Publicado em: Pecuária

Por Natália Escobar 

 

José Bento Ferraz acredita que a pecuária brasileira precisa tomar um rumo. Para o geneticista, o setor avalia o valor genético de seus animais da maneira errada, e o pecuarista não é um bom definidor de parâmetros e critérios para seleção genética. 

Uma das maiores autoridades em genética bovina no Brasil, atualmente, José Bento é professor titular de Genética e Melhoramento Animal, atuando principalmente com avaliação, estimação de parâmetros genéticos em bovinos de corte e ovinos, qualidade de carne e incorporação de informações de marcadores moleculares em programas de seleção, na Universidade de São Paulo (USP).

Professor Bento, como é conhecido, conversou com a REVISTA PECUÁRIA BRASIL durante o Encontro de Criadores, promovido pela Scot Consultoria, em outubro, sobre o panorama do melhoramento genético bovino no país, seus entraves e oportunidades. 

Pecuária Brasil. Como, na prática, o melhoramento genético pode melhorar a produção de proteína animal dentro da porteira? José Bento. O melhoramento genético animal é uma tecnologia que promove, via a alteração da frequência dos genes nos rebanhos, o aumento da produtividade nas espécies animais. Mas temos que lembrar que, normalmente, a genética é responsável por algo entre 20 e 30% da produção dos animais. O restante vem do ambiente (alimentação, nutrição, saúde, manejo, mão de obra, instalações, clima, etc.) De nada adianta trabalharmos a genética se as causas ambientais não forem melhoradas. E mais, o melhoramento animal se faz apenas com uma escrituração zootécnica perfeita, acompanhada com um rigoroso controle de pedigree (a identificação correta de animais, seus pais e mães). Esses dados, organizados em bancos, se tornam informações preciosas que, analisadas por metodologias adequadas, se tornam conhecimento, com grande impacto gerencial.

PB. As tecnologias de melhoramento genético e os animais delas resultantes são, até que ponto, cessíveis para os produtores brasileiros? 

JB. O melhoramento de gado leiteiro e de corte está disponível aos produtores brasileiros há cerca de 20 anos. Desde meados da década de 1990, vários grupos de geneticistas têm se dedicado a mostrar aos produtores, utilizando-se de palestras, material impresso, curso, dias de campo e outras técnicas, que é estritamente necessário considerar a pecuária como uma empresa, que precisa ser gerida como tal.

O uso das informações genéticas, as DEP no gado de corte e os PTA em gado leiteiro, são essenciais na escolha de material genético. Comprar sêmen, tourinhos, novilhas ou embriões sem conhecer seu valor genético é o mesmo que comprar aparelhos eletrônicos falsificados: não há garantia alguma de sucesso. Os produtores brasileiros têm obrigação para com seus patrimônios, suas famílias e seu sucesso, de conhecer esses verdadeiros catálogos de reprodutores, os sumários de touros e os relatórios que as fazendas que produzem reprodutores de qualidade sempre têm. E têm obrigação de comprar reprodutores que estejam dentre os melhores disponíveis. Existem programas de qualidade dentre os bovinos de corte que garantem que os reprodutores estejam entre os 30% melhores de uma safra. Quem compra reprodutores com valores genéticos (DEP ou PTA) perto, ou abaixo, da média, está comprando animais medíocres. Como esperar aumento de produtividade?

PB. Quais características considerar em um programa de melhoramento?

JB. Isso é um ponto fundamental. As características foco de programas de melhoramento devem ser resultado de profunda reflexão (pois serão de longo prazo) e definição do que realmente importa critérios de seleção, que são derivadas dos objetivos de seleção. Normalmente os pesos na desmama, ganho de peso pós desmama, a precocidade sexual de acabamento são pontos comuns. Mas a eficiência alimentar, temperamento, qualidade de carne e outras podem se tornar características importantes. É importante lembrar que quanto mais características forem focadas, menor será a intensidade de seleção em cada uma delas. 

PB. Quais critérios estão, em sua opinião, sendo negligenciados pelos pecuaristas?

JB. Os pecuaristas brasileiros não têm se preocupado com a melhoria do ambiente (reforma de pastagens, suplementação nas épocas de seca ou de águas, sanidade, manejo, recria adequada de fêmeas, treinamento de mão de obra, etc.), nem com a qualidade genética de reprodutores e matrizes, as verdadeiras máquinas de produzir bezerros. Se esses produtores não se preocupam nem com as máquinas nem com a matéria prima, como podem reclamar da falta de produtividade? As grandes empresas têm se tecnificado e atingido níveis de produção comparáveis com os melhores do mundo. Os pequenos e médios produtores necessitam é de assistência técnico-financeira séria, de planejamento para chegar a resultados semelhantes ou até mesmo melhores, já que são os proprietários que cuidam dos animais. Não existe seleção para mais de 90% de nosso rebanho. Essa é a maneira com a qual tratamos a maior fatia do agronegócio brasileiro, uma cadeia que fatura US$150 bilhões/ano, incluindo a indústria do couro. O que falta é profissionalismo e competência.

PB. Em questão de critério de seleção animal, como, por exemplo, seleção para eficiência alimentar ou temperamento, quais mereciam mais atenção do selecionador de genética, pensando em atender um mercado cada vez maior e mais exigente?

JB. As características de seleção mais importantes são aquelas adequadas a cada criador, rebanho, região, modelo de produção, mercado e produto. Temos tendência de comprar material genético do campeão, do melhor. E quem disse que esse é o seu critério? O pecuarista não é um bom definidor de parâmetros e critérios. Para vários sistemas de produção existem objetivos de seleções diferentes. Como são diferentes, não existe o “melhor boi”. Se você define um produto que não é baseado nas suas condições, então você está errado. Existem algumas características que são indispensáveis e não precisam fazer parte de índice algum, e sim de critérios de eliminação, como, por exemplo, temperamento. A quem interessa um animal feroz? Ele vai dificultar o manejo, quebrar o curral, e pode até machucar o peão. Mas, ainda assim, alguns selecionadores erram nos critérios. Uma vez fui a um leilão e um tourinho arrebentou a cerca e partiu para cima do leiloeiro. Foi o primeiro animal a atingir maior preço. Perguntei para o comprador a razão do investimento, e ele respondeu: “pra mim, touro tem que ser bravo, macho”. Isso mostra o pensamento do nosso selecionador. Assim como temperamento, problemas de aprumo ou reprodutivos também são critérios de eliminação. Só depois de eliminados esses critérios básicos, outros podem ser analisados.

PB. Existem vários sumários de touros das raças zebuínas no Brasil. Qual a limitação  e qual a vantagem desse tipo de informação na seleção?

JB. A existência de vários sumários, na realidade, não atrapalha o produtor. Podem existir variações na classificação dos animais nos diferentes sumários, mas isso se deve aos objetivos de cada programa, aos índices (um número gerado pelos critérios de seleção, ponderados segundo pesos relativos empíricos), ao número de animais avaliados, à qualidade dos dados e à base genética utilizada. Se separarmos separarmos os 30% melhores animais de cada programa, sua classificação nos outros programas dificilmente será fora desse grupo de 30% melhores. 

PB. Existe a possibilidade de unificação desses sumários?

JB. Hoje, acho muito difícil. Quer seja pela qualidade dos dados, quer seja pelos critérios dos diferentes programas e até mesmo pelos objetivos dos diferentes programas. Seria um retrocesso para a pecuária brasileira. O mercado brasileiro necessita de cerca de 450 mil tourinhos de reposição/ano. Desses, de 15 a 20 mil estão entre os 30% melhores das avaliações, menos de 5%. Mais de 95% dos touros de reposição usados no Brasil têm valor genético desconhecido. Isso vai nos levar ao aumento de produtividade?

PB. A demanda mundial por alimentos é evidente, assim como o potencial produtor do Brasil. Porém, os EUA tem menos da metade do nosso rebanho e abate quase o mesmo número de cabeças. O que falta para produzirmos mais?

JB. A pecuária brasileira, diante de todas as vantagens, tem uma produtividade baixíssima. Todo mundo quer aumentar a produtividade, e estamos diante de uma oportunidade incrível. Mas precisamos mudar paradigmas e metas. Os técnicos e criadores precisam começar a se informar para fazer isso acontecer. Os touros usados no Brasil hoje, em sua maioria, são touros abaixo da média. O pecuarista compra genética através de uma avaliação visual e pedigree, técnicas usadas no século 18, apesar de toda tecnologia disponível. Pecuarista emprenha por ouvido. A aquisição de material genético é técnica. Juntando nutrição, recria adequada das fêmeas jovens, genética para precocidade sexual e as biotecnologias de reprodução, particularmente a IATF, nós vamos, em um intervalo muito curto de tempo, emprenhar de 70 a 80% das novilhas Nelore aos 13 ou 14 meses. Para os cruzados, esses números são ainda melhores. Precisamos aproveitar melhor as tecnologias disponíveis. Não dá para continuarmos na base do amadorismo e tradicionalismo.