Publicado em: Pecuária

Por Fernanda Birolo
Fotos Embrapa Semiárido 

São exemplares descendentes diretos da segunda importação de bovinos da raça oriundos do Paquistão, realizada em 1952. Desde 1996, passaram para o domínio da Embrapa Semiárido, onde vêm sendo mantidos como um rebanho fechado, sem cruzamento com outras linhagens. “Por isso pode ser considerado o gado Sindi mais puro do Brasil”, afirma a pesquisadora da Embrapa Semiárido, Rosângela Barbosa.

O registro dos animais foi recebido com muita expectativa pelos criadores da raça. De acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Sindi (ABCSindi), Ronaldo Bichuette, existia uma grande demanda de gado importado para refrescar o sangue dos rebanhos nacionais. Agora não é mais necessário buscar animais na Índia ou no Paquistão. “O gado está aqui”, comemora Ronaldo. 
Ele explica que o refrescamento dos rebanhos é importante para evitar defeitos no acasalamento provocados pela endogamia (cruzamento entre parentes). Como a população de Sindi no Brasil ainda é pequena, restrita a poucas famílias, é necessário buscar animais da mesma raça, mas sem parentesco, como é o caso do rebanho da Embrapa. Além disso, o gado pode contribuir emprestando as qualidades que ele já tem para outros animais, pois, segundo o presidente, “o Sindi é naturalmente um gado rústico, mas esse aqui é mais ainda”.
Luiz Claudio Paranhos, presidente da ABCZ, ressalta que o Sindi também está encantando criadores de outros zebuínos, a exemplo do Nelore ou Guzerá. “Nós falamos muito que ele é capaz de produzir em condições adversas, mas ele também é capaz de contribuir para produzir em condições boas. Assim, todo esse potencial se traduz em um melhor híbrido como resultado do cruzamento com outras raças zebuínas”, destaca. 
Para ele, o registro desses novos animais é uma grande alavanca para a raça. “Se esse núcleo, que até então estava fechado só na Embrapa, começar a ser disponibilizado ao mercado, vai ajudar todos os selecionadores a ampliarem a sua variabilidade genética, para selecionar e conseguir identificar melhores linhagens de produção”.
Uma parceria entre a Embrapa e a ABCSindi está sendo discutida para disponibilizar aos criadores o material genético deste rebanho. Os primeiros passos foram o estudo da pureza genética do gado, realizado pela Embrapa Gado de Leite, em Juiz de Fora (MG), e o recente Registro Genealógico feito pela ABCZ. As próximas etapas incluem a implantação do controle leiteiro e avaliações dos animais para identificar, dentro do grupo, aqueles de melhor desempenho ponderal. Também está sendo estudada pela Embrapa a melhor forma de repassar esse material, considerando as normas de negociações de contratos públicos com entidades particulares.

Gado para o Semiárido 
O Sindi é originário de regiões áridas e semiáridas do Paquistão. Por isso ele é também uma aposta para o Nordeste do Brasil, que apresenta áreas com características semelhantes, como a escassez de água e de alimentos. “O gado é bastante rústico, e se adapta bem a condições como estas”, afirma a pesquisadora Rosângela Barbosa, contratada em 2014 especialmente para trabalhar com a raça.
Segundo ela, entre as principais características do Sindi está a capacidade de transformar alimentos de baixa quantidade e qualidade nutricional em carne e leite. Também apresenta outros aspectos de rusticidade, como resistência a doenças infecto-contagiosas, alta capacidade reprodutiva – sendo capaz de se reproduzir e produzir leite mesmo com condição corporal baixa -, além de ser um animal bastante dócil. Até o momento, poucas pesquisas foram realizadas com o Sindi no Semiárido, mas as boas condições do rebanho da Embrapa, criado com pouco alimento além da vegetação nativa da Caatinga, são prova do potencial para a criação bovina na região. 
A experiência de criadores do Nordeste também aponta para a viabilidade da raça. Paulo Roberto Leite, pecuarista do município de Queimadas, na Paraíba, conta que já teve outros zebuínos, como o Gir, Nelore e Guzerá, mas somente o Sindi apresentou bons resultados. Entre outras vantagens da raça, ele destaca a capacidade de andar à procura de água e de alimentos, pois seu casco pequeno e forte faz com que se locomova com facilidade, e a pelagem vermelha é bem mais apropriada para o clima da região. 
Para ele, é também uma aposta para o futuro: “Eu tenho a impressão de que o Sindi vai ser uma referência para a pecuária tropical em países do mundo inteiro, pois cada vez mais o clima está sofrendo modificações, e esse gado é a esperança de ter uma raça que possa ser produtiva nestas condições”, opina o pecuarista. 

Pesquisas futuras
Tendo em vista as características e o potencial do gado Sindi para o Nordeste, além da criação em outras regiões do Brasil, a Embrapa Semiárido está elaborando novos projetos de pesquisa visando estudar aspectos como o melhoramento genético, reprodução e qualidade do leite, carcaça e carne desses animais. Para isso, aproveitou a oportunidade do registro do gado para ouvir a demanda dos criadores presentes na ocasião, em reunião com a chefia do centro de pesquisa e os pesquisadores da área.
O registro do gado também marcou o início das atividades do Centro de Manejo de Bovinos da Caatinga, recém construído pela Embrapa Semiárido. O curral foi projetado para atender às exigências de bem-estar dos animais. Nele serão realizadas atividades de manejo reprodutivo e zootécnico, vacinação, marcação, entre outras.