Publicado em: Pecuária

Originário de duas raças milenares, o zebuíno Guzerá e o taurino Holandês, o Guzolando mostra suas vantagens para a produção leiteira nacional. O cruzamento ganhou popularidade ainda na década de 1920, quando passou a ocorrer com mais frequência entre os criadores. Em 1989, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) autoriza a emissão do Certificado de Controle de Genealogia (registro), destinado aos produtos oriundos de cruzamentos entre raças taurinas e zebuínas, ou destas com quaisquer outras raças. Vinte anos mais tarde, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) passa a emitir o Certificado de Controle de Genealogia, que fortalece o mercado do Guzolando. 

Rusticidade, produtividade e longevidade são destaques entre as características da raça. O Guzolando pode produzir de 25 kg a 30 kg de leite por dia, com custos 50% menores que de uma Holandesa pura. No quesito rusticidade, o Guzerá é altamente adaptável, podendo sobreviver em climas extremamente quentes bem como em lugares de clima frio. Em provas de ganho de peso realizadas na cidade berço da raça, Curvelo, em Minas Gerais, o Guzolando chegou a engordar 750 gramas por dia, ganhando, inclusive, do Guzerá puro, que registrou ganho de 730 gramas ao dia. Ou seja, um cruzamento que produz muita carne e muito leite.
Ainda em Curvelo, durante a 12ª Exposição Nacional do Guzerá, aconteceu neste ano o primeiro Concurso Leiteiro Oficial realizado pela ABCZ da raça Guzolando. “O concurso contou com seis vacas participantes, todas de propriedade de Dalton Canabrava (Central Leite, em Curvelo), tendo a campeã uma produção de 40,02kg de leite por dia”, aponta o consultor da exposição, Eros Gazzinelli. 
 “O Guzolando é uma ferramenta necessária para a pecuária leiteira no Brasil. Suas qualidades são múltiplas e já conquista um mercado que exige longevidade, aumento progressivo nas lactações de suas fêmeas, e maior ganho de peso e qualidade de carcaça nos bezerros”, completa.
Para incentivar a seleção adequada da raça, a Associação Brasileira dos Criadores de Guzerá lançou durante a ExpoZebu 2015 o Manual do Registro Genealógico do Guzolando. O objetivo é difundir o fenótipo desejável, as características da raça e auxiliar na produção do animal. Dentre as possibilidades do registro estão os bezerros de primeiro cruzamento meio-sangue, em segundo cruzamento de três quartos Holandês e um quarto Guzerá, e, por último, na terceira cruza com três oitavos de sangue Guzerá mais cinco oitavos do Holandês.

Criadores
Marcus Figueirêdo, conhecido como Mica no meio agropecuário, é a segunda geração de guzeratistas na família. O criatório Guzerá de seu pai, José Transfiguração Figueirêdo, teve início em 1958, quando se casou e mudou para Curvelo, onde conheceu a raça. A partir de então passou a criar para produção de leite, com produção de até 700 litros. Advogado, mantinha o criatório como hobby e para sustentação da fazenda. Anos mais tarde, quando os sete filhos cresceram e estavam prestes a ingressar na universidade, José viu que era hora de ampliar a produção e tirar alguma renda dela. 
Recomendado por seu veterinário, começou os cruzamentos com o Holandês em 1973. Foi neste momento que o hobby virou um negócio. Dando continuidade ao trabalho do pai, Mica trabalha com a produção do leite Guzolando e com a venda de tourinhos Guzerá. “A grande virtude do Guzolando é a padronização, as vacas são todas iguais. Isso comercialmente é muito bom. Além disso, existe uma longevidade herdada do Guzerá. Nós temos vacas que viveram 20 anos na fazenda produzindo leite normalmente, como uma vaca nova. Não é economicamente viável, mas é possível”, demonstra Mica.
“Hoje, a gente já consegue fazer média de curral nas novilhas de até 20 kg na primeira cria. Em produção de torneio leiteiro, já tivemos vacas produzindo até 66 kg de leite. Essa tendência é de aumentar e muito”, prossegue. 
A relação do criador Joaquim Martino com o Guzerá é inversa. Entrou na raça por influência do filho, Túlio Martino, e há cinco anos vem investindo pesado. “Quando comecei a usar o Guzerá para produção de leite, fiquei muito surpreendido com o resultado positivo. As fêmeas dão muito leite com pouca coisa e cuidam bem das crias. Usamos o Guzerá para cruzar com o gado europeu, e tem dado certo e produzido bastante, embora o projeto ainda esteja em fase inicial. Tiro leite todo dia, de manhã e de tarde. Queremos ampliar essa produção e apostar ainda mais na raça”, afirma o criador.
“Os pecuaristas que investem na melhoria genética do rebanho utilizando animais da raça Guzerá conseguem ampliar a produtividade, a precocidade e a qualidade dos produtos, seja ela a carne ou o leite. O retorno dos nossos clientes tem sido muito positivo e a maioria vai continuar investindo na raça”, continua Martino. 

Mercado
Na Universidade de Uberaba (Uniube), Minas Gerais, o criatório de Guzolando vem apresentando tanta procura que não há tempo para o controle leiteiro oficial na fazenda. As novilhas paridas são logo vendidas para criadores interessados na raça. “Para fazer o leilão na Megaleite tivemos que deixar de vender os animais na fazenda. Nosso objetivo é divulgar o Guzolando, porque o leilão é televisionado”, coloca o gerente pecuário, responsável pelo programa do Guzerá da Uniube e criador, Marcelo Lack.
O gerente atribui a procura maior ao conhecimento da raça, que é boa para o leite, fértil e rústica. Criado exclusivamente a pasto, o Guzolando atinge uma média de 10 quilos de leite ao dia. Em confinamento, este valor pode subir para 40 quilos. Outro ponto a favor da raça é a qualidade do leite, que contém maior percentual de sólidos totais, que resulta em menor tempo para a coagulação do leite no preparo do queijo, rendendo até 12% a mais que outros tipo de leite nas fabricações de muçarela e 8% de cheddar. 
“Para ser competitivo no mercado, reduzir os custos e aproveitar melhor os recursos disponíveis, é necessário que o produtor busque uma raça adaptada à realidade das nossas pastagens, além de ser capaz de converter mais rapidamente o alimento em peso e leite. E o Guzerá faz isso”, finaliza o guzeratista Joaquim.