Brasil oferece a melhor genética e ganha novos aliados

*por Monica Cussi

Não tem mais como retroceder: o Zebu já ganhou o mundo, seja na aposta dos investidores estrangeiros ou no faturamento de exportação de carne bovina que, deve atingir em 2014, segundo a Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec), a marca histórica de US$ 8 bilhões. A expectativa é excelente por vários fatores. Um deles é o status sanitário, assim como a parceria com mercados como Hong Kong e Venezuela, que registraram crescimento de cerca de 80% no ano passado. Esses países, ao lado de Rússia e União Europeia lideram o ranking de países que mais importaram a carne bovina brasileira.

E tudo começa pelo olhar dos estrangeiros, que organizam comitivas e visitam o Brasil, na busca constante pelo que há de melhor no rebanho daqui.  “Teremos uma agenda bastante cheia nos próximos meses, recebendo missões da China e Arábia Saudita. Também temos indicativos de que as negociações com o mercado americano deverá avançar, o que nos permite contar com a abertura ainda na primeira metade do ano”, explica Antônio Jorge Camardelli, presidente da Abiec.

Além disso, a associação realizará uma série de ações em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, a Apex-Brasil, para promover a carne brasileira em outros países relevantes, como Emirados Árabes, União Europeia e Cingapura. E onde a carne já é comercializada (Irã, Argélia, Marrocos, Angola e Líbia), a intenção é promover mais crescimento.

No início de 2014, o governo do Paraná, confirmou a reabertura das fronteiras do Irã para a carne bovina do estado. O diretor-presidente da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), Inácio Afonso Kroetz, e o representante da Organização Veterinária do Irã (Ivo) no Brasil, Mohammad Reza Jabari, assinaram um acordo a ser formalizado junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). As compras de carne bovina do Paraná foram suspensas pelo Irã há pouco mais de dois anos, por ocasião da descoberta de um agente priônico causador da vaca louca (considerada não clássica),  em um animal morto em 2010, no norte do estado. Dos 18 países que suspenderam as compras por causa deste agente, apenas cinco foram resolvidos, o que representam apenas 6,8% do total do volume exportado em 2012. As vendas continuam suspensas para Arábia Saudita, Líbano, China, Kuwait, Iraque, Japão, Catar, Usbequistão, África do Sul, Bahrein, Bielo-Rússia, Taiwan e Coreia do Sul.

Além disso, o Mapa, por meio das secretarias de Relações Internacionais (SRI) e de Defesa Agropecuária (SDA), negocia a abertura de novos nichos para as exportações de carnes brasileiras. Uma das mais aguardadas negociações, desde 1999, é conquista do acesso aos Estados Unidos (EUA), que é o maior importador mundial do produto e referência quanto às questões sanitárias. O Mapa também informa que existem 24 plantas de exportação aprovadas, mas nem todas estão habilitadas. O objetivo é ampliar e diversificar as empresas do setor. Em relação à carne bovina, a retomada de entendimento com a China é um dos propósitos para 2014, depois do fechamento das fronteiras em 2012, devido ao episódio de Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB). Outra importante referência neste contexto é a Arábia Saudita, que também suspendeu as compras desde a notificação de EEB. Para isso, uma missão saudita ainda este ano deve resolver o assunto.

Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que os países que mais aumentaram o consumo do produto nos últimos 10 anos foram os países em desenvolvimento, como o sudeste asiático, China, América Latina, Índia, entre outros. Esse consumo obedece principalmente à melhora no poder aquisitivo da população, à migração do campo à cidade (que levou à mudança de hábitos de consumo) e ao aumento do número de habitantes nesses países.

As informações da OCDE ainda mostram que as exportações globais tiveram um crescimento da ordem de 28% (de 7 milhões de toneladas no começo da década de 2000 para 9 milhões de toneladas projetado para 2012). A carne bovina é a que tem maior valor no mercado internacional e os principais países/blocos consumidores são Estados Unidos, União Europeia (UE-27), Canadá, Mercosul, China, Japão, México, Austrália e Rússia.

A origem de tão visada qualidade

Lauro Fraga, superintendente adjunto de Melhoramento Genético da ABCZ, lembra a história dos primeiros zebuínos que entraram oficialmente no Brasil, há apenas 140 anos. Por conhecimento empírico dos criadores de então, começou-se a seleção daqueles mais adaptados e que produziam mais filhos. “Com o tempo mais criadores foram somando conhecimento com os gerentes e peões das fazendas, depois os profissionais da área, agrônomos, veterinários e zootecnistas. Assim o Zebu brasileiro de hoje é fruto de visionários, que adicionaram conhecimento, trabalho, amor e ciência”, diz.

Para ilustrar um pouco da importância do gado Zebu para o Brasil, compara a época de meados de 1960, quando o país, com menos de 90 milhões de habitantes, era importador de carne bovina. Em 2003, 40 anos depois, já com população ao redor de 200 milhões de habitantes, passou a ser o maior exportador mundial do produto, atendendo perfeitamente o mercado interno com preços bem acessíveis para a população.

O cartão de visita do Zebu é o melhoramento genético e Lauro cita que o crescimento deste gado se deve ao trabalho de seleção visual que começou na escolha dos primeiros zebuínos importados, depois nos mais adaptados e produtivos em terras brasileiras. A partir da década de 60 começaram as Provas de Ganho em Peso e nos anos 90 os Programas de Melhoramento Genético. “Tanto o trabalho para o gado de corte como a seleção do Gir e Guzerá Leiteiros são muito respeitados no mundo todo, pois a confiabilidade é altíssima e os resultados esperados, são alcançados. Com relação aos Programas de Melhoramento Genético para Leite de Zebu só o Brasil tem, portanto, qualquer país do mundo se quiser genética provada de Gir ou Guzerá Leiteiro, terão que comprar do Brasil. Por isto temos que parabenizar todos aqueles que acreditaram, trabalharam e investiram nesta seleção”, considera. 

O PMGZ

O Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos é o maior programa de melhoramento do mundo, com mais de um milhão de pesagens por ano e seis milhões de animais no banco de dados, como informa o superintendente. A seleção no Brasil é feita em mais de 80% a pasto, com grande diversidade climática, de qualidade de solo e das pastagens e apesar disso a produtividade pecuária vem crescendo ano a ano, sendo a genética zebuína uma garantia de segurança para o setor.

A ABCZ em parceria com o Mapa, MDA e Asbraer estão assinando um Acordo de Cooperação Técnica para expansão do Pró-Genética em vários estados brasileiros com a intenção de facilitar o acesso dos touros zebuínos PO aos pequenos e médios produtores.

O presidente da ABCZ, Luiz Claudio Paranhos, delegou ao diretor Rivaldo Machado Borges Junior, vice-presidente da Federação de Agricultura do Estado de Minas Gerais (Faemg), a coordenação do Pró-Genética, o que ajudará muito uma maior aproximação da ABCZ com as Federações de Agricultura dos estados e dos Sindicatos Rurais. “Tudo isto objetiva maior aproximação do Pró Genética com pequenos e médios produtores rurais, público alvo do programa, que é carente desta genética melhoradora. Temos certeza que o uso de touros PO aumenta a produtividade de uma propriedade e, consequentemente, pode aumentar a renda e qualidade de vida destes produtores”, conclui Lauro.

Genética para exportação

Um acordo de protocolo sanitário firmado pelo Mapa e o Ministério da Agricultura da Costa Rica, com articulação da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), por meio do projeto Brazillian Cattle, abre mais fronteiras para o envio de material genético para o país da América Central. A tentativa de importar sêmen e embriões brasileiros para o melhoramento do gado da Costa Rica é antiga. Centrais brasileiras já têm pedidos de envio de material para este país e a expectativa é boa para diversas raças, principalmente Nelore e Gir Leiteiro.

“A ABCZ tem orgulho de dizer que é parte atuante neste processo de internacionalização da genética zebuína brasileira, abrindo mais um importante mercado. Estamos trabalhando com a perspectiva de abertura de novas frentes para a genética bovina em diversos países da América Central e África e, certamente, teremos mais novidades já em 2014”, enfatiza Paranhos.

O criador Héctor Alfonso Muñoz Fonseca, da Agrícola Ganadera, na Costa Rica garante que seu pai, há mais de 50 anos, iniciou o trabalho de produção de leite nos trópicos secos da Costa Rica com o gado zebuíno, visando obter bovinos adaptados e totalmente tropicais. “No final dos anos setenta meus pais começaram a sua viagem ao redor do mundo no rastro do Zebu. Estiveram em visita ao Brasil várias vezes, viajando também para a Índia, para ver de perto a origem desta maravilha tropical, e até mesmo para a Austrália, em busca de sementes de raças zebuínas”, lembra.

No Brasil, ele pôde observar e aprender e o que mais agradou à família, foram as vacas belas e produtoras, touros com potencial genético excelente, sistemas de alimentação e manejo compatíveis e aplicáveis às condições e realidade daquele país.

“Desde então, onde fosse possível, em Congressos Associações de Gado, Cooperativas de Produtores de Leite, Câmaras, Exposições, Revistas, a família Muñoz Fonseca começou a proclamar o discurso que manifestava a necessidade e a urgência de romper as barreiras sanitárias que impediam a disseminação desta excelente genética zebuína leiteira pelo resto do mundo tropical”, considera.

Héctor, nos últimos anos, esteve à frente da Cámara de Ganaderos de Liberia, como presidente, onde já impunha esta ideia que, segundo ele, contou com a força, entusiasmo e conhecimento de German Rojas, diretor nacional de Saúde Animal, que intermediou a assinatura do Protocolo Sanitário entre a Costa Rica e o Brasil para a comercialização oficial e transparente da genética bovina “criando-se um antes e um depois para o rebanho bovino latino-americano”. 

O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Antônio Andrade, durante a 3ª Conferência Global sobre Educação Veterinária, em dezembro do ano passado, citou sobre esta transação comercial: “a exportação de material genético brasileiro para o país da América Central já está liberada. Isso demonstra o cuidado do governo com os exportadores brasileiros, que podem comercializar seus produtos com os melhores mercados”.

Para o chefe adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Gado de Leite, Rui Verneque, “a cooperação entre as instituições é um indicador dos grandes desafios a serem vencidos pela pesquisa em bovinocultura de leite no âmbito internacional”. 

O departamento Internacional da ABCZ, que tem o Brazillian Cattle como seu cartão de visitas é gerenciado por Icce Garbellini e ela destaca, em primeiro lugar, que o Zebu brasileiro continua sendo referência no mundo, em termos de produtividade, custo e potencial de produção. “Hoje a própria Índia vem ao Brasil para resgatar essas linhagens, porque cruzaram muito seu rebanho. E nós temos mantido a reserva genética, principalmente, pelo trabalho de seleção e melhoramento, feito pelos criadores, conduzido e apoiado pela ABCZ. E temos um mercado em franco crescimento”, afirma.

As regiões de maior interesse registradas pelo departamento são a América Latina, a América do Norte, com o Canadá, África e Sudeste Asiático. Os criadores da América Latina estão com olhos voltados para o Gir Leiteiro, por causa do mercado aquecido fora do país.

O Brazillian Cattle promove o intercâmbio entre a genética brasileira e países de pecuária tropical, facilitando e articulando protocolos. Colômbia, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Panamá, Angola, Moçambique e Canadá, são os lugares que mais têm se interessado pelo material daqui. Em fevereiro, as visitas agendadas pelo programa recebeu investidores da Nicarágua, Venezuela e Kênia. “Muitas comitivas vêm ao longo do ano por conta própria, e o Brazillian Cattle convida clientes de nossos associados para vir ao Brasil e conhecer a pecuária e o potencial das raças e, efetivamente, fazer negócio. Recebemos por ano entre 800 a 900 visitantes internacionais, mas  esperamos acréscimo, por causa dos 80 anos da ExpoZebu”, completa.

No salão internacional, haverá durante a feira em maio, uma mostra intitulada “O caminho do Zebu”, em que será exposta a história do rebanho brasileiro e qual impacto que ele causou nos outros países tropicais, apresentando os passos atrás e o que ainda tem a ser feito.

Icce salienta que o Brazillian Cattlle está de portas abertas, com valores facilitados para o ingresso no projeto e direcionado para quaisquer segmentos ligados à agropecuária. Com isso, os criadores e empresas têm a possibilidade de internacionalizar sua imagem e o seu trabalho e de abrir um leque de possibilidades para a comercialização de seus produtos. A oportunidade é ímpar, pois o momento é estratégico para exportação, existe mercado e demanda, de genética e de todos os produtos zebuínos. “Os países tropicais estão ávidos por isso, precisam e muitos já conhecem nossos produtos. Temos vários mercados potenciais e outros que estamos abrindo”, diz. E as perspectivas são mesmo boas, pois já está preparada para o segundo semestre uma grande missão para a África com a participação na feira de Moçambique.

A gerente Internacional da ABCZ deixa claro que existe espaço para todas as raças zebuínas, pois cada uma com suas características e aptidões se encaixam em diversas situações mundo afora. “Alguns territórios têm praticamente zero condições tecnológicas, portanto um animal lá tem que ter rusticidade, são geralmente pequenos criadores e algumas raças atendem essa necessidade. Outros têm uma pecuária mais extensiva, então vamos colocar outra raça. Do mesmo jeito que o Brasil tem espaço para todas as raças, lá fora também”, acrescenta.

E a visão sobre o Zebu no mundo não fica somente entre negociações e comercializações. Ao fazer uma reflexão sobre o Brasil ser uma das grandes apostas mundiais para a produção de alimentos para o planeta, Icce garante que o trabalho com o Zebu é um negócio, mas é também uma missão social. “A partir do momento em que estamos levando para os outros países a genética, e a produção de carne e leite a uma condição de trópico, a baixo custo, estamos ajudando estes países a produzirem alimento. É algo muito maior do que o trabalho, um foco do qual nunca nos esquecemos. É neste contexto que vamos conseguir rechear o mundo de Zebu”, conclui.