Quando sustentabilidade virou palavra de ordem, surgiu questionamento sobre a possibilidade de ser sustentável e lucrar. As empresas de todos os setores econômicos passaram a se perguntar quais seriam os caminhos para continuar lucrando dentro dos novos preceitos ambientais. Pesquisadores começaram a estudar e descobriram que dá para ter lucro sendo sustentável. Talvez até mais lucro que antes.

            Pensando nisso as empresas do segmento pecuário investem em tecnologia. Um exemplo é a paulista Wisewood Soluções Ecológicas. Fundada por Rogério Igel, a empresa tem o propósito de pesquisar composições plásticas recicláveis que possam substituir a madeira.

            O mourão ecológico para utilização em cercas surgiu da escassez de madeira de boa qualidade, das restrições das leis de proteção ambiental e da consciência ecológica. Robusto e durável, o produto  é fruto de um polímero plástico reciclado. “Se você pensar que uma sacolinha de plástico demora 200 anos para se degradar no meio ambiente, um material como o nosso não é possível nem mensurar o tempo que ele pode durar”, explica o gerente comercial da Wisewood, Diego Gevaerd.

            O eucalipto, madeira mais usada em mourões tem durabilidade média de cinco anos. Além do baixo tempo de uso, a árvore, para chegar ao formato ideal passa por tratamentos químicos e transpõe esses produtos para o solo, prejudicando o meio ambiente. A aroeira é a melhor das madeiras para a finalidade, porém é cara e rara.

            O produto desenvolvido pela Wisewood propõe alinhamento perfeito e resistência uniforme, ou seja, não deixa o mourão entortar com a ação do tempo, seja sob maresia, sol, ventos e umidade. Também é imune à ação de predadores, como fungos, cupins e formigas. Completamente reciclado e reciclável, não lasca e não solta farpas, ainda sendo mais fácil de instalar e manusear. “Percebemos a dificuldade que o agronegócio enfrentava com o mourão tradicional, a escassez de mão de obra, falta de cerqueiros e a falta de madeira de qualidade no mercado. O setor é carente de produtos como o nosso”, diz Diego.

            Hoje, a fábrica da Wisewood, em Iratiba (SP) recicla duas mil toneladas de plástico por mês. “O mourão ecológico tem o mesmo preço de uma madeira nobre, com o diferencial da manutenção zero. O pecuarista tem então que colocar na balança e medir o custo benefício”.

 

Inseticida ecológico

            A planta Azadirachta Indica, conhecida popularmente como Neem, é um inseticida natural. Ela afeta o desenvolvimento de insetos de diferentes modos. Pela semelhança com o hormônio que possibilita ao inseto trocar de esqueleto e crescer, perturba essa transformação e, em altas concentrações, a impede, causando a morte.

Acredita-se que o Neem chegou ao Brasil há mais de 50 anos. As primeiras pesquisas científicas realizadas com o inseticida foram feitas pelo Instituto Agrônomo do Paraná (Iapar), em Londrina, em 1986, com sementes originárias das Filipinas. Em continuidade ao projeto, em 1989 e 1990, o material oriundo da Índia, Nicarágua e República Dominicana foi plantado em Londrina e Paranavaí (PR), Jaboticabal (SP) e Brasília (DF) para avaliação de desenvolvimento. Os resultados foram considerados ótimos e, atualmente, a planta é considerada ferramenta inteligente de tratamento animal.

O Neem é usado como um fitoterápico eficaz como carrapaticida, vermífugo e no controle de mais de 400 pragas e parasitas comuns na pecuária, como mosca do chifre, berne, carrapatos, ácaros, vermes e pulgas. A aplicação de repelente à base de Neem pode ser feito diretamente no pelo dos animais, sem causar efeitos residuais no leite e na carne. O uso também contribui para diminuir a taxa de mortalidade de rebanhos, combatendo vetores de doenças. Além de ser ecologicamente correta, a planta também está disponível como alternativa viável economicamente.

Quem garante todos os benefícios é a economista e diretora executiva da Fazenda Preserva Mundi, que fabrica produtos à base de Neem. Romina Lindemann conta que tradicionalmente os indianos esmagavam as folhas da árvore e esfregavam nos ferimentos expostos do gado para eliminar vermes. “Isso se justifica porque a planta é um poderoso inseticida natural”, afirma.  

 Ainda existe o pó de Neem, proveniente das folhas da árvore. Após a poda, são desidratadas na estufa, moídas e misturadas ao sal mineral, em uma proporção de 1,5 a 3%. O princípio ativo passa a circular na corrente sanguínea dos animais e os parasitas que se alimentam do sangue passam a sofrer os efeitos. Em torno de cinco dias, os carrapatos (Boophilus microplus), as larvas de berne (Dermatobia hominis) e a mosca-do-chifre (Hematobia irritans), por exemplo, morrem no corpo do animal. O princípio ativo é ainda eliminado nas fezes dos animais, matando as larvas da mosca. “Os resultados dependerão do nível de infestação dos animais, do tamanho da área e das condições climáticas. Normalmente, os resultados começam a aparecer em torno de 25 dias após o início dos tratamentos, mas em alguns casos, podem levar mais de 70 dias. Quando se chega ao equilíbrio, os animais passam a ter baixíssima infestação de ectoparasitas”, explica Romina.

Outra forma de utilização do Neem é o banho com óleo. Segundo estudo coordenado pelo Centro de Ensino Tecnológico do Ceará, o procedimento pode ajudar a combater com sucesso o carrapato (boophilus microplus), ácaro que causa prejuízos de quase R$1 bilhão em toda a América Latina.

 

Os lucros da sustentabilidade

            A Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, desenvolveu pelas mãos dos pesquisadores Robert G. Eccles, Ioannis Ioannou e George Serafeim, um escudo em 670 empresas que aplicavam preceitos de sustentabilidade.

            Para entender o desempenho delas, a universidade avaliou o setor, porte e estrutura de capital de cada uma delas. Completou a análise com resultados de pesquisas em bolsas de valores durante 18 anos, de 1992 a 2010.

            O estudo partiu do princípio de que empresa sustentável é aquela que tem uma relação com a cultura de sustentabilidade internalizada em suas estratégias de negócios e operação.  Vinte e sete atitudes foram consideradas: conduta ética perante os funcionários, comunidade, fornecedores e clientes; adesão a pactos nacionais e internacionais de integridade; adoção de práticas promotoras da diversidade e da igualdade de oportunidades na empresa; respeito aos direitos humanos, tanto com empregados quanto com a comunidade e outros públicos de interesse; redução das emissões de carbono; programas de eficiência hídrica e energética; programa de reciclagem de resíduos; programa de inovação para diminuir consumo de recursos naturais; políticas para garantir liberdade de associação aos funcionários; e salários dignos.

            O resultado surpreendeu. No período de 18 anos analisado, as empresas melhores avaliadas no quesito sustentabilidade foram as que deram mais lucro. As 90 empresas mais sustentáveis apresentaram melhores taxas de retorno. O patrimônio das mesmas empresas foi valorizado sete vezes mais do que as menos sustentáveis. Mesmo em momentos de economia difícil, essas organizações tiveram desvalorização de seu patrimônio significantemente menor.

            O presidente do Instituto Ethos, Jorge Abrahão, explicou em artigo porque as empresas de alta sustentabilidade tiverem esse desempenho. Para ele, isso aconteceu porque elas possuem uma governança distinta, baseada em pressupostos como o foco no engajamento do seu público, atuação com transparência e foco nos resultados de longo prazo. “Estudos como esse de Harvard mostram que a sustentabilidade dá lucro, ao contrário do senso comum atual. Quanto antes governos e empresas acordarem para essa realidade, mais rápido poderão construir o desenvolvimento sustentável que desejamos”, enfatiza Jorge.