Publicado em: Pecuária

Por Natália Escobar

Fotos Gustavo Miguel e Divulgação

O verde e amarelo das pastagens brasileiras é colorido pelo branco da pecuária, que tem como base o Nelore. A raça chegou da Índia e, quando atracou no país, todos os exemplares sustentavam chifres. A variedade mocha surgiu no Brasil em 1957, no interior de São Paulo. Quase seis décadas depois, o mocho faz parte da pecuária brasileira, integrando os 80% do rebanho nacional constituído pelo gado branco. O Nelore Mocho começou a ser registrado como raça pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) em 1961. Na regulamentação, o animal é caracterizado pela ausência de chifres, sendo permitido batoque ou calo, sem protuberância córnea. Os selecionadores destacam as vantagens: os animais mochos representam menores riscos aos peões na lida e durante o transporte por caminhões.

Já nos confinamentos ocupam menos espaço, o que proporciona maior lotação. O estado que viu nascer a variedade da raça continua sendo um dos mais tradicionais em sua criação. A Fazenda do Pingado, por exemplo, está localizada no município de Guzolândia, interior de São Paulo, e seleciona a raça há quase quinze anos. Luiz Antônio Xavier Porto, proprietário da fazenda, já se dedicava à pecuária há três décadas, mas iniciou seu trabalho na seleção da raça em 2002. O criatório começou suas atividades adquirindo matrizes dos criadores mais consagrados, motivado pelas qualidades da raça. “O primeiro mocho do Brasil apareceu em Guzolândia, pelas mãos do criador Ovídio Brito. Além disso, a escolha pela raça foi também pela beleza, docilidade, facilidade no transporte, menor risco ao tratador, ganho de peso e predominância”, conta Luiz Porto.

A 350 km do criatório da Fazenda do Pingado, fica outra propriedade paulista dedicada ao Nelore Mocho. A selecionadora mais premiada do país no caráter mocho é Dalila C. C. Botelho de Moraes Toledo, da Fazenda São José Da-Car, em Santa Maria da Serra, no interior de São Paulo. Graças a seu trabalho e dedicação, está ha cinco anos consecutivos como melhor Expositora e Criadora do Ranking da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil(ACNB), além dos inúmeros prêmios individuais pelos seus animais. A criadora acredita que a vantagem do caráter mocho é sua docilidade e rusticidade.

“Para ser confinado, o gado deve ser mochado, com objetivo de conter sua agressividade. Nisso, temos uma grande vantagem, pois o nosso Nelore já é mocho pela própria  natureza. Tanto o Nelore aspado como o mocho, dá ao Brasil a supremacia do maior rebanho comercial do mundo”, afirma. Ela ainda coloca que precocidade e custo benefício são as principais vantagens  econômicas da raça. “Também se verifica menor risco no manejo no curral. Nós, criadores de mocho, já nos acostumamos com a docilidade da raça, vemos nesta qualidade um fator imenso de prevenção de acidentes do trabalho”, comenta.

Mas não é só o Sudeste que se destaca na seleção. A Goya Agropecuária pertence ao Grupo Wasmosy, que soma mais de 30 anos de seleção em Nelore Mocho. As propriedades do grupo selecionam a raça em Bela Vista, interior do Mato Grosso do Sul, e também no Paraguai. João da Goya, administrador da criação, conta que as vantagens da ausência de chifres são conhecidas pelos que lidam com os animais.

“Chifres são como armas e oferecem perigo para o vaqueiro e para o próprio animal. A característica reduz a quantidade de animais transportados nos caminhões e no curral. Assim, percebemos que temos uma seleção natural, onde animais mochos de origem podem evitar grandes prejuízos, como a descorna que, além do prejuízo financeiro, atrasa a evolução dos indivíduos”, opina João.

Definição e representação

Quando o assunto é mocho, um dos selecionadores mais tradicionais é Carlos Viacava, proprietário do Nelore CV. Há quase trinta anos selecionando em Paulínia (SP), já expandiu os negócios para mais duas fazendas. Ele conheceu o mocho através do amigo Ovídio Carlos de Brito, pioneiro da seleção da raça. Trabalhando intensamente com melhoramento genético, hoje são 2,5 mil matrizes PO com uma produção de 800 touros por ano.

Ele afirma que não existem dois tipos de Nelore. “É importante perceber que não existe Nelore Mocho e Nelore Padrão, essa é uma confusão muito difundida. Na verdade, só existe uma raça: a raça Nelore, e o padrão da raça podem ser com chifres ou com ausência de chifres. Portanto, existe Nelore Padrão Mocho e Nelore Padrão de Chifres ou Aspado. É assim que está definido no manual do registro genealógico das raças zebuínas”, explica.

O criador acredita que a raça já é consagrada boa, e o caráter mocho é ainda melhor. “O Nelore é a melhor raça para as regiões tropicais e semitropicais que caracterizam nosso planalto central, de São Paulo para cima. Muito fértil e muito bem adaptada para a maioria do território brasileiro. A principal vantagem do mocho é a maior facilidade de manejo e o menor risco de acidentes para quem trabalha com ele e para os demais animais do  rebanho. Ganha-se com um couro de melhor qualidade porque fica livre das estocadas comuns nos rebanhos de chifre. Também tem a vantagem de caber mais animais no cocho e no caminhão”.

A raça Nelore é representada na pecuária brasileira pela Associação Brasileira dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), a qual Carlos já presidiu. Já houve divergências entre os criadores do mocho e padrão em relação à promoção da raça e organização dos julgamentos, mas, hoje, a associação trabalha em objetivo conjunto, mas com julgamentos separados.  “Alguns dos ex-presidentes da ACNB são criadores de mocho, entre eles me incluo. Nós sempre tivemos o entendimento que a raça é Nelore e jamais buscamos fazer um trabalho específico para o mocho. Tratamos do melhoramento genético da raça e trabalhamos em defesa e marketing da carne Nelore. Criamos em conjunto o Clube do Mocho, que visava exclusivamente seus criadores, dentro da ACNB, para promover o caráter pelas suas qualidades”, conta Carlos Viacava.

O gerente executivo da ACNB André Locateli garante que o foco de trabalho da entidade é a promoção da raça Nelore, sem distinção em relação às suas variedades de chifres ou mocha. “No âmbito do ranking, os criadores e expositores de Nelore Mocho podem optar tanto pela participação nos julgamentos e campeonatos em conjunto com o Nelore Padrão ou exclusivo para o Nelore Mocho. Nas demais iniciativas, como o Programa de Qualidade Nelore Natural, o Circuito Boi Verde, a chancela de Leilão Oficial, também não há  separação: Nelore e Nelore Mocho participam em igualdade de condições”, coloca.