Publicado em: Pecuária

Amado país a fora pela música sertaneja, Zezé di Camargo hoje também é um respeitado nelorista. Ele chegou aos poucos, foi conquistando espaço com humildade, e hoje está entre os melhores selecionadores da raça. Zezé recebeu a equipe da Revista Pecuária Brasil na Fazenda é o Amor e contou porque é apaixonado pelo Nelore

Por Cláudia Monteiro

Fotos Gustavo Miguel

Zezé Di Camargo tem sua história conhecida pela música, e sua trajetória de vida, que começou na roça, já virou até filme. O filho de Francisco sempre teve um carinho especial pela vida no campo, e assim que começou a ganhar dinheiro cantando, comprou sua fazenda.  Adquirida há 20 anos, a Fazenda É o Amor, nome de uma de suas músicas de maior sucesso e representação do carinho de Zezé pelo campo, tem 1,5 mil hectares e um projeto para seleção de animais de alto desempenho. O zootecnista Murilo Canedo, sobrinho de Zezé, é o coordenador de todas as atividades na propriedade, fazendo o papel de “olhos” do dono dos bois. Ele comanda a administração juntamente com seu pai, o senhor Íris, que acompanha Zezé desde a aquisição da fazenda. Assim, o cantor nelorista consegue manobrar as outras funções, às quais também se soma a de empreendedor imobiliário. Na fazenda são 500 matrizes, sendo 12 doadoras consagradas, além de 45 animais em sociedade. A meta é produzir 400 embriões por ano. Hoje com 53 anos, Zezé pensa em produzir genética com excelência para, no futuro, apostar na pecuária extensiva. E garante para quem pensa em investir na atividade: vale a pena. 

Pecuária Brasil . Em um depoimento, você diz que no seu pensamento de menino queria ser cantor e pecuarista. Explique como tudo aconteceu. Como e quando você se tornou um verdadeiro pecuarista? 
Zezé di Camargo . Eu vivi no interior, no sítio do nosso avô, pai da minha mãe. Cresci vendo meu avô cuidando de um pequeno rebanho de leite, produzindo requeijão, queijos. Cresci naquele meio. Por isso, desde criança meu sonho era ter um pedacinho de terra. É claro que, na época, não tinha como eu mensurar isso. Aonde eu chegaria. Pra mim, ser rico era ter aquelas vaquinhas que meu avô tinha. Com o primeiro dinheiro que ganhei fazendo sucesso na música, em 1993, eu comprei essa fazenda que hoje é a seleção Nelore É o Amor. Era só uma casinha e um pequeno curral, até parecia com o sítio onde fui criado, e em 1994 eu já tinha feito toda a estrutura que tenho aqui agora. Transformei em uma fazenda de verdade, e um local de lazer para mim e minha família, que sempre foi um sonho meu. Com o tempo, pensei em colocar gado. Compramos bezerros para engordar e abater. Mas eu sempre fui muito apegado ao animal, eu via a carreta saindo daqui para ir para o abate, e aquilo me cortava o coração. Foi quando, por volta de 2005, meu sobrinho Murilo Canedo começou a fazer faculdade de Zootecnia, e eu disse para ele que, se ele quisesse, o primeiro emprego dele seria na minha fazenda para desenvolver um novo projeto. Foi esse o momento que nos tornamos parceiros e partimos para uma coisa mais seletiva. Começamos a comprar, participar de leilões, fazendo parcerias com gente que já entendia mais, não avançamos de uma vez. Fomos devagarzinho e, hoje, depois de dez anos de caminhada, posso dizer que estamos entre os grandes criadores do país, sem sombra de dúvida. Em qualidade, nosso plantel está a altura de qualquer um. Me confirmou o Wagner Peroto na apresentação do meu leilão.

PB . Se é verdade que o olho do dono que engorda o boi, como conciliar duas carreiras que exigem tanto tempo e dedicação, como a de músico e pecuarista?
ZC . Eu tenho quatro olhos, na verdade. Os meus dois e os dois do Murilo. Não tem como conciliar a carreira de músico e pecuarista quando você quer dar o melhor de si para as duas atividades. Não tenho tempo de vir sempre aqui. Venho aqui duas vezes por ano, e olhe lá! Eu preciso de alguém de confiança. Se você não tiver alguém que cuida do negócio, que você pode deixar nas mãos com confiança, é melhor nem tentar. Murilo é sobrinho meu, criado com meus filhos. O Murilo é apaixonado pela pecuária assim como eu sou pela música. E, hoje, o vejo trabalhando dentro dos leilões e percebo que ele conseguiu o respeito e admiração de grandes pecuaristas. Tem a vocação. 

PB . Como você participa da seleção?
ZC . Eu sou uma pessoa muito intuitiva para tudo na minha vida. Acredito que o artista tem esse privilégio: a capacidade de enxergar coisas que outras pessoas não veem. Não é uma premonição, é um sentimento de olhar e saber o que vai dar certo. Nunca errei uma compra, mesmo não entendendo como o Murilo entende. Ele mesmo diz o quanto é surpreendente, até as vacas que eu compro sem ele saber, são escolhas acertadas. Ele brinca comigo que vaca que nunca produziu, eu faço produzir. Teve animal que eu escolhi e um ano depois deu muito lucro. 


PB . E por que você escolheu o Nelore?
ZC . Pela beleza do animal. O zebuíno é o gado mais bonito do mundo, e o Nelore é a vedete do Brasil. É um gado rústico com beleza de carcaça. De todos os animais que já vi no mundo, nos Estados Unidos e em outros lugares: podem ser até mais pesados, mas são feios, nem parecem gado. O Nelore tem postura, cabeça  imponente e traseira porcional, principalmente as fêmeas. Parece uma miss desfilado. Além disso, é dócil. Gosto demais de todos meus animais. 

PB . Como você imagina o futuro do Nelore É o Amor? 
ZC . Até o momento, não nos arrependemos de nenhuma vírgula. Fazemos tudo com muito carinho e cuidado, e é uma coisa que eu quero continuar pela paixão que eu tenho. A pecuária é o terceiro dos meus negócios: sou cantor, empreendedor imobiliário e pecuarista. Mas, em questão de amor, a música e a pecuária disputam o primeiro lugar. O Nelore é mais do que uma raça, é uma família. Gostaria de até prestigiar mais os meus amigos, mas infelizmente não é sempre que posso estar nos leilões, por exemplo. Mas o meu futuro será nessa família, nesse meio. 

PB . Você indicaria a pecuária como investimento?
ZC . Com certeza, para todos que conheço. Meus amigos, artistas, todos com quem eu tenho contato, falo bem do Nelore e da produtividade dele. Algumas celebridades entraram para o ramo, não investiram corretamente e saíram decepcionadas. Mas eu sempre digo: pelo caminho certo o Nelore só pode dar certo. Eu já tive lucro aqui nesse negócio que é inimaginável em outros. Já comprei um embrião por R$ 11 mil de parcela, uma filha da Essência, nasceu a bezerra e, seis meses depois, eu vendi por R$ 33 mil a parcela. 

PB . Qual seu conselho para quem quer começar?
ZC . Pé no chão, caminhar devagar, encostar-se nas pessoas que já estão no meio e conhecem, fazer amizades, tudo com muita humildade. Tem um ditado que diz, “você não precisa saber tudo, você precisa conhecer quem sabe”. Não subestimar o meio, como eu nunca subestimei. Não achei que eu ia chegar ali e ter algum diferencial porque sou artista. Ali no leilão, eu sou Zezé nelorista, não o cantor, e é assim que eu gosto. Depois disso, quem está começando precisa iniciar a produção, fazer o seu produto, melhorá-lo e mostrar. É preciso ir devagar, apalpando, comprando bem, para ir crescendo aos poucos. Ter uma pessoa de confiança, caso você não possa se dedicar totalmente, e fazer essa pessoa crescer e adotar o negócio com você. A pecuária exige esse empenho. Apostar em assessoria técnica é importante também. Não adianta ter o carro e não ter o piloto.

PB . Como você enxerga a pecuária brasileira hoje? 
ZC . O agronegócio é a grande salvação de economia brasileira. É o que tem salvado a gente. É o agronegócio que equilibra a balança comercial, e tem sido assim há muito tempo. Qualquer superávit que existe vem do agronegócio, sem sombra de dúvidas. Infelizmente passamos por uma crise atualmente, mas pode notar que dentro da pecuária o crescimento se mantém. O Brasil é um país de extensão territorial muito grade, e nosso solo é muito diverso, então o potencial é imenso. A carne brasileira é uma das melhores do mundo, porque temos aqui o chamado boi verde. Além disso, temos o Ministério da Agricultura (Mapa), que cuida muito bem da parte sanitária do país. Então, acredito que a pecuária é hoje o maior motor em potencial do Brasil. A pecuária é, e continuará sendo, a mola propulsora desse país. 

PB . Qual a maior dificuldade de ser pecuarista?
ZC. Eu não acompanho de perto, mas percebo que, hoje, no Brasil, uma grande dificuldade é o relacionamento com o governo. Sinto que ainda existe uma parte dos políticos que marginalizam a classe rural, principalmente no governo atual. Existem os favelados das grandes metrópoles, mas existem também pessoas na mesma situação no campo, sem emprego e com moradia precária. A salvação desse cenário é agropecuarista. O pecuarista emprega e dignifica essas pessoas, e por isso merecia mais atenção do poder público. Se o governo não atrapalhasse já estava bom demais. 

PB . Em quem você se inspira no mundo da pecuária?
ZC . Corro um risco enorme de ser injusto ao esquecer alguns nomes dessa lista. Mas vou citar pessoas que me incentivaram bem no início: Eurípedes Barsanulfo, um grande nelorista; Orestinho Prata, que sempre observei e admirei; e, Cícero de Souza, outra pessoa que me inspira e hoje é um sócio. Essas pessoas me deram os horizontes para eu ser quem sou hoje.