Publicado em: Pecuária

Aos 12 anos, Cláudia Tosta Junqueira já respondia que seria fazendeira para quem perguntava o que ela gostaria de ser quando crescesse. Quarta geração da família a tirar o sustento da terra, Cláudia adquiriu ao longo da vida um conhecimento profundo sobre o funcionamento de uma propriedade agropecuária, e hoje é referência e exemplo de agropecuarista de sucesso. Procurada por muitos criadores e amigos, Cláudia é conselheira de selecionadores por todo Brasil e no exterior. 
Determinada e guerreira por definição própria, está diariamente dentro da fazenda, em Guará, interior de São Paulo. O escritório e a residência ficam no mesmo lugar, o seu favorito no mundo: a fazenda. Lá fica o centro de seleção do Nelore CTJ, projetado e executado por Cláudia. Em outras oito fazendas espalhadas pelo país, a fazendeira também cria gado de corte, planta soja, cana-de-açúcar e milho. Já exportou mais de três mil cabeças com a genética CTJ, e andou por toda Europa conhecendo a pecuária de outros países. De quebra, ainda realiza anualmente o Leilão Nacional, um dos mais esperados da ExpoZebu. 
Tantas atividades não são um fardo para Cláudia. Ela se considera uma pessoa sortuda e abençoada por amar o que faz e trabalhar com o que ama. Nunca morou na cidade, e nem planeja. Cláudia tem orgulho e carinho pela profissão, o que a qualifica como legítima fazendeira e conhecedora das dificuldades do campo. Em entrevista à Revista Pecuária Brasil, Cláudia fala sobre sua trajetória, a vida de pecuarista, mercado, cenário da política nacional e ainda revela os projetos da CTJ Agropecuária. 

 

Pecuária Brasil . De onde veio a crença de que investir na pecuária vale a pena?
Cláudia Tosta Junqueira . Vim de família de pecuaristas. Meu bisavô já era criador tradicional na região. Desde criança tenho essa paixão, esse amor nato pela fazenda. E eu vejo que a pecuária vale a pena porque é disso que eu vivo. Eu não sou uma proprietária de fazenda, eu sou realmente uma fazendeira. Acompanho diariamente as atividades da fazenda, amo o dia-a-dia no campo e meu trabalho. Essa é minha vida, é o que faço para viver, por paixão, vocação, por profissão.

PB . E hoje, como estão os negócios? Como vai o trabalho da CTJ Agropecuária?
CTJ . Hoje temos um grande trabalho com cana-de-açúcar. São 14 mil hectares de plantação, o auge da nossa produção. Já nosso projeto pecuário está completo. Daqui pra frente é ampliar o trabalho e produzir ainda mais matrizes puras, que é o nosso foco. Hoje já temos 1,5 mil matrizes de elite e 18 mil fêmeas de campo. A nossa meta é elevar todo esse rebanho ao nível de Puro de Origem (PO). Todo ano, registramos mil novilhas Livro Aberto (LA). A meta é atingir um rebanho cada vez mais puro. Investindo em genética forte, pretendo chegar ao patamar de só trabalhar com matrizes puras, e não trabalhar mais com gado misto. Acredito que toda raça deva ser pura. O nosso trabalho de seleção de elite também nos traz resultados muito positivos. Eu ando pelo Brasil e sinto o reconhecimento das pessoas ao conversar com elas. Além disso, estamos exportando para Venezuela e Senegal, o que mostra a qualidade do nosso gado. 

PB . Como você enxerga a pecuária brasileira hoje, nesse estágio atual?
CTJ . A pecuária é a única coisa que vai bem nesse país de ponta cabeça. As dificuldades ambientais tem atravancado demais o avanço, mas temos lutado pelo agronegócio. A parte jurídica do país não ajuda o produtor rural. Inclusive, essa é uma das principais frentes da chapa para nova diretoria da ABCZ, da qual sou integrante, e o querido Arnaldinho é presidente. Queremos uma aproximação com o Governo Federal para que ele proteja mais o produtor rural, não deixando que a gente seja penalizado e perca áreas tão grandes. Uma associação como a ABCZ precisa ser respeitada, pretendemos fazer um trabalho muito interessante. 

PB . Como a pecuária consegue segurar o crescimento da economia brasileira? 
CTJ . Economicamente a pecuária vai bem, se mostrando forte. Do ano passado pra cá, tivemos uma alta de 40% no preço da arroba, o que nos beneficiou. Somos o segundo maior rebanho comercial do mundo, estamos na frente e ainda somos um ponto de referência. O agronegócio consegue se manter porque é um setor produtivo, que gera riquezas. Com esse clima maravilhoso, nossa pecuária tem um custo muito baixo. Além disso, o setor investiu em tecnologia e melhoramento genético, aumentando em muito nossa eficiência para produzir. O boi é a única mercadoria que cresce na prateleira. O animal que pesa 8 arrobas (@) hoje, pesa 16 no ano seguinte: ele dobra de tamanho. Se você tem um apartamento de três quartos, ano que vem ele vai continuar tendo três quartos. A pecuária é sólida, dá segurança para quem investe. Todos os outros investimentos são de risco, mas com a pecuária você não perde. 

PB . Como melhorá-la ainda mais?
CTJ . O caminho para o grande passo melhorador chama-se genética. É uma coisa que está diretamente ligada ao custo-benefício da atividade. Quanto custa produzir um animal ruim e um animal bom? Se isso for colocado na balança, o pecuarista vai perceber que a genética de qualidade faz uma diferença enorme quando você joga no campo. A única forma de sermos ainda mais competitivos é trabalhando com genética. 

PB . Como está o mercado da carne hoje? A arroba do boi está em um preço satisfatório para o pecuarista?
CTJ . A arroba está com um preço muito bom. O ideal para hoje é R$180, mas já estamos em R$ 145, muito próximo. Por mais que não seja espetacular, é uma margem quem dá para trabalhar com bons lucros. E a tendência é de melhorar cada vez mais o preço da arroba. No mercado internacional, a carne vai ser, cada dia mais, um produto disputado e caro na prateleira. Porque lá fora não existe lugar para pecuária, então por lá a carne é um produto de elite. Percebo que, a cada dia, a tendência é que o Brasil supra essa demanda. O boi hoje é um bom negócio, mas em três anos será um excelente investimento. Esse ano, vendemos muito bem na porta da fazenda, um gado muito bom por um preço até 50% acima do de mercado, porque a procura foi grande. A tendência é melhorar cada dia mais. 

PB . Com a alta do dólar, os compradores internacionais estão de olho no nosso mercado. Como isso é refletido para o mercado pecuário e seus produtos? 
CTJ . O primeiro reflexo da alta do dólar é sentido pelos exportadores, a indústria. O frigorífico, que nos paga pela carne e recebe o boi inteiro, tem a chance de aproveitar melhor os subprodutos do boi. Assim, ele ganha com o câmbio bom não só na carne, mas no couro, nos cascos, em tudo. Até a alta do dólar chegar no produtor rural como lucro, demora. Chega antes com o aumento dos insumos necessários para produzir, como o sal mineral e o adubo. Existe um desequilíbrio que poderia ser corrigido remunerando melhor o produtor. Para o pecuarista, a alta do dólar é uma vantagem ilusória, porque vendemos no mercado nacional. O que aumenta pra gente é apenas o custo. 

PB . Nesse cenário, qual é (ou qual deveria ser) o posicionamento e ação do Governo Federal? 
CTJ . O Governo Federal assume uma posição de neutralidade diante do setor agropecuário. Eles não se posicionam e não atuam. O que ele poderia fazer e não faz, é promover uma política de financiamento pecuário com custos baixos e longo prazo, como ele faz em outros setores. Assim, o produtor poderia investir mais, especialmente em genética. Existe muito dinheiro no mercado que só chega para aos grandes produtores, só vemos esses pegando empréstimos. Esses recursos precisavam ser pulverizados entre os médios e pequenos produtores. A política de financiamento é muito errônea. Sai muito mais verba para agricultura do que para pecuária. É uma diferença de 80%, e isso é um absurdo. O Governo Federal se mostra muito tendencioso nesse sentido, e não atende toda demanda necessária para potencializar o crescimento do agronegócio brasileiro. 

PB . Quais as expectativas para pecuária, em especial para o Nelore, em 2016?
CTJ . O Nelore está vivendo um momento ímpar. Minha expectativa não é nem de melhora, mas sim de manter o momento atual, que é incrível. Os animais que temos visto são realmente de genética superior, e tem atingido números muito bons. Patamar altíssimo. Tudo que é bom é bem pago. E, por incrível que pareça, o Nelore de elite foi o único setor dentro do país que não esfriou. Os trabalhos continuam se mantendo, e evoluindo a cada dia. O mercado está sólido e os investidores acreditam e apostam no equilíbrio desse cenário. Para 2016, eu espero que o Nelore mantenha esse maravilhoso desempenho. O Brasil está passando pelo pior momento sócio econômico e político. Mas eu sou extremamente nacionalista, amo o nosso país acima de tudo.