Publicado em: Pecuária

O tatersal Rubico Carvalho foi transformado em um pedaço da Índia durante o 2º Leilão Nelore Beka Nova Importação, durante a ExpoZebu 2015, em Uberaba (MG). As cores fortes na decoração e a deusa indiana Shiva estampada na entrada indicavam que ali existia um pedaço da história da pecuária brasileira. O Nelore importado da Índia formou a base do que hoje é o maior rebanho bovino comercial do mundo. Mais de um século depois do primeiro exemplar zebuíno pisar em solo brasileiro, o remate promovido pelo selecionar, importador e Deputado Federal Abelardo Lupion trouxe os resultados da mais nova importação. 
“O que temos aqui é um pedaço de um momento histórico na evolução do melhoramento genético do Nelore brasileiro. O que vimos durante o leilão é o resultado de touros importados inseminados em vacas nacionais de Pura Origem (PO). São exemplares excepcionais, que trarão um refrescamento de sangue saudável e necessário para raça. Quando trazemos o Nelore da Índia, trazemos junto dois mil anos de seleção natural. Isso significa um salto genético impensável para o rebanho brasileiro”, afiança o promotor do remate, conhecido como Beka. 
A trajetória que transformou o Ongole indiano no Nelore brasileiro é separada em fases distintas, começando no século 19. Manoel Ubelhart Lembgruber importou um casal da raça, abrindo o caminho para pequenas importações, que chegavam aos portos do Rio de Janeiro e Bahia. A vinda dos animais é proibida em 1921, e retomada quarenta anos depois. Em 1962 desembarcam no Brasil animais trazidos pelos zebuzeiros brasileiros, que protagonizaram uma verdadeira epopeia para incrementar o rebanho do país. A bordo do navio Cora, touros que formariam a linhagem brasileira da raça chegam à Fernando de Noronha: Karvadi, Taj Mahal e Godhavari. Em 1964 o Governo proíbe importações de gado da Ásia e África. 
Após quase cinquenta anos de negociações, as importações de material genético da Índia são liberadas. À frente da nova importação, o empresário mineiro Jonas Barcellos, da Fazenda Mata Velha, colocou o seu nome junto ao dos célebres zebuzeiros da década de 1960.  Ele liderou um grupo de criadores que conseguiu convencer autoridades do Brasil e da Índia a rever o bloqueio. Jonas já vinha investindo há mais de 15 anos na Índia, confiando na abertura do mercado, que foi oficializada em 2009. “A partir desse momento, pudemos experimentar um novo salto de qualidade genética na pecuária”, conta o empreendedor. 
O salto genético mencionado por Jonas acontece por conta da diversificação da consanguinidade do rebanho.  A importação da década de 1960 trouxe para um avanço imenso em qualidade e quantidade na produção de carne brasileira, fazendo do país o maior produtor mundial. Porém, mais de meio século depois, a raça Nelore passou a ser totalmente consanguínea, por descender de, no máximo, cinco linhagens distintas. Isso faz com que defeitos se acentuem e qualidades sejam mais difíceis de evoluir. 
Fernando Carvalho Leite de Barros, médico veterinário formado pela Universidade de São Paulo (USP) trabalhou por um longo período com Torres Homem Rodrigues da Cunha, um dos importadores pioneiros da década de 1960 e tradicional selecionador. Hoje assessor pecuário da Sucesso Assessoria Pecuária (SAP) e diretor dos trabalhos de importação da Fazenda Mata Velha, ele explica a melhoria que a importação pode proporcionar. “A raça já está muito sedimentada no país, mas são poucos animais formando a nossa base de rebanho. Quanto mais abrirmos esse leque de linhagens, melhor para trabalhar em termos de heterose, produção de carcaça de qualidade e rusticidade. O que trouxemos agora para o Brasil foram linhagens diferentes das que vieram em 1962”.
O assessor ainda explica que a nova importação procura ressaltar novas qualidades no Nelore. “Aquela importação de 1962 foi importantíssima e formou a base do Nelore que temos hoje no Brasil, mas foi feita de maneira diferente, com outros olhares na hora de comprar os animais. Hoje procuramos colocar na seleção alguma coisa que possa contribuir ainda mais. Os animais comprados recentemente na Índia são mais produtivos, mais funcionais. Buscamos as qualidades que o Nelore já tem e pode potencializar”, coloca Fernando. 

Epopeia 
Refrescar o sangue do rebanho brasileiro não foi uma tarefa fácil até aqui. Em 2008, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) abriu o Livro Especial de Importação (Lei), para catalogar todo material genético registrado na Índia, sob a forma de animais vivos, sêmen ou embriões. Mas o trabalho começou antes. O selecionador Beka conta que visitou o país asiático em 2000, e ficou encantado com a possibilidade de trazer aqueles animais para o seu plantel, já pensando nos benefícios para pecuária brasileira. Procurou o amigo e parceiro Jonas, e resolveu apostar na nova importação. 
“Os técnicos da ABCZ e a comunidade científica viam a necessidade de refrescar o sangue do nosso rebanho, que estava baseado em quatro touros. Uma dificuldade, porque a consanguinidade pode fazer parte de uma seleção, mas também gera problemas, e o primeiro deles é a diminuição da fertilidade. Então fomos à busca disso, mas não foi fácil”, conta Beka. 
Ele narra que a seleção dos animais foi a parte mais complicada, porque os melhores exemplares estavam escondidos em aldeias distantes e eram cultuados pelos aldeões, mesmo porque cada aldeia só tem um touro. “Demoramos até três anos para conseguir tirar alguns touros das aldeias, como é o caso do Jamphur. Houve até uma solenidade no dia da ida dele, onde o acompanharam até a saída da aldeia. E só o deixaram sair porque arrumaram um substituto. Essa história dá um livro, e um belo livro”, relembra. 
Outra personagem dessa história que tem muito para contar é o indiano Pradip Singh Bahadur Raol, o representante legal da ABCZ na Índia. Pradip é a ponte entre brasileiros interessados em Zebu na Índia desde a década de 1960. Participou das últimas duas importações e conduziu os brasileiros visionários pelos extensos caminhos das Índias até o tesouro da genética zebuína. Paradip veio ao Brasil pela primeira vez em 1963, nos tempos das importações de Celso Garcia Cid, e aqui aprendeu a falar a língua portuguesa, o que fez dele o principal elo entre o Brasil e a Índia.
Em 1998, Jonas pediu que Pradip acompanhasse seu parceiro Celso Marconi na empreitada para buscar novos animais para importar.     Criador de gado leiteiro no seu país, Pradip conta que, mesmo tendo muitos amigos e conhecendo muita gente, não foi fácil encontrar os animais que os brasileiros desejavam. “Andamos por meses, Celso e eu. Ele quase não comia, desacostumado com a comida muito apimentada. As coisas não são fáceis lá, não se acha transporte facilmente. Mas valeu a pena. Naquela viagem começamos a encontrar os tipos de animais que Jonas buscava”, narra. 
Jonas arrendou a propriedade de Pradip e investiu pesado em um laboratório para estudar a genética que queria importar. “Procuramos fazer um trabalho com muito critério e tranquilidade, sem pressa. Trouxemos esse material genético porque nosso gado descende de poucos touros, poucas linhagens. Acreditamos que era importante trazer linguagens novas, e foi o que fizemos. Tem praticamente 20 anos que comecei a pensar nisso. Foi um trabalho muito grande. Esperamos oito anos para conseguir a liberação do Governo no Brasil. Depois de oito anos tentando aqui, conseguimos, aí ficamos mais oito anos lá tentando a autorização. Foi dificílimo”, conta o proprietário da Mata Velha.

Primeiros resultados 
Além do grupo de pecuaristas orientado por Jonas Barcelos, outros grupos se formaram para buscar essa nova remessa de genética indiana. O Projeto Nelore JOP, por exemplo, é formado por seis grandes fazendas (Katayama Pecuária, Nelore Zeus, Fazenda Guadalupe, Fazenda Fortaleza, Fazenda Vista Alegre e Agropecuária Ônix) e também começou a importar material genético em 2004. Aos poucos, a genética zebuína que cruzou o Oceano Pacífico para chegar aqui começa a fazer diferença nos pastos brasileiros. Mas ainda é cedo para falar em resultados definitivos. 
“Ainda é um trabalho muito recente, os animais mais velhos têm pouco mais de dois anos. É uma análise precoce em números, mas já observamos que a tendência dessa genética importada é produzir animais muito uniformes, férteis e precoces. Não temos preocupação com o curto prazo, queremos contribuir com a pecuária de corte do Brasil. Sairão campeões de pista dessas linhagens, com certeza absoluta, mas essa não é a preocupação atual. A tendência é que, à medida que esses animais tiverem maior visibilidade, haja mais procura. Esse ano observamos que já existem muito mais pessoas interessadas que no ano passado”, explica o assessor Fernando.
Mas o que foi visto lá e até agora por aqui já geram grandes expectativas. “Na Índia, os machos tem uma ossatura excepcional, uma musculatura posterior sensacional. Já as fêmeas tem que dar leite para as famílias, que são muito pobres e precisam disso pra sobreviver, o que resultou em habilidade materna e produção de leite. A fertilidade é óbvia, porque se a vaca não parir todo ano, os agricultores não tem como manter aquele animal, e precisam descartar. Ou seja, ao importarmos animais indianos, importamos várias características já muito bem selecionadas naturalmente”, conta Beka. 
“Pelo que temos visto a campo, é um gado que tem muito a contribuir. Animais dão cio ou sêmen muito precocemente. Na Mata Velha nós temos fêmeas prenhas aos 11 meses, fêmeas de 12 meses que produziram 40 ovócitos em apenas uma aspiração. E não é uma ou outra, é a maioria dos animais atinge potenciais incríveis. Animais extremamente funcionais. Já vimos rebanhos usando essa genética e as fêmeas emprenham mais cedo, dão muito leite e tem um porte mediano, o que é muito importante pra nosso modelo de pecuária. A grande contribuição dessa importação é para pecuária de corte como um todo”, acrescenta Fernando. 
Diante da promessa de revolução na produção de carne brasileira, vários criadores estão colocando a mais nova genética indiana em seus planteis. Rubens Catenacci, proprietário da Fazenda 3R, em Camapuã (MS) é conhecido por promover remates que surpreendem na liquidez e valorização da genética. Sempre atendo ao que existe de melhor no mercado, o nelorista acompanhou de perto a saga do amigo Beka para importar, e na primeira chance investiu. “Os animais Lei representam uma melhoria para genética que já temos aqui. Com essa precocidade, com essa fertilidade, vamos produzir a melhor carne do mundo. Sabemos que vai dar resultado porque vemos a precocidade e fertilidade”, afirma o pecuarista.
Quem também investe nos animais Lei é o Condomínio Jorge Sidney Atalla, que há quarenta anos seleciona Nelore e se mantém entre os mais respeitados grupos de neloristas do país. Fundado pelo pecuarista que dá nome à marca CJSA, hoje o Condomínio é conduzido por seus quatro filhos, Jorge Sidney Atalla Jr, Jorge Augusto Letaif Atalla, Mariana Letaif Atalla e Jorge Henrique Letaif Atalla. Os irmãos tem um plantel formado por matrizes e reprodutores, POI e PO, descendentes das principais linhagens importadas da Índia, como Karvadi, Taj Mahal, Golias, Godhavari, Kurupathi, Akasamu. Para multiplicar a produtividade do seu rebanho como um todo, apostaram no refrescamento de sangue. 
“A nova importação é uma iniciativa de um grupo de criadores muito arrojados de trazer um gado que agregue na genética do que já existe aqui. O Nelore brasileiro tem uma evolução gigantesca, mas chegou a um ponto que estamos acasalando algumas linhagens repetidamente. Geneticamente falando, isso causa uma endogamia que, com o tempo, vai causando a acentuação de defeitos, características negativas para seleção. Quando você dá um choque de sangue com uma genética nova, o resultado é positivo por mais cem anos”, explicam os irmãos Atalla.  
Os pecuaristas envolvidos na nova importação garantem que ainda há muito trabalho a fazer pelo Nelore brasileiro, mas afiançam que a nova importação é um grande passo em direção ao futuro da raça. Ainda existem botijões com embriões presos na Índia por conta de burocracias políticas, mas, se tudo correr bem, eles cheguam ao Brasil em breve. Ao todo, estima-se que, com essa nova importação, 13 linhagens forme a paisagem dos pastos brasileiros daqui pra frente. Mas talvez seja só o começo. “A possibilidade de melhorar ainda mais é infinita”, finaliza Jonas.