecuária J.Galera como referência em seleção, e por isso sei que não posso decepcionar esse legado. Hoje tenho certeza, vamos dar continuidade a essa história”, garante Fernanda. 

Tabapuã em continuidade
A Fazenda Rodeio Gaúcho está situada no município de Araruama, interior do Rio de Janeiro. Seu proprietário, o engenheiro agrônomo Bruno Gregg, já era pecuarista quando conheceu o zebuíno Tabapuã, em 1983, mas a seleção só começaria mais tarde, em 1998, com a aquisição de um touro e 16 vacas na Fazenda Água Milagrosa, de Tabapuã (SP). Nessa época, ele já tinha três filhos na faixa dos 20 anos, e um deles já sabia que seguiria os passos do pai. 
Márcio Gregg não é um sucessor, mesmo porque seu pai está vivo e com a intenção de trabalhar ainda muito tempo. Mas é ele que será, um dia, responsável por manter os negócios da família no campo. Ele cresceu com os dois irmãos na fazenda, na época em Santa Catarina, e amadureceu com o gosto pela terra. Depois, mudou-se para cidade, mas não perdeu a ligação com o campo. 
Na juventude, passou a ir à fazenda só durante as férias, mas manteve a ligação com a terra. Tanto que Márcio nunca pensou em ser outra coisa além de pecuarista. Mas, o interesse real surgiu no Ensino Médio, na hora de decidir que faculdade. Foi quando, pela primeira vez, ele pensou na contribuição que poderia dar ao trabalho de seu pai. Com essa intenção, aos 24 anos formou-se engenheiro agrônomo, como o pai, e hoje trabalha juntamente com ele. Atualmente com 36 anos, ele já poderia dizer que está preparado para sucessão.
Márcio está direta e diariamente envolvido com os projetos da seleção Tabapuã Gregg, além de ter sido nomeado como diretor técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Tabapuã (ABCT), da qual seu pai também participa como integrante do Conselho Consultivo. Com o apoio do pai e do gerente Washington Luís dos Santos, Márcio coordena todas as atividades de manejo e comerciais da seleção, fazendo que tudo aconteça de forma organizada e eficiente. Seu pai, Bruno, também está presente na rotina dos negócios, e os dois seguem o trabalho lado a lado, mesmo quando algumas ideias divergem. 
“O que eu tenho de idade, meu pai tem de formado. São duas gerações diferentes, então, nem sempre temos as mesmas ideias. Mas constantemente buscamos trabalhar em sintonia e conversar muito. Tiramos o que cada uma de nossas gerações tem de melhor e aplicamos em benefício da fazenda. Admiro meu pai e a capacidade que ele tem de agregar as pessoas em volta de uma causa, de despertar o respeito de uma equipe e cultivar amizades”, afirma Márcio. 

Nome de família
A Fazenda do Sabiá, nas margens da represa de Furnas, em Capitólio, Minas Gerais, costumava ser um recanto de lazer. Mas Alberto Laborne Valle Mendes queria que o lugar produzisse. O proprietário da fazenda vinha de um caminho traçado na construção civil, mas enxergava o potencial de suas terras. Começou a explorar essa potencialidade com a pecuária leiteira, mas o que arraigaria a família Mendes na fazenda seria o Nelore. Foram 150 matrizes iniciais, no final da década de 1960. Pouco tempo depois, Alberto conquistou o título de melhor criador e melhor expositor em Uberaba e, gradualmente, foi colocando o nome da Fazenda do Sabiá na história do Nelore brasileiro. 
Alberto continua administrando os negócios da família, mas quem está diretamente responsável pela seleção é Roberto Alves Mendes, o Beto, seu quinto e mais novo filho. Ele, que cresceu paralelamente à Fazenda do Sabiá, mas sempre morando na cidade, nunca achou que o seu futuro estava entrelaçado a ela. Quando criança, Beto já convivia com o Nelore, mas não era muito ligado. Acompanhava o trabalho do pai com admiração, mas de longe, acreditando que aquele não era seu negócio. Formado em Economia, trabalhava na área quando foi convidado pelo pai a se juntar ao mundo da pecuária. 
Em 1997 Beto aceitou o desafio de levar o nome da família adiante. O hoje nelorista convicto salda as reviravoltas imprevisíveis do destino. “A vida dá voltas e às vezes dá voltas muito boas. No meu caso, tive a felicidade de me encontrar profissionalmente e pessoalmente dentro da raça Nelore e do trabalho de seleção do meu pai. É uma responsabilidade muito grande, um trabalho de muita seriedade, honestidade e critério de seleção. Ter esse legado é muito forte”. 
“Meu maior orgulho é dar continuidade ao trabalho que foi feito com muito esforço, seriedade e respeito pelo meu pai. Tudo que eu poderia mais me orgulhar é continuar com o trabalho da Fazenda do Sabiá e fazer jus ao nome do meu pai, com cuidado e carinho para preservar esses quase 50 anos de história. E eu tenho certeza que vou continuar fazendo isso por toda minha vida”. 

Um século de sucessões 

Na entrada da Fazenda Ipê Ouro, em meio aos ipês amarelos, uma placa erguida conta, em uma frase, muito de história: “Em cada geração, um trabalho de seleção”. O que começou com o visionário Rodolfo Machado Borges, com animais importados da Índia, marcou o nome da marca R já na primeira ExpoZebu, em 1935, quando o reprodutor Guarujá Importado foi o grande campeão. Depois, seu filho Arnaldo Machado Borges o sucedeu na década de 1940, e este, por sua vez, foi sucedido em 1980 pelo seu filho e xará, Arnaldo Manuel de Souza Machado Borges, conhecido como Arnaldinho.  Agora, a Ipê Ouro já está na sua quarta geração, pensando na quinta. 
Médico veterinário, assessor pecuário, vice-presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), e grande selecionar, Arnaldinho é uma referência no universo do Nelore. Conhecido Brasil a fora como grande entendedor da seleção zebuína, ele não tem muito tempo para se dedicar exclusivamente à fazenda. Mas quando ele embarca para uma viagem, vai tranquilo. Sabe que os negócios estão em boas mãos: as mãos de quem cresceu já envolto por aquele mundo. 
Ana Carolina, João Marcos, Maria Isabel e Manuel Eduardo são os quatro filhos de Arnaldinho, mas quem vai ganhar um nome na placa da entrada da Fazenda Ipê Ouro é João Marcos, o primeiro filho homem. É ele que está diariamente na propriedade, acompanhando a organização e administração de tudo. Ele é o sucessor natural da seleção, e sempre sentiu que seria esse mesmo o seu destino. 
“O meu interesse pela agropecuária surgiu espontaneamente, já que é uma coisa que está na família desde o meu bisavô. Desde que eu me entendo por gente estive na fazenda. Passava as férias lá e acompanhava meus pais nos julgamentos e leilões quando tinha oportunidade. Quando chegou a hora de escolher uma profissão, nem pensei a respeito da área que ia seguir. Naturalmente eu já sabia o que eu ia fazer no futuro. Nunca nem passou pela minha cabeça seguir um caminho diferente do da minha família”, conta João Marcos. 
Como o pai, cursou a faculdade de Medicina Veterinária e rumou para trabalhar na seleção, sempre com grandes professores ao lado: o pai e o avô. João acredita que ele é um privilegiado por ter fontes tão ricas de conhecimento na família. “Todo conhecimento e oportunidade que tenho devo ao meu pai, meu avô e meu bisavô, que constroem essa história há tanto tempo. Existem coisas que não se aprende na universidade, e existem aquelas coisas que só um pai ensina, e eu tive a sorte de amar uma profissão que também é a dele”, conta. 
Para João Marcos, a maior herança que seu avô deixou para seu pai e seu pai deixará para ele são as porteiras abertas. Agora, ele tem a missão de incentivar outra pessoa a manter essas porteiras abertas: seu filho, João Francisco. Mas, aparentemente, não será uma tarefa difícil. O mais novo sucessor da família Machado Borges já está envolvido e adora a vida no campo. “Minha responsabilidade maior é passar para meu filho os valores que recebi do meu pai, e torcer para que ele leve adiante o início de mais 100 anos de seleção”. 

Herança de avô 
Em 1970, a família Machado comprou a Fazenda Mutum, em Goiás, que já na época tinha como principal atividade a produção de leite. O patriarca da família, Leonídio Machado, deu prosseguimento à pecuária leiteira, e na década de 1980 começou a usar o Gir Leiteiro. Era ali o início de uma seleção que se tornaria uma das mais premiadas nas pistas de julgamento da raça: o Gir Leiteiro da Mutum.
Com a família sempre unida, o senhor Leonídio incentivou a participação do filho, Léo, nas atividades da fazenda e no gosto pelo gado. Léo sucedeu o pai nos negócios e agora assiste com orgulho o filho, Bruno, seguir seus próprios passos. “Bruno é veterinário, apaixonado pela fazenda. Faz o que gosta, assim como todos nós. Acredito que ele sempre soube que seguiria meus passos, sempre gostou de bichos e escolheu ser veterinário”, conta o pai. 
Nascido em Brasília, em 1984, Bruno de Souza Machado Ferreira passava todos os finais de semana na fazenda, com o avô e o pai. Andava a cavalo, brincava com os bezerros e pescava, sempre demonstrando uma inclinação natural para vida de pecuaristas. Quando fez 16 anos, abandonou a vida na capital do país para se dedicar a sua paixão pelo gado Girolando e Gir Leiteiro. Foi para fazenda no município de Alexânia (GO) para aprender a lida. Dois anos depois, estava completamente convencido de que aquela era a vida que ele queria. 
Graduou-se em Medicina Veterinária em 2008, e hoje administra de perto a seleção Mutum. “Eu e meu pai administramos juntos toda a atividade da fazenda: fazemos acasalamentos, apartação para pista, preparação para concurso leiteiro ou leilões, enfim, estamos sempre trabalhando juntos. Costumo dizer que sou um privilegiado por poder ganhar a vida fazendo uma das coisas que mais amo. E o mais importante nessa trajetória foi o apoio total que a família sempre me deu. Isso não tem preço, é muito gratificante”, conta.
Um momento síntese do amor pela seleção passado de pai para filho foi a realização de um leilão dentro da fazenda. Promover um evento nas dependências da propriedade era um sonho antigo do senhor Leonídio, e ele teve o prazer de realizá-lo ao lado dos filhos e netos.  Bruno conta que, com muita dedicação e esforço, promoveram o 1º Mutum Weekend, um final de semana de remates, em 2013. Foi através do empenho coletivo que o trio conseguiu reuniu tudo que mais gostam no mesmo lugar: a fazenda, a família e o Gir Leiteiro. Para família Mutum, fica claro que o que mantém o campo vivo é a sucessão através de um trabalho familiar unido, que preze o respeito pelo trabalho.