Publicado em: Pecuária

Usar touro Brahman em cruzamento industrial é garantia de ganho em produtividade. A raça oferece qualidades de sobra para agregar valor aos seus produtos. A Austrália, segundo maior exportador de carne no mundo, tem sangue Brahman em 70% do seu rebanho. Nos Estados Unidos, país de origem da raça, Colômbia e México, o gado de grande porte também se destaca nos cruzamentos. A cruza mais comum na raça é entre o zebuíno e o europeu taurino, que gera animais precoces, dóceis, férteis, rústicos, estruturados e com qualidade de carcaça. Nos Estados Unidos, os predicados do Brahman podem ser comprovados pela quantidade de raças sintéticas que foram formadas com touros da raça, como o Simbrah (com o Simental), Brangus (com Angus), o Braford (com Hereford), Santa Gertrudis (com Shorthorn), Bravon (com Devon), Brahmousin (com o Limousin) e o Charbray (com o Charolês).

            Mais do que a costumeira rusticidade, característica essencialmente zebuína, o Brahman cruzado com taurinos evidencia ganho de peso e qualidade de carne. Dados da Associação Brasileira dos Criadores de Brahman do Brasil (ACBB) afirmam que no cruzamento meio-sangue com o Angus, por exemplo, os machos são desmamados com 268 quilos e as fêmeas com 251 kg. O gado tratado exclusivamente a pasto é abatido aos 30 meses, com 530 kg, com cobertura de carcaça que supera as expectativas.

            As fêmeas F1 Brahman x Angus iniciam seu ciclo reprodutivo aos 20 meses, com 400 kg. O primeiro parto acontece, em média, aos 30 meses e a habilidade materna é evidente. Docilidade somada à rusticidade faz da vaca cruzada uma boa receptora.

            A marca Brahman Canaã está há pouco mais de cinco anos no mercado da pecuária zebuína e já construiu seu nome. Boa parte desse sucesso foi motivada pelo criador à frente da marca, João Leopoldino, hoje também presidente da Associação dos Criadores de Brahman do Brasil (ACBB). O investidor, já tradicional na criação de cavalo árabe, encontrou no Brahman a oportunidade de nortear sua seleção na busca de animais com alta capacidade reprodutiva. Há três anos, o Brahman Canaã aposta nos resultados também no cruzamento com Angus. A fazenda fica no município de São Carlos, interior paulistano. É lá que o criador experimentou o cruzamento entre o Brahman PO e o Angus e também o cruzamento F2 entre o Angus e a cruza Brahman x Nelore. O resultado atendeu às expectativas. Os machos Brangus desmamaram com 260 kg e são animais fortes e extremamente precoces.

            “Os produtos são precoces e muito resistentes, além de potenciais produtores de carne. Agora, iremos abatê-los e descobrir a real qualidade de carne e rendimento de carcaça. A expectativa é que a carne seja tão boa quanto a do Angus e renda tanto quando a do Brahman. Pelos animais já temos uma boa noção do que será o abate. A precocidade também que nos deixou muito entusiasmados”, diz o criador.

            O coordenador do conselho técnico da ACBB, Aldo Silva Valente Junior, também é criador no município mineiro de Uberlândia e no interior do Rio de Janeiro, em Valença. As fazendas Uberbrahman vendem a média de 200 tourinhos por ano, sendo que a maioria deles é destinada ao cruzamento industrial.

            Para Aldo, o Brahman pode agregar inúmeras qualidades ao cruzamento. “A raça leva para a sua cruza rusticidade, maior vigor, grande eficiência alimentar, adaptabilidade e longevidade”, enumera.

 

O autêntico Brangus

            A raça Brangus foi criada a partir da raça Aberdeen Angus com uma raça zebuína. Nos Estados Unidos, país que deu origem à raça, em 1912, o Brahman foi a primeira raça a ser utilizada na cruza, daí o nome que batiza o cruzamento. No Brasil, pela tradição e adaptabilidade do rebanho, o Brangus também é gerado pelo Nelore. A raça sintética também pode ser formada por outros cruzamentos, desde que siga as devidas proporções.

            “O Brangus vem do cruzamento do Angus com o Zebu. As raças permitidas são Brahman, Nelore, Nelore Mocho, Guzerá e Tabapuã. O Puro Sintético é chamado de Brangus 38, que possui 3/8 de sangue zebuíno e 5/8 de sangue Angus. No Brasil, hoje, os zebuínos mais usados são o Nelore, tanto mocho quanto padrão, e o Brahman”, afirma a superintendente de registros genealógicos da Associação Brasileira de Brangus (ABB), Renata Pereira.

            As especificações que a raça sintética exige vão além. Renata também explica que o produto de um Brahman x Angus é um animal meio-sangue, denominado Brangus 12B. O filho do Brahman (ou de outro zebuíno) em cruza com o Brangus 12B é um animal 3/4, denominado Brangus 34B. A ABB registra animais Brangus meio-sangue, ¾ (3/4 Zebu x ¼ Angus), ¼ (1/4 Zebu x ¾ Angus), 5/8 (5/8 Zebu x 3/8 Angus) e o Brangus 38 (3/8 Zebu x 5/8 Angus).

            Dentre tantas possibilidades, o mais interessante é observar como a qualidade da carne europeia somada à rusticidade zebuína produzem bons produtos. “O Brangus agrega maciez e marmoreio, oriundos da genética Angus e o sangue Zebu produz animais rústicos, de fácil adaptabilidade e excelente fertilidade, sendo uma excelente opção para diversas regiões do Brasil”, informa Renata.

            A raça, que começou a ser produzida no Brasil em 1940 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), hoje registra mais de 370 mil animais de diversos graus sanguíneos. A maioria dos criatórios está localizada nas regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste.

            Para o presidente da Associação Brasileira de Brangus (ABB), Raul Victor Torrent, a raça é a melhor opção para a produção de carne no Brasil. “A raça agrega as principais características que buscamos quando selecionamos animais para pecuária de corte, que é produção de carne de qualidade, precocidade e rusticidade, pontos fundamentais para a viabilidade de todo o processo”.

            Ele frisa que os animais da raça estão sendo bastante utilizados em programas de cruzamento industrial, principalmente por sua qualidade de carne e velocidade de terminação. “As principais vantagens econômicas da raça são a precocidade, tanto na terminação como sexual, e a qualidade da carne. Com isso, o pecuarista tem um incremento de produção com maior giro de capital na propriedade”, esclarece o presidente.

 

Mistura de sucesso

            A carne Angus é reconhecida em todo o mundo por sua qualidade. Em gôndolas de supermercados ou cardápios de restaurantes, o consumidor paga mais pelo selo que atesta a carne proveniente da raça. O prestígio do produto o torna artigo de luxo e, consequentemente, o produtor consegue aumentar sua margem de lucro. Adicionando a alta lucratividade do Brahman com as possibilidades do Angus, o Brangus é uma mistura com garantia de sucesso.

            A associação da raça existe há 35 anos e já está na 12ª edição da Exposição Nacional da Raça Brangus, realizada no ano passado na Feicorte, maior feira da cadeia produtiva da carne. Este ano, o já tradicional evento foi sediado na 53ª Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina (ExpoLondrina), no norte paranaense.

            “Temos bons resultados e acreditamos que os números vão ser ainda mais positivos. Antigamente, no Brasil, só falávamos em produção de carne em quantidade, mas hoje o mercado exige e busca qualidade. Justamente o que o Brangus oferece”, garante Raul, presidente da ABB.

Coordenador do conselho técnico da ACBB, o criador Aldo garante que existe mais um ponto a favor da escolha do Brahman para cruzamentos: maior aproveitamento da área disponível para pastagem. “O Brahman é mais eficiente com sua convergência alimentar, assim como para se manter. Como ele tem um vigor muito grande, aproveita melhor o pasto. Os ganhos de produção por hectare podem chegar a 25% a mais”.