Publicado em: Pecuária

Por Natália Escobar

Há pouco tempo era incomum ir ao açougue e solicitar uma determinada marca de carne.  Geralmente, os pedidos eram por cortes, e a referência de qualidade do produto era o  estabelecimento.

Hoje, o consumidor procura pelo selo que ateste qualidade de produto e produção. A demanda mu dou e aponta para o caminho da certificação da carne bovina, que ainda não é realidade nas prateleiras dos supermercados brasileiros. Mas os números do mercado são favoráveis para o produtor que souber atender o novo paladar do consumidor. O brasileiro está colocando mais carne no prato. De acordo com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em 2010, a média de consumo por pessoa era de 36 quilos por ano, saltando para 42 quilos em 2013. O consumo ascendeu porque aumentou também o poder de compra: em 1994, o salário mínimo valia R$64,79, hoje vale R$724. No período, o valor variou 1.017% que, corrigido, garantiu ganho real de 182,75%. Levantamento feito pelo Banco Mundial, no ano passado, aponta que as classes média (B e C) e alta (A) brasileira cresceram, passando de 90 milhões em 2003 para 196 milhões, em 2013. Somente a classe C aumentou de 67 para 109 milhões de pessoas. Enquanto isso, no mesmo período, a classe baixa (D e E) decresceu de 67 para 48 milhões. Junto com o poder aquisitivo, cresceu também a exigência do consumidor e sua disponibilidade para pagar por qualidade. O pesquisador Pedro Eduardo de Felício é pós-doutorado em Zootecnia pela Universidade Estadual do Kansas, nos Estados Unidos, com ênfase em Produtos de Origem Animal, e tem vasta experiência em carne bovina, o que lhe rendeu o convite para ser membro do Comitê de Carnes da Comissão Econômica Europeia das Nações Unidas (Unece). Ele vive em Campinas, cidade do interior paulista, com quase um milhão de habitantes, e por lá se encontra carnes com marcas associadas a raças de gado, algumas com certificação, outras não. “Penso que os supermercados estão testando, ainda muito lentamente, a disposição dos consumidores para pagar um ágio por cortes de carne com alguma garantia de qualidade. Digo alguma porque, das marcas disponíveis no mercado, raras (não mais do que uma ou duas) são aquelas que fazem testes de maciez, sabor e suculência”, coloca. No Brasil, os sistemas de certificação qualitativa são definidos por empresas, não estando diretamente associados ao governo ou estritamente determinados por lei. A doutora em Zootecnia e pós-doutorada em Qualidade de Carne Angélica Simone Cravo Pereira explica que certificar ainda é facultativo.

“O que usamos como lei são algumas normas sistêmicas que podem estar inseridas em um determinado programa de certificação, como, por exemplo, a NBR ISSO 9000 e os princípios da Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), que estão associados a processos de garantia de qualidade e segurança alimentar”, esclarece. De acordo com Angélica, o processo de certificação pode ser realizado dentro da fazenda ou confinamento, no frigorífico, desossa, ou ainda nas redes de distribuição e comercialização. “Independente de quem certifique o produto, alguns itens devem ser avaliados e estar em conformidade. São eles: a unidade de produção e identificação de animais (ou lote), o transporte do gado, o estabelecimento de abate frigorífico, além da desossa e embalagem dos produtos”.

Diante de um questionamento corriqueiro aos pecuaristas, “vale a pena certificar?”, a doutora afirma que é preciso colocar os números no papel. “Sempre é necessário fazer as contas. No caso dos pecuaristas, existem programas específicos de certificação no Brasil, que podem premiar até 10% sobre o peso da arroba, no caso de certificação de bovinos. Independentemente da escolha por certificar ou não, para um determinado produto ou processo é necessário gestão e planejamento. É importante considerar a competição entre produtos diferenciados. Não podemos deixar de mencionar também o nível de renda, com potencial crescimento. Contudo, a oferta de produtos certificados ainda é em mercados limitados, pelo menos internamente”, afirma.

Certificado Pampa

O programa Carne Pampa é o mais antigo em funcionamento no Brasil, em atividade desde 1998. Fundado pela Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), o programa oficial de qualidade de carne chancela cinco marcas, baseadas na seleção zootécnica de bovinos das raças Hereford e Braford. A certificação é dada através do selo Carne Certificada Hereford, lançado em 2013, garantia de que o produto foi acompanhado e classificado desde a obtenção da matéria prima (animal vivo) até a expedição do produto final, que chega às prateleiras dos supermercados. “O programa certifica 60 mil carcaças por ano no Rio Grande do Sul, todas dentro do padrão da raça, com idade até 24 meses e cobertura de gordura mediana, o que garante a qualidade da carne. Esse é o produto que o mercado busca e nosso desafio é oferecê-lo com o mesmo padrão de qualidade o ano inteiro”, explica o gerente do programa Carne Pampa, Alfredo Drissen. Prova da tendência evolutiva do mercado é que os produtos com selo Carne Certificada Hereford ganharam um empório exclusivo para comercialização direta com o consumidor final mais exigente. A loja exclusiva da marca, o Empório do Pampa, foi projetada para suprir uma lacuna no varejo de carnes no Rio Grande do Sul. Inaugurada em janeiro desse ano, em Santa Cruz do Sul (RS), a empresa é a primeira do país a vender exclusivamente o produto. “O setor de boutiques de carnes tem evoluído rapidamente. São vários exemplos de empreendimentos nessa linha nos grandes centros. Atuantes na última etapa da cadeia produtiva, nós temos o desafio de mostrar para o consumidor que carne não é tudo igual. Que existem diferenças em todas as etapas e qual o impacto no produto final. Até mesmo a exposição do produto no ponto de venda contribui para este posicionamento”, coloca o empresário a frente do Empório Pampa, Everton Mendes.

Para o empreendedor, lucrar ou não com o seguimento de carnes nobres depende de fatores muito semelhantes aos do mercado de qualquer carne. “Seja num grande supermercado, em um açougue de bairro, ou em uma boutique de carnes, a remuneração pela atividade desenvolvida é determinada pelo mercado como um todo. Não há nada de novo ou diferente neste aspecto. O que nos cabe neste sentido é buscar os melhores fornecedores e adotar as práticas mais eficientes de gestão”.

Nelore Natural

O Nelore, raça que representa mais de 80% do rebanho de corte brasileiro, também desenvolve ações pioneiras para oferecer uma carne saudável, com origem conhecida e qualidade controlada. O Programa de Qualidade Nelore Natural (PQNN) é uma ação da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) em parceria com o frigorífico Marfrig, conduzido em seis unidades, em quatro estados (GO, MT, MS e RO). Lançado em 2001, tem como objetivo oferecer ao mercado carne bovina com garantia de qualidade, por meio da identificação de origem, abate técnico e avaliação de carcaça. No ano passado foram abatidas 500 mil cabeças dentro do programa, sendo que 30% foram registradas como Nelore Natural do PQNN.

Para ganhar a certificação existem exigências. O sistema de produção padrão é, necessariamente, a alimentação dos animais a base de forrageiras, sendo permitida terminação em confinamento ou semi-confinamento, com produtos de origem vegetal por período limitado. Os animais devem estar dentro do padrão da raça Nelore, tendo no máximo 25% de grau de sangue de outras raças zebuínas e dentro da idade e peso estabelecidos, e a cobertura de gordura deve ser mediana ou uniforme. “A carne Nelore Natural passa por uma série de exigências e, obviamente, chega um pouco mais cara para o consumidor. Mas ele está disposto a pagar. Quem compra está cada dia mais exigente e quer o diferencial de um produto certificado”, garante o técnico do PQNN, Reginaldo Henrique Tasinafo.

Guilherme Alves, gerente de produto da ACNB, acompanha o desenvolvimento do PQNN e acredita que o mercado está pronto para consumir qualidade. “A carne com o selo Nelore Natural chega para o consumidor 7 a 10% mais cara do que uma carne sem certificação, o que não é tão significativo perto de outras marcas que certificam seus produtos. Mas, mesmo considerando esse valor mais alto, percebemos que o consumidor está cada vez mais disposto a pagar pelo que é bom”, afirma.

Perspectiva futura

Nos Estados Unidos, a certificação funciona de outra forma, e há mais tempo. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) tem programas de certificação de processos e de produtos em funcionamento, agindo então como um auditor. A primeira marca de carne bovina certificada no país foi a Certified Angus Beef, lançada em 1978. Mais de três décadas depois, hoje, os consumidores norte-americanos podem escolher entre mais de 90 marcas de carne, quase 80% deles baseados na raça Angus.

O pesquisador Pedro Felício acredita que no futuro muitas marcas de carne ainda vão surgir e algumas vão desaparecer. Ele coloca que o caminho para certificar melhor a carne brasileira é espelharse no modelo dos Estados Unidos. “Todas as marcas de lá têm um protocolo dos atributos de qualidade controlados. Por exemplo, raça, ‘grade’ (ou grau) da tipificação oficial de carcaças, tempo de alimentação com grãos, limite de pH final (24/48 horas) da carne. Poucas são as que têm certificação de terceira parte. Em geral, são as próprias empresas frigoríficas que lançam as marcas, as aprovam no USDA, e oferecem como garantia a sua credibilidade no mercado”, coloca.

Ainda de acordo com o pesquisador, de 90 marcas registradas, 62 afirmam que vendem carne de Angus, três de Hereford, três de Wagiu e dois Akaushi (ou Wagiu vermelho). Pedro acredita que o mais estratégico para indústria frigorífica é certificar a carcaça.

“Exceto em algumas situações especiais, marcas com ou sem certificação, não seriam parte da minha estratégia para a indústria frigorífica, pelo trabalho imenso e logística que requerem. Certificação de terceira parte eu só contrataria se houvesse uma exigência e uma  compensação financeira muito grande, como a do Mc Donald’s e seus hambúrgueres da marca Angus. A minha estratégia seria centrada na tipificação de carcaças como acontece nos Estados Unidos. Dessa maneira, frigoríficos ou comerciantes de carne lançam e cuidam de suas marcas, mas a base da seleção está numa tipificação oficial e na responsabilidade do frigorífico, e não em meia dúzia de certificadoras, cada uma com seus custos e peculiaridades”, propõe o especialista.

É Friboi?

A marca Friboi ficou conhecida há pouco tempo, através da campanha publicitária maciça que imprimiu na memória do brasileiro o slogan: “É Friboi?”.

Usando de estratégicas celebridades (como o ator global Tony Ramos e o cantor Roberto Carlos), abriu para o consumidor a perspectiva de que carne também tem marca. Deu certo. De abril a julho de 2013, período em que a campanha com Tony Ramos estava no ar, as vendas aumentaram mais de 20%. No mesmo período, a cartela de clientes aumentou 9%. De janeiro a março do mesmo ano, o aumento do mix de produtos demandados pelos clientes aumentou em 11%. Isso só na nesta etapa da campanha.

O Grupo JBS, dono da marca Friboi, está em atividade há 60 anos. Em 2013, a empresa reportou receita líquida de R$93 bilhões, um aumento de 22,7% em relação ao ano anterior. No mesmo ano, o lucro líquido informado foi de R$1,18 bilhão, representando mais 46% do que em 2012. São 185 mil colaboradores contratados em 24 países, operando 340 unidades na área de alimentos, couro, biodiesel, colágeno, embalagens metálicas e produtos de limpeza.

O JBS reivindica ainda a posição de líder mundial em processamento de carne bovina, ovina e de aves, além de afirmar que a Friboi e a maior marca de carnes no Brasil. No início de 2012, o CEO global da JBS, Wesley Batista, afirmou que a empresa iria investir R$100 milhões para reposicionar a marca no mercado. “Queremos transformar a commodity carne em um produto de valor agregado”, garantiu.

Em 2013, o jornal Folha de S. Paulo divulgou a pesquisa Top of Mind, e a Friboi foi a marca mais lembrada espontaneamente por 45% dos consumidores, sendo que 42% não souberam citar nenhuma marca de carne e 3% citaram outras. O resultado foi positivo, como demonstram os números.

Mas a campanha também recebeu críticas. A senadora e ex-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Kátia Abreu, protestou contra o frigorífico e afirmou a prática de monopólio pela empresa e sua agressiva campanha de marketing. Em nota divulgada no ano passado, ela afirmava que o Brasil não possui apenas uma marca boa de carne, mas centenas. “Outros 209 frigoríficos brasileiros passaram pelo mesmo processo de inspeção e certificação, têm o mesmo Serviço de Inspeção Federal (SIF) que essa tal marca JBS, que diz que só ela tem. É preciso ter cuidado e cautela para não praticar marketing enganoso. Todos nós aplaudimos o sucesso das empresas, mas nós não queremos um mercado e um capitalismo destrutivos”, argumentou.