Publicado em: Pecuária

Por Sabrina Alves

Fotos Gustavo Miguel, Roberto Mattos e Divulgação

Enquanto os Estados Unidos confina mais de 90% de todo o seu rebanho, o Brasil consegue um alto índice de produção anual usando o sistema de engorda a pasto. Mais rentável, a engorda adotada desde os primórdios é o mais aceito entre pecuaristas e especialistas do ramo.

No Brasil, a adaptabilidade das raças zebuínas trouxe grandes benefícios aos criadores. As altas temperaturas, condições de pastagens, elevadas umidades durante as estações de chuvas e a pior seca já vivida nos últimos tempos fez com que o Nelore se tornasse a mais adaptável das raças. O que chama a atenção, é que não são somente animais Puro de Origem (PO), mas sim os de cruzamentos, principalmente industriais, já mostraram uma excelente terminação.

Para a pesquisadora de manejo de pastagem da Embrapa Gado de Corte, Valeria Pacheco Euclides, “animais criados em pastos viabilizam a competitividade brasileira, ou seja, o custo de produção é mais barato em relação aos criados em confinamento”.

Ela aponta que isso contribui para que o país se tornasse um importante fornecedor de carne bovina para o mercado internacional. “O gado criado em pasto possibilita a produção de forma natural, com respeito ao ambiente e aos animais, que é um anseio da sociedade moderna”, explica.

Resistência

A escolha da raça a ser criada no sistema de pasto é o principal ponto. Estudos mostram que são criadas em todo o mundo mais de mil raças de bovinos, seja P.O (Puro de Origem), ou oriundas de cruzamentos industriais.

Raças europeias, por exemplo, enfrentam graves problemas com a adaptabilidade, enquanto o zebuíno não. Dessa forma, conseguem atingir um bom desempenho de terminação.

A pecuarista Rosana Gamba proprietária da Fazenda Farofa, localizada em Uberaba, no Triângulo Mineiro, cria Nelore há 22 anos e desde o início optou pelo sistema de engorda a pasto.

Ela conta que, a princípio, o seu plantel era proveniente de gado de elite e mesmo com alguns cuidados a serem tomados, a engorda era toda a pasto. “Pra mim, o resultado verdadeiro de melhoramento genético se resume a tudo aquilo que vai a campo”, diz.

Com uma média de 700 cabeças de gado, a criadora explica que a adequabilidade do Nelore é muito maior em relação a outras raças. “O nosso foco sempre foi o Nelore. Antes, trabalhávamos com receptoras taurinas, mas depois de uma determinação da ABCZ, iniciamos os cruzamentos apenas entre zebuínos. Com a mudança foi possível perceber, nitidamente, a diferença de peso e maturidade. As raças europeias, em períodos de calor, sofrem muito enquanto o Nelore caminha pelo pasto se alimenta e engorda”, ressalta.

O sistema a pasto é aceitável com qualquer raça. Porém, o Nelore por sua rusticidade e características, melhor se adapta ao clima e condições das pastagens brasileiras.

Abate

No país, aproximadamente 90% do gado de corte é terminado a pasto. Mesmo com sistemas, aparentemente rentáveis, como o confinamento, a engorda a pasto ainda é um dos sistemas mais adotados entre os neloristas que buscam um ganho de peso expressivo, sem altos custos.

Segundo a pesquisadora de Nutrição de ruminantes, Teresa Cristina Alves, da Embrapa Pecuária Sudeste, de São Carlos, interior de São Paulo, é possível alcançar um ganho de peso diário de mais de 1 kg, o que em muitos casos, são rendimentos muito próximos ao do sistema de confinamento. “É preciso observar um conjunto de fatores, entre esses a genética, a categoria do animal, a qualidade das pastagens e a suplementação utilizada. Quanto mais favoráveis às condições, melhor o ganho”. Explica.

O tempo de engorda pode variar entre um animal ou outro, em situações que o animal dependa exclusivamente da qualidade da terra, pode chegar a 18 meses até atingir o seu peso ideal. Existe ainda o fato de ser um gado gordo ou magro, castrado ou não. Mesmo com alguns (considerados) empecilhos, pecuaristas apostam que essa é a forma mais acessível de se engordar, bem mais do que no confinamento, afinal, uma vez que o gasto com o pasto acaba sendo bem mais lucrativo.

Como é o caso do pecuarista Antônio Aurico, gerente da Nelore Di Gênio. Ele contou que o método de engorda no sistema de pasto é mais rentável e a terminação dos bovinos apresenta um excelente rendimento.

Por ano, são encaminhados para o abate mais de seis mil animais engordados a campo contra mil no sistema de confinamento. “Uma das vantagens é a comercialização. Conseguimos embarcar o animal a pasto até 15 dias depois de pronto, dessa forma atingindo melhores negociações. Já no confinamento, devido aos altos custos diários, o embarque é quase que imediato. No pasto, o custo é menor e o resultado bem mais vantajoso”, comenta Aurico.

Qualidade do solo e pastagem

Com o passar dos anos, as pastagens foram ganhando um destaque quando o assunto é engorda a pasto. Para que seja possível a ingestão de nutrientes que vão favorecer a engorda, é importante considerar o manejo e a manutenção desse solo e consequentemente das pastagens usadas. Adubação, colocação do número certo de animais, descanso das áreas destinadas à alimentação são critérios indispensáveis.

De acordo com a pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, Valéria Pacheco Euclides, os solos comumente apresentam ácidos e nutrientes pobres, o que pode ser resultante de uma baixa produção na terminação dos animais. “Esse solos são aqueles impróprios para explorações agrícolas de maior valor econômico agregado. Portanto, o uso de correção e adubação dos solos é cada vez mais necessário para sustentabilidade da produção e aumento da produtividade, mantendo assim o lucro da atividade e diminuindo o impacto ambiental”.

Valéria Pacheco completa falando que a produção animal em pasto depende de fatores ligados ao clima à planta forrageira e, por fim, do animal. “Além da identificação de materiais forrageiros adequados às diferentes condições de clima e solo, os princípios de manejo devem ser conhecidos e praticados adequadamente para que as pastagens possam se manter produtivas e persistentes. A infraestrutura da propriedade e a adoção de técnicas como o uso de fertilizantes ou a suplementação alimentar também interferem na eficiência do sistema”.

“O fósforo é um dos nutrientes que mais limita a produção dos pastos, por isso, a adubação fosfatada é imprescindível. Em geral, as respostas mais positivas ao fósforo são dependentes, além da correção da acidez do solo, da adição de outros nutrientes como nitrogênio, potássio, enxofre e micronutrientes”, completa.

O balanço eficiente é a essência do manejo do pastejo e que resulta nos lucros finais. “Em pastagens bem manejadas, com suplementação adequada, é possível obter altos ganhos com menor custo alimentar, de mão de obra e estrutural. Podendo assim atingir o custo da arroba produzida menor que a produzida em confinamento. Porém os fatores devem ser analisados para cada cenário”, aponta Valéria.

 

Cultivares

O capim, conhecido como cultivar ou brachiara, se transformou na protagonista do sistema de engorda a pasto. Criadores como Aurico, que conseguem uma produção/ano de seis mil animais abatidos a campo, só conseguem tal produtividade se trabalharem com uma cultivar de qualidade que, consequentemente, liberará bons nutrientes aos bovinos.

“A engorda depende mais da oferta de massa (capim). Hoje, um modelo muito utilizado na região do Mato Grosso é a integração lavoura pecuária. Essa integração proporciona uma oferta maior de capins fazendo com que os animais cheguem com mais facilidade a engorda tradicional”, conta.

Atualmente, os bovinos a pasto da fazenda Di Gênio se alimentam da cultivar piatã que é indicado para solos com boa fertilidade. Dados técnicos apontam que a brachiara possui uma boa produção de forragem, sendo em média, cinco toneladas por hectare de matéria seca, com 57% de folhas, sendo 30% dessa produção obtida no período seco. Indicada para a recria e engorda de bovino.

Durante a realização da última ExpoZebu Dinâmica (2014), a Embrapa apresentou novas cultivares a serem usadas no sistema.

“Uma cultivar leva entre 8 a 12 anos para ser desenvolvidas, pois inicia com estudos básicos da biologia, morfologia, adaptação agronômica, passa por ensaios em canteiros sob cortes, às vezes em mais do que um local nos chamados ensaios regionais e por fim, é submetida ao pastejo para determinação do desempenho animal. Em paralelo a essas fases de estudo, são feitos ensaios em casa de vegetação e no campo para determinação de resistência a insetos, doenças, nematoides, diferentes níveis de fertilidade do solo e produção de sementes. Assim se chega a um pacote tecnológico com as informações necessárias para que o produtor saiba como tirar proveito do potencial da cultivar”, relata a pesquisadora Cacilda Borges do Valle, da Embrapa.

Rotação

Quase que uma regra, o método de engorda a pasto só será rentável caso o criador respeite a capacidade de suporte do pasto. Para que isso seja possível é necessário utilizar o manejo de rotação de pastagem. Como uma espécie de relógio, os animais ficam “rodando” entre os piquetes construídos, exatamente para que os capins cresçam novamente.

Para a pesquisadora de nutrição de ruminantes, Tereza Alves, alguns critérios como a entrada e a saída dos piquetes, de acordo com a espécie de capim, devem ser acatados. “É importante respeitar a capacidade suporte do pasto. Como ferramenta, pode-se utilizar o manejo de rotação de pastagem seguindo a altura de entrada e saída dos piquetes de acordo com a espécie de capim. Outro fator é a adubação e a manutenção, a fim de se obter a máxima produtividade”, mostra.

Adotado na Fazenda Farofa, Rosana Gamba diz a troca dos capins e a rotação dos animais é o segredo do sistema de engorda a pasto. “Muitos dizem que os pecuaristas acabam com as pastagens, mas é o contrário. Se o os pastos não forem tratados não haverá comida, não existirá capim para o gado. Por isso, obrigatoriamente, todo o ano deve ser feito um tratamento nos campos. Dividimos e fazemos a aração, adubamos, trocamos o capim a cada cinco ou sete anos conforme a necessidade de troca. Mas, só o fato de se gradear, arar e adubar já contribuirá para o crescimento”, mostra.

Ela acrescenta ainda que a seca, deve ser driblada com o sistema de rotação do pasto. “Devemos estar preparados com mais pastos do que gado, por isso o processo de rotação de pasto. Conforme o pasto for baixando já trocamos de piquete e com isso, o tempo para o crescimento do capim será suficiente e o animal sempre terá alimento”, pontua.