Publicado em: Pecuária

POTENCIAL //A chave para potencializar a produção de leite no Brasil pode estar no aumento produtivo individual do rebanho. Pensando nisso, especialistas apontam o que é necessário para cada vaca dar mais leite 

O agronegócio do leite ocupa posição de destaque na economia brasileira. Porém, apesar da alta produção leiteira (32,3 bilhões de litros por ano), a produtividade do rebanho é baixa: cerca de 1,4 mil litros/vaca/ano. São pouco mais de quatro litros/dia. Os dados são do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), e apontam, também que, atualmente, 8,5% dos estabelecimentos de produção (cerca de 115 mil produtores) são responsáveis por 53% do leite produzido no país. Ou seja, a grande maioria dos produtores de leite (91,5%) possuem pequenos rebanhos que produzem 47% do leite brasileiro.

Os dados configuram um perfil de baixa produtividade para produção leiteira do país, embora a quantidade produzida anualmente seja crescente nas últimas décadas. Aumentar a produtividade individual das vacas é o caminho para produzir mais e de maneira mais eficiente, garantem os especialistas. Mas, transformar uma propriedade de baixa produtividade em uma grande produtora de leite não é uma tarefa fácil. 
Professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro do Conselho Deliberativo Técnico da Associação dos Criadores de Girolando, Ronaldo Braga Reis afirma que as ações para atingir esse objetivo estão alicerçadas em quatro pilares: genética, nutrição, manejo e sanidade. 
“O caminho mais curto para melhorar a produtividade de um rebanho é a integração desses conceitos necessários. Isso, somado ao gerenciamento focado, é o caminho para lucrar produzindo leite. Todas as peças do quebra-cabeça precisam estar no lugar para a máquina funcionar”, explica. 
Newton Teodoro, gerente de bovinos da Phibro Saúde Animal, concorda com o professor. “O essencial para uma vaca produzir bem é o equilíbrio entre os quatro alicerces da pecuária leiteira. Todos são igualmente importantes. Porém, no Brasil, o ponto mais deficiente é a nutrição”, explica. 
A alimentação do animal é a maior despesa de uma fazenda. Por esse motivo, às vezes é ela o primeiro alvo do corte de gastos. Porém, pode ser uma alternativa problemática. A nutrição interfere diretamente na produção do animal, e pode intervir até no feto durante a gestação, dizem os especialistas.
“Ela impacta diretamente na saúde, no bem-estar animal e na eficiência produtiva das vacas. Fazendas que mantêm rebanhos bem nutridos e saudáveis são mais rentáveis, pois alcançam melhores resultados na reprodução, tem menores índices de doenças metabólicas e infecciosas, menos descarte de animais e maior produção de leite”, aponta Newton. 
“Às vezes o produtor associa economia na nutrição com lucro na produção, quando deveria ser ao contrário. Mais investimento em nutrição gera mais lucro. Mas não é uma matemática única. Cada propriedade tem que descobrir qual sua conta para lucrar no fim do mês”, acrescenta o especialista. 
Para Lucas Barbosa, coordenador de serviço técnico da Phibro Saúde Animal, o caminho mais curto para eficiência na produção de leite é a qualidade do insumo alimentar. “Volumoso é o primeiro passo para qualquer produção de leite, seja a pasto ou confinamento. Depois, um concentrado de qualidade também. Primeiro a qualidade da alimentação, depois o resto. Já a quantidade varia de acordo com o sistema”, explica.
O pecuarista e zootecnista boliviano Glovert Esteban Eguez Foianini é a terceira geração de sua família a trabalhar com leite. Na Ganaderia Gurichi Grande, ele trabalha com o Gir Leiteiro e produz Girolando com suas melhores matrizes e sêmen importado dos melhores touros do mundo. Ele traz notícias positivas do mercado de leite boliviano, e conta que tem trabalhado com boas margens e bom preço. Mas, para lucrar, é preciso produzir bem.  
“Aproveitamento da área, nutrição, mão de obra qualificada e material genético: são esses os fatores essenciais para produzir mais. A produção de leite é como uma máquina: precisa de todas as peças desempenhando corretamente seu papel para funcionar bem. Excelente genética sem nutrição não funciona, assim como as duas juntas sem manejo também não funcionam. É necessário ajustar todas as peças”, afirma Glovert.

Glovert Esteban Eguez Foianini

 

Gir Leiteiro 
Desde 1979, a Agro Maripá produz e comercializa genética de equinos da raça Mangalarga Marchador, bovinos de corte da raça Nelore e leiteira da raça Gir, além de caprinos da raça Saanen, em quatro fazendas localizadas em São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. Com a mais alta tecnologia disponível no mercado, lá eles produzem leite de Gir com boas margens de lucro. A produção média individual é de 17 litros por vaca/dia. 
No plantel são 100 matrizes, todas participando do controle leiteiro da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). As vacas recebem suplementação com silagem de capim com polpa cítrica e ração na proporção de um quilo para cada três litros de leite produzido, descontados três litros do total diário do animal. São duas ordenhas diárias, em uma ordeinhadeira mecânica com bezerro ao pé. 
“A característica principal da raça é produzir leite a baixo custo nas condições ambientais do Brasil. A Agro Maripá sempre esteve focada na produção de leite de qualidade para atender ao público que mais necessita deste produto. Trabalhamos com melhoramento genético do Gir focado em sua origem, na Índia, local que tivemos também vacas para produzir embriões, adquirimos experiências fantásticas para termos sucesso no Brasil. Nosso foco é manter a rusticidade, garantir a qualidade do leite e perpetuar o padrão racial”, conta Marcelo Baptista de Oliveira, proprietário da empresa.


O professor da UFMG Ronaldo explica que o Gir Leiteiro é uma raça indiana e, portanto, é necessário explorar o que essa origem traz de melhor: a resistência aos desafios do mundo tropical. “Por isso, não vejo outra maneira de produzir com a raça se não for a pasto. Temos que montar sistemas de produções próprios para os trópicos, e não mudar para um sistema de produção estabelecido em países de clima temperado. Isso exige pesquisa e investimentos para gerar informação”, afirma.
Os especialistas da Phibro Saúde Animal ressaltam que a principal característica da raça é a rusticidade. “A vantagem do Gir Leiteiro é que ele tem uma tolerância maior ao calor e pasteja bem. Sendo assim, é necessário aproveitar esse potencial, otimizar o pasto, e produzir leite a campo”, aposta Lucas.  
“Não existe raça certa nem sistema certo. O que existe é vaca certa no lugar certo dando leite. Em um país do tamanho do Brasil, é arrogância tentar forjar uma única fórmula correta ou mais lucrativa de produzir leite. Cada produção tem suas peculiaridades e vai funcionar melhor de um jeito diferente da sua vizinha”, finaliza Newton.