Publicado em: Pecuária

Neste momento, em algum supermercado, uma senhora escolhe qual carne levar para casa. Em frente à gôndola resfriada, ela analisa as centenas de bandejas – procura pela peça mais fresquinha, macia e vermelha. Não faz muito tempo que para comprar carne era necessário ir aos açougues, pequenos comércios, onde as carcaças ficavam expostas dependuradas logo atrás dos clientes. Com a chegada dos supermercados, todo o comportamento de compra mudou. Agora, vê-se expandir também, principalmente nas grandes cidades, os empórios gourmet, que vendem carnes selecionadas e certificadas já limpas e embaladas, prontas para o consumo. 
“Temos concorrentes fortes e precisamos ganhar mercado. O pecuarista deve ‘construir’ seus animais de forma a atender os nichos que pagam melhor. Não é vender carne em carcaça. É vender o bife empanado, os cortes nobres, a um preço diferente daquilo que se está vendendo como commodity. Ainda somos grandes exportadores, não tenho dúvida disso, mas não podemos continuar vendendo carne a granel. Precisamos agregar valor ao nosso produto para vender um produto diferenciado”, destaca o especialista em reprodução animal e diretor Executivo da Geneal, Rodolfo Rumpf.
Hoje, já se sabe que quem dita a regra para a produção do boi é o mercado. E o mercado está no consumidor final. De tempos em tempos, ele renova seus hábitos de consumo, partindo de tradições, preocupações e costumes que interferem diretamente na escolha de compra. Anos atrás, acreditou-se na picanha magra com a capa de gordura externa como a melhor opção para abastecer os churrascos de domingo. Porém, o mercado surpreendeu os criadores. A busca por carne entremeada é crescente - no ano passado, o Angus foi a segunda raça que mais inseminou, perdendo apenas para o Nelore, de acordo com relatório da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). 
O case é apenas uma mostra de que o pecuarista deve estar atento a essas oscilações do mercado para manter sua competitividade. O Nelore evoluiu muito, embora ainda existam desafios pela frente. Somente nas Provas de Ganho de Peso (PGPs) oficiais da ABCZ, a raça teve um aumento de 79% na quantidade de animais avaliados a pasto nos últimos 18 anos. Já no Controle de Desenvolvimento Ponderal (CDP) a raça teve um salto de 250 animais participantes em 1968, para mais de 175 mil em 2014, liderando a categoria com 2,8 milhões de animais testados ao longo destes anos. 
“O que não mudou foi o padrão racial oficial estabelecido e o poder de adaptação aos nossos sistemas de produção, já que nos mantivemos fieis a estes quesitos. No restante, é outro animal, mais produtivo, mais rentável, praticamente duplicamos seu potencial”, destaca o superintendente Técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Luiz Antônio Josahkian.

Genética
Entre as muitas características da raça, sua capacidade de responder rapidamente aos estímulos zootécnicos talvez tenha sido a mais importante para que o Nelore continuasse liderando a produção de carne no país, e ainda em várias partes da América do Sul. “A raça Nelore no Brasil apresenta, entre outras qualidades, uma impressionante plasticidade genética. É praticamente possível atender a qualquer mercado de carne com a genética do Nelore, claro que dependendo do foco de seleção”, prossegue Josahkian.
No Brasil, o Nelore se divide em três linhagens. São os Puro de Origem (PO), que são fruto do cruzamento entre os primeiros animais da raça a chegarem ao país com as raças taurinas, trazidas durante a colonização. Têm-se ainda os Puro de Origem Importados (POI), mantidos por tradicionais criadores que preservam ao máximo a genética dos animais vindos da Índia nas primeiras importações. E, agora, têm-se também os registrados pelo Livro Especial de Importação (LEI). Estes últimos são resultado de um esforço coletivo em busca dos animais com a melhor genética em terras indianas. Chegaram aos planteis brasileiros em 2009. 
Estes três tipos de animais, com características diferentes, garantem a variabilidade genética necessária para atender ao mercado com rapidez. Os bancos de germoplasma guardam o que há de melhor para se alcançar diferentes resultados de seleção, de acordo com o comprador a ser atendido. Embriões, sêmen, células e tecido preservam a genética dos animais diferenciados. “Você vai ter uma linhagem para produzir carne de qualidade que provavelmente não vai ser a melhor para ganho de peso, mas é necessário tê-la representada”, evidencia Rodolfo. 
O melhoramento é ponto chave nesta discussão. “Hoje, a gente sabe que se o Brasil quiser continuar sendo um líder na produção de alimentos do mundo, ele tem que estar muito bem aparelhado: do ponto de vista da sua base genética e de tecnologia”, prossegue o geneticista. Rodolfo destaca ainda a importância de o país ter uma base genética forte, tecnologia consolidada, gente qualificada e onde buscar insumos para continuar à frente no setor. “Se você tem a base genética preservada, você pode ser audacioso no seu programa de melhoramento. Se der errado, pode voltar, buscar as ferramentas, os genes, e reconstruir o que o mercado quer”, analisa.

ExpoGenética
De acordo com o relatório da Asbia, o uso da inseminação artificial aumentou 59% na pecuária de corte entre 2009 e 2014. As tecnologias disponíveis são inúmeras. São técnicas de fertilização in vitro, transferência de embriões, clonagem, que tendem a evoluir ainda mais. “No mundo inteiro a reposição de fêmeas tem aumentado. Isso contribui muito para firmar o mercado de reprodução no Brasil”, ressalta o nelorista Cláudio Carvalho Filho, da tradicional seleção Chácara Naviraí.
Todas estas novidades científicas serão debatidas de 16 a 23 de agosto durante a ExpoGenética, que alcança sua oitava edição. Organizada pela ABCZ, a exposição no Parque Fernando Costa, em Uberaba (MG), tem por objetivo, além de dinamizar o acesso ao que há de mais novo em Genética no mercado, mostrar os animais avaliados. Poderão participar machos e fêmeas acima de oito meses, devidamente registrados pela ABCZ e participantes de Programas de Melhoramento Genético homologados pelo MAPA, com índice até TOP 20% em seus respectivos programas. 
Estarão presentes participantes do Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ) e também dos diversos outros programas realizados no país – cada um com um foco de seleção. Ainda durante a ExpoGenética, acontecerá a última etapa de seleção dos candidatos a uma vaga no Programa Nacional de Avaliação de Touros Jovens (PNAT). Além disso, acontecem diariamente leilões de animais avaliados pelos programas de melhoramento, lançamentos dos principais sumários de touros zebuínos, debates e capacitação profissional.

Pistas
Criado no início da década de 1990, o PMGZ se consolida como principal programa de melhoramento do Brasil. Nele, o Nelore já alcança grandes resultados. O gerente de Pesquisa e Melhoramento Genético da ABCZ, Henrique Torres Ventura, destaca pesos a desmama e ao soberano, perímetro escrotal ao soberano e habilidade materna como as principais contribuições do programa. 
Para Murilo Gibertoni, nelorista desde 2006, a combinação de melhoramento com pistas oferece um bom resultado. “Eu vejo que o Nelore está evoluindo muito. O pessoal está tentando aliar as avaliações genéticas da ABCZ ao fenótipo - a avaliação visual. A gente busca o sucesso tanto da avaliação genética quanto do fenótipo. Essa união que dá o resultado, o produto na pista que tanto se procura. É um conjunto que vale muito a pena”, afirma. 
A prova disso é que Genova Gibertoni foi a Grande Campeã da Expoinel Mineira e Reservada Grande Campeã Nacional da ExpoZebu 2015. Zootecnista, foi Murilo quem fez a inseminação. Sua aposta é que Genova seja Grande Campeã da maior feira zebuína do mundo em pouco tempo. “Quando entrei na raça, sonhava em fazer um primeiro prêmio em Uberaba. Hoje, já conquistamos quatro. O maior dom do Nelore é o tempo – é ele que dita as coisas. Não existe milagre. Se você fizer bem feito, consciente do que está fazendo, o resultado aparece”, comemora.  
“A primeira ferramenta é ter olho. A segunda, é escolher um programa de melhoramento. Juntando essas duas coisas o criador vai melhorar aquilo que suas matrizes precisam. É ele quem vai definir”, elenca Valdecir Marinho Júnior, zootecnista e consultor pecuário. 
 

Futuro
Para atender a demanda mundial de alimentos, o Brasil deverá dobrar sua produção de carne até 2050. E 75% desse esforço terão de vir da tecnologia, aliada à sustentabilidade. Além de animais mais precoces, será necessário produzir mais com a mesma quantidade de recursos. 
Durante a ExpoZebu 2015, a ABCZ recebeu a visita do ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo. Ele reiterou sua preocupação com a pecuária brasileira. “Temos um país que produz alimento e por isso temos um status de geopolítico. O Brasil irá continuar com esse status que contribuirá não só para a população interna, mas para todo o mundo”, afirmou. 
Na ocasião, o presidente da ABCZ, Cau Paranhos e a equipe técnica apresentaram ao ministro o projeto sobre a “Aplicação da genômica na seleção das raças zebuínas”. É um programa que a ABCZ pretende implantar nos próximos anos. “O encontro foi bastante produtivo. A aplicação da genômica permitirá identificar mais cedo, com maior acurácia, indivíduos geneticamente melhoradores. Isso implica em maior ganho genético por unidade de tempo”, explica Henrique Torres Ventura.
“O começo disso tudo é a pesquisa, que já está em andamento. Começamos a colher amostras biológicas para obtenção dos genótipos. Em seguida, testaremos diferentes metodologias e validaremos os resultados. Finalmente, com o processo implementado, poderemos entregar ao criador as DEPs genômicas para todas as características zootécnicas incluídas no PMGZ”, explica.
Rodolfo acredita também no “boi transgênico”. “Já temos ferramentas que conseguem identificar características de mutação e transferir para outros animais. Isso é uma ‘intragenia’, porque já existe este genótipo dentro da espécie bovina, não estamos buscando em outra espécie, mas é necessário manipular geneticamente a molécula do DNA”. 
Esse processo, já desenvolvido na academia, poderá garantir mais rendimento de carcaça, qualidade de carne e até modificação nas bactérias do rúmen, para melhorar o aproveitamento do substrato alimentar disponível. Com tantas novidades por vir, o desafio agora é o uso racional e objetivo de da variabilidade genética e das tecnologias de olho no mercado, e ainda conseguir levar tudo isso, que está na ponta da pirâmide, para os rebanhos comerciais, na base.