Publicado em: Pecuária

Guzerá NF comemora 85 anos de tradição com sucesso absoluto na ExpoZebu

            O Guzerá brasileiro provou mais uma vez que é bom de balde. A raça conquistou dois recordes mundiais no concurso leiteiro da 79ª ExpoZebu. O feito foi conseguido nas categorias Vaca Jovem e Vaca Adulta. Gabiroba FIV NF, do expositor Marcelo Garcia Lack, em condomínio, chegou à marca de 33,74 kg de produção média diária; e Aurora WM, exposta por Gilson Carlos Bargieri, teve produção média de 45,5 kg, por dia. A feira também bateu outro recorde, com a produção de mais de 2,8 mil litros de leite por dia com a participação de aproximadamente de 120 matrizes das raças Gir leiteiro, Guzerá e Sindi.

            O resultado no concurso leiteiro está embasado na solidez de um dos mais antigos criatórios guzeratistas do Brasil. Propriedade da Sociedade Educacional Uberabense (Uniube), Gabiroba FIV NF é produto da Fazenda Fontenelle. O rebanho NF é detentor de genética Guzerá espalhada pelo país e pelo mundo. Construído em base concreta, os resultados podem ser vistos nas pistas de julgamento ou concurso leiteiro.

            A marca NF possui animais de destaque nos Sumários de Leite da Embrapa/ABCZ e no Sumário da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP), além das premiações. Participa do Programa de Avaliação Genética da Raça Guzerá da Associação Nacional dos Criadores e Pesquisadores (ANCP/USP); do Controle Leiteiro Oficial da ABCZ, do Programa de Melhoramento Genético de Zebus (PMGZ) e do Centro Brasileiro de Melhoramento Genético da Raça Guzerá (CBMG).

            O rebanho também participa do Programa de Melhoramento do Guzerá para Leite, fornecendo animais para Teste de Progênie (TP). Na bateria do TP/2012, a fazenda participa com o Hidrante FIV NF, com DEP parental de 462 kg, na vaga de maximização de leite. Na bateria do TP/2013, foi aprovada a participação do Hamal NF.

            Carlos Fernando Fontenelle Dumans é neto do fundador da fazenda e um dos nomes a frente do Guzerá NF. Ele acredita que os resultados e a expansão da genética são motivados pela qualidade do alicerce.

            “Como um reconhecimento vivo de qualidade, o Guzerá NF está em diversos rebanhos no Brasil e também na Colômbia, na Venezuela e no México, levando sempre a força e a beleza da raça Guzerá”, diz.

História de conquistas

            A II Exposição Nacional da Raça Guzerá aconteceu na capital Rio de Janeiro em 1974. Foi uma das mais disputadas que a história da raça tinha visto. Mais de 300 animais em pista. O Guzerá NF levou Duque e Dalila, os dois grandes campeões. O fundador da marca e pioneiro guzeratista Napoleão Fontenelle ganhou, com ampla margem de pontos, o título de Melhor Criador da raça.

            Em 1986, em honra ao mérito do selecionador, foi criado pela Associação dos Criadores de Guzerá do Brasil (ACGB) o Troféu Napoleão Fontenelle, concedido à Fêmea Guzerá de Melhor Caracterização Racial, em diversas exposições brasileiras.

            “Vacas NF, de fina caracterização racial, têm conquistado bons resultados em torneios leiteiros em muitos certames, inclusive no mais disputado, o de Uberaba. Quem não se lembra de 1992 quando a bela Alvura NF deu 25 kg de leite/dia, sem ajustes, com seu temperamento perfeito? Neste mesmo ano, Traíra NF,  com 31 kg/dia ajustados para 4% MG, arrebata o troféu de Grande Campeã do Torneio Leiteiro da Raça Guzerá e o de Melhor Úbere da Raça Guzerá”, relembra Carlos.

            Em 1994, Jacui NF sagra-se o vencedor de Prova de Ganho de Peso Oficial da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), orientada pelo professor Barrison Villares, com ganho médio de 1,340 kg/dia. Araponga NF, de Sinval Martins de Mello, em 1995, é bi-campeã do Concurso Leiteiro em Uberaba, com produção média de 14,35 Kg/dia. Em 1998, Favorita NF, de Paulo Emilio de Almeida Carneiro, conquistou o Campeonato do Concurso Leiteiro na ExpoZebu, com produção média de 24,62 kg/dia e Melhor Úbere.

            Em 1999, Hematita NF torna-se a recordista de produção de embriões da raça Guzerá, com a incrível produção de 37 embriões viáveis em uma única coleta. Em 2005 Ucha NF sagra-se Campeã Vaca Jovem do Concurso Leiteiro de Governador Valadares, com produção média de 19,65 kg/dia. Dois anos depois,  Corôa NF repete o feito da sua mãe Ucha NF. É Campeã Vaca Jovem do Concurso Leiteiro de Governador Valadares 2007, com a produção média de 21,27 kg/dia.

            No ano passado Grana FIV NF, da Uniube, foi a Grande Campeã, além de Campeã e Melhor Úbere da Categoria Fêmea Jovem. A vaca se tornou Recordista da Raça Guzerá na Categoria Fêmea Jovem, no Concurso Leiteiro da Feileite de 2012, com produção diária média de 26,87 kg aos 2 anos e 10 meses.

            Outro marco do Guzerá NF está também na história do Zebu brasileiro. Os cuidados do criador Camilo Collier elevaram Urutú NF ao status de tricampeão nacional da ExpoZebu, em Uberaba. O título é ainda inédito. O boi, com mais mil quilos de peso vivo, se revelou melhorador para leite, carne e raça. O ideal de um touro completo materializado pela marca da família Fontenelle.  

Tradição

            A família Fontenelle construiu seu nome juntamente com o Guzerá no Brasil. Acompanhando o desenvolvimento um do outro, a raça e a marca NF cresceram lado a lado. São 85 anos de estrada, marcados na história da raça e do estado do Espírito Santo. O início do trajeto foi em 1928, quando Napoleão Fontenelle iniciou sua carreira como guzeratista.

            O criador identificou a necessidade de colocar o Zebu na pecuária do estado. No início foram introduzidos, além do Guzerá, o Nelore e Gir. Nas terras montanhosas, exauridas pelo plantio de café, logo nos primeiros anos o Guzerá demonstrou na prática a maior produtividade.

            O município capixaba Santa Leopoldina abrigou os primeiros animais da marca que leva o nome do seu criador. Em 1945 o rebanho foi transferido para Fazenda São Sebastião, também conhecida como Fazenda Fontenelle. Cortada pelo asfalto da BR 259 e pela estrada de ferro Vitória – Minas, está localizada no município de Baixo Guandu, às margens do Rio Doce.

            A base do criatório foi construída pensando na solidez. Nomes como João Carlos Burguês de Abreu, Allyrio Jordão de Abreu, Otávio Machado, Celso Garcia Cid e Antônio Ernesto Werna de Salvo aparecem na história do Guzerá NF como fundamentos de sua essência. O foco de seleção foi sendo apurado com o tempo e hoje é pensado para dupla aptidão no mesmo animal, com exemplares se destacando nos extremos da produção de leite e carne. Selecionado a campo, com baixos custos de produção, os animais NF ainda se destacam pela refinada caracterização racial.

            Em 1958, Napoleão foi à Índia e, na companhia de Celso Garcia Cid, visitou diversos rebanhos. Estudou o Guzerá na sua origem e apurou ainda mais seu conhecimento de guzeratista. Em 22 de maio de 1956 ele também esteve à frente de outra iniciativa pioneira. Foi um dos fundadores e primeiro presidente da ACGB, que pretendia aperfeiçoar e expandir a raça.

            Hoje, são os herdeiros de Napoleão que continuam a lapidar o Guzerá NF. Haroldo, Maria Luiza e Gerusa são os nomes a frente da fazenda. Os irmãos estão juntos na administração da fazenda, que em 1972 foi oficialmente passada para as mãos de Haroldo. Maria Luiza é responsável pelos apontamentos zootécnicos do rebanho, desde 1976. Foram mais de 20 mil produtos nascidos desde então. Gerusa é bióloga por formação e volta sua vocação para a preservação do meio ambiente. Além disso, também é artista plástica e suas pinturas delicadas enfeitam o mobiliário e as paredes da casa na fazenda.

            “Somos um dos criatórios de Guzerá mais antigo do Brasil. São 85 anos de criação e nossa memória está preservada, o que é importante para as futuras gerações de criadores”, conta Haroldo.

Os irmãos Fontenelle sabem que carregam a responsabilidade do nome de seu pai, Napoleão. A história do Guzerá NF, se depender dos filhos e netos do pioneiro da raça, vai continuar presente nas pistas do país como sinônimo de tradição e qualidade.