Publicado em: Pecuária

Natália Escobar 

Somente em maio de 2014, o Brasil exportou mais de US$ 258 milhões em couro e peles, representando 1,3% das exportações do país. De janeiro a abril, foram US$ 960 milhões vendidos ao mercado internacional, um aumento de 25,8% em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com o Centro das Indústrias de Curtume do Brasil (CICB). Em 2013, as exportações fecharam com um recorde histórico: US$ 2,5 bilhões negociados.

O aquecimento no mercado é consequência de uma evolução que vem acontecendo no setor de couros na última década. A exportação brasileira passou de US$ 700 milhões, em 2000, para US$ 2,2 bilhões em 2011. O setor do couro emprega, atualmente, mais de 50 mil trabalhadores. Uma história de tradição em curtimento, que levou o Brasil ao patamar de segundo maior produtor, e quarto maior exportador do mundo, respondendo por 13% da oferta internacional deste produto.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio Exterior (MDIC), o setor curtumista nacional é formado por mais de 800 plantas curtidoras, que processam cerca de 40 milhões de peles anualmente. Ainda conta com mais de 2,4 mil indústrias de componentes para couro e calçados e 120 fábricas de máquinas e equipamentos para área. Além disso, o início da cadeia produtiva do couro, a pecuária, possui o maior rebanho comercial do mundo, com um número superior a 197 milhões de cabeças de gado de corte.

O setor cresceu não só em valores, mas em qualidade. A indústria brasileira começou a investir em produtos de valor agregado e vender o couro acabado, ao invés de in natura (ou primário). O produto sem acabamento (wet blue) é responsável por 50,3% da exportação em volume, mas responde a apenas 34,2% do valor total em dinheiro. Já o couro acabado corresponde a 40,4% das exportações em volume e 52,6% em valores, de acordo com levantamento do CICB.

 

Qualidade

O processo de produção do couro de qualidade começa no campo. A pele bovina pode ter suas características danificadas por ectoparasitas (carrapato, berne, mosca-do-chifre, por exemplo), no manejo inadequado com a utilização de varinha com ferrão, e por cortes e riscos profundos causados pelo manejo inadequado, além das marcas a fogo em locais e tamanhos não permitidos. Além dos cuidados dentro da fazenda, o couro ainda sofre com o transporte do animal, esfola incorreta e mesmo a má conservação após o abate.

Os danos se transformam em perdas para a produção de couro. Por esse motivo, a indústria tem encontrado dificuldades para obter matéria-prima de qualidade, em especial para as fases de produção com maior valor agregado (couros semi-acabados, ou crust, e acabado).

José Fernando Bello, presidente do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), explica que o mercado sofre com a falta de produtores pecuários que pensem no subproduto. “Os curtumes brasileiros não consegue comprar o couro limpo, aquele que não sofreu nenhum ataque de parasitas ou marcação. Na produção pecuária, não existe a preocupação com produto, o que prejudica sobremaneira a exportação”, afirma.

Mas, não é só essa a questão. Além da falha no primeiro elo da cadeia produtivo, a pecuária, também existem outros problemas depois do abate. A esfola (processo em que a pele do animal é retirada), muitas vezes, é feita de maneira inapropriada, com cortes em locais errados, que também prejudicam a produção coureira.

O mercado internacional é rigoroso e exigente. Para o produto acabado em nível superior, é necessária matéria prima de qualidade, o chamado couro A. O segundo maior importador de couro brasileiro, por exemplo, é a Itália (perdendo apenas para China). O país europeu é tradicional na produção de carros de primeira linha, sendo de lá grifes automotivas famosas, como a Ferrari. Ser referência de qualidade e alto valor agregado demanda um produto refinado e bem acabado.

A brasileira Garetti Couro Automotivo atua há vinte anos no setor de indústria e comércio de acessórios para veículos, tendo em sua principal atividade o corte e confecção de bancos de couro para carros. Seu fundador, César Tomé Garetti é também pecuarista, estando em dois pontos da cadeira produtiva do couro: a produção no campo e a aquisição do produto industrializado para refinamento e revenda.

César afirma que hoje as condições de produção pecuária são favoráveis para um couro de qualidade, mas que as oportunidades não são aproveitadas. “O animal é abatido muito precocemente, antes mesmo de sofrer com ectoparasitas e riscos no couro, o que eleva a qualidade do produto. Porém, o produtor não recebe diferencial pela qualidade, não se preocupa com ela, marcando o animal em locais mais fáceis de serem visualizados no manejo, acarretando perca de rendimento do couro”, explica.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) publicou em 2002 a Instrução Normativa nº 12, que estabelece os critérios de classificação do couro bovino conforme os defeitos presentes na pele do animal. Já as marcações de identificação estão normatizadas desde a década de 1940, regulamenta a aplicação da marca de fogo em bovinos, define o local de marcação e o tamanho das marcas.

Ainda os decretos-lei (nº 4.854 de 12/10/42 e nº 4.714 de 29/06/65), regulam o tamanho da marcação, sendo o máximo estabelecido em 11 cm de diâmetro, além da região corpórea.

Embora nas fazendas seja comum ver o gado marcado no dorso, por ser um local de fácil acesso e visualização, o local correto para receber a marca é a cara, ou ainda as pernas, abaixo das articulações. O pesquisador do couro Manuel Antônio Chagas Jacinto, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Gado de Corte, coloca que com a marcação incorreta, compromete-se justamente a região mais valiosa da pele, o dorso, cujos feixes de fibras de colágeno são mais grossos e entrelaçados.

“O problema da qualidade da matéria-prima está no fato de que, via de regra, o pecuarista não é remunerado pela qualidade do couro. Portanto, não há mecanismos de mercado para induzir a redução de danos à pele, já que os cuidados necessários para garantir menor incidência de defeitos incorrem, necessariamente, em custos adicionais”, explica.

 

Preço por metro

Na negociação com o frigorífico, o couro entra no preço pago pelo animal, em arrobas. Dessa maneira, o produtor não recebe especificamente pelo couro, mas sim pelo peso total da carcaça limpa. O diretor executivo da JBS Couros, Carlos Obregon, explica que a condição comercial de compra dos bovinos tem uma visão integrada dos subprodutos resultantes do abate.

“O enfoque maior é a carne, obviamente. Mas o couro é considerado na hora da compra, pois representa de 5 a 7% do valor do boi em pé, o que é muito representativo para o negócio. Quando o frigorífico define o preço a ser pago pela arroba, considera a receita proveniente da venda do couro, dentro da proporcionalidade que este representa”, explica.

O frigorífico JBS inaugurou sua divisão de couros em 2009, como parte de uma estratégia para agregar mais valor à cadeia produtiva. Atualmente a empresa é a maior exportadora de couro do Brasil, tendo comercializado mais de U$100 milhões para o mercado internacional em 2013.

Carlos coloca que o que o frigorífico espera do pecuarista é um couro de qualidade, já que, de acordo com ele, dificilmente existirá carne boa em um animal que tenha baixa qualidade do couro. “A precocidade, um bom controle sanitário e manejo adequado comungam para que se tenha carne e couro com qualidade”, afirma.

Já o assessor e pecuarista Eduardo Leão André, de Goiás (GO), acredita que com os incentivos certos, o produtor se preocuparia mais com o couro. “O Brasil é o maior exportador mundial de carne, e poderia ser também de couro. Mas como na venda o produtor não recebe pelos subprodutos, não se importa com sua qualidade”.

Eduardo afirma que hoje, na negociação com o frigorífico, é o comprador que fica com todos os subprodutos, e o pecuarista só recebe pela carcaça limpa. “Se houvesse uma remuneração correta, pensada nos subprodutos vendidos, o criador seria mais cuidadoso, se preocupando em prevenir ectoparasitas, marcar a boiada no local certo, entre outros cuidados”.

O presidente do CICB, Fernando, acredita que os fatores que prejudicam o couro também atingem a carne, e que isso deveria servir como incentivo para os produtores. “O pecuarista vende a carne por peso, e um animal sadio pesa mais. Sendo assim, cuidar da sanidade animal e prevenir ectoparasitas, acarretará em mais peso e, consequentemente, em lucro”, opina.

O JBS também trabalha com essa linha de raciocínio para tratar suas negociações. “São segmentos distintos que partem da pecuária. O abate de bovinos produz entre 30 e 35 produtos inter-relacionados, que não obedecem as mesmas tendências sobre o enfoque de demanda. Em face dessa complexidade, o produtor não tem a percepção. Como produtores de bovinos, devemos ter um enfoque mais integrado do produto. Dificilmente um belo presente vem embrulhado em jornal. A carne com qualidade deve vir com couro de qualidade”, afirma o diretor executivo do JBS Couros, Carlos.

Em 2013, o Brasil importou U$19,2 milhões em couros e peles. Com relação a 2012, houve uma queda de 46,2%. A menor importação do produto prova que o mercado interno ainda consegue absorver mais matéria-prima de qualidade.

O presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), Pedro Novis, acredita que se o couro, por si só, fosse premiado pela sua qualidade, o pecuarista seria mais cuidadoso. “O pecuarista fornece o boi tipo exportação para o mercado, mas só o intermediário é recompensado. Enquanto isso, o produtor só recebe pela certificação da fazenda. Se houvesse uma premiação para um animal jovem, com couro bom, o produtor se interessaria mais pela produção e o Brasil despontaria no setor”, coloca o presidente.

 

A Embrapa, junto ao frigorífico JBS, confeccionou uma cartilha de Boas Práticas Agropecuárias, que versa, entre outros assuntos, sobre o cuidado com o tratamento do couro. Entre as ações ideais destacadas para um manejo que preserve o produto, está o controle sanitário, as instalações rurais, as especificações da marcação, entre outros. Acesse agricultura.gov.br e leia a cartilha completa.
Descubra aqui alguma das ações que preservam a pele do animal:

 

Instalações rurais: as instalações devem ser funcionais, resistentes e seguras, de modo a não causar danos ao couro. As cercas devem ser, preferencialmente, de arame liso com balancins; lascas e moirões não devem possuir saliências, farpas, pregos ou parafusos que possam ferir os animais.

 

Manejo pré-abate e bons tratos na produção animal: o criador deve garantir espaço mínimo para que os animais mantenham suas atividades; não misturar animais mochos e com chifres; antes do embarque, separar os animais por peso e idade; no embarque, evitar o uso de aguilhões e choque elétrico; evitar o uso de cães, paus e objetos pontiagudos no manejo e condução; respeitar a lotação máxima do transporte.

Identificação do animal: proceder a identificação de todos os animais ao nascimento; utilizar marca a fogo apenas nos locais permitidos pela legislação em vigor; não usar marcas maiores que as permitidas.

Controle sanitário: adotar medidas preventivas de controle das enfermidades; utilizar apenas vacinas e medicamentos aprovados pelo MAPA; vacinar sempre na tábua do pescoço (a aplicação em locais inadequados pode provocar lesões, quebra no rendimento da carcaça e depreciação do seu valor comercial, quando localizada nas regiões nobres).