Publicado em: Pecuária

Precocidade é a palavra de ordem no mercado hoje. Com a necessidade de se produzir mais em menos tempo, aumentando o aproveitamento por hectare, a precocidade é fundamental para que o Brasil possa atender aos mercados interno e externo de maneira eficiente. Para alcançar esse objetivo, os pecuaristas lançam mão das mais diversas tecnologias para selecionar os melhores animais. No Tabapuã, os cruzamentos com raças zebuínas e taurinas têm se mostrado uma alternativa eficaz para agregar produtividade ao rebanho comercial.
 Estudo divulgado em 2000 mostra a soberania do Tabapuã em cruzamentos envolvendo tanto zebuínos quanto taurinos, em comparação com a raça Nelore. Os resultados têm ainda maior destaque nas combinações de Red Angus com Tabapuã e de Brahman com Tabapuã, que tiveram aproveitamento de 100%. Para a pesquisa, os animais foram abatidos aos 15 meses de idade. Os Red Angus x Tabapuã terminaram com 261,4 kg, enquanto o Brahman x Tabapuã com 245,5kg. Já o Nelore registrou 247,5 kg no cruzamento com Red Angus.
Desde a oficialização da raça Tabapuã, na década de 1940, os animais mais precoces e com melhor terminação de carcaça sempre foram o foco da seleção. Hoje, a raça é considerada uma das mais completas para cruzamentos devido a essas características e ainda ao alto grau de heterose. Ela permite a utilização dos animais tanto para F1 com Nelore e raças européias, quanto para o tricross em cima de F2 para outros cruzamentos.   
“O Tabapuã é muito usado para voltar na F1. O pessoal joga Angus na fêmea Nelore, e essa fêmea meio sangue Nelore x Angus volta com Tabapuã, para depois abater macho e fêmea. Mas o resultado está tão bom que não estão matando as fêmeas. Normalmente, o cruzamento industrial tricross utiliza duas raças européias. O Brasil inventou o tricross contrário, com dois zebus. Você não sai do branco e mantém a rusticidade”, evidencia o assessor pecuário Fernando Garcia de Carvalho.
“No cruzamento do F2, quando volta para cruzado, o índice de animais médio para ruim é grande. Voltando com Tabapuã, isso não acontece. Já na primeira cruza o índice de animais TOP é quase total”, destaca o criador Marcos Germano, da Fazenda Chapadão, em Minas Gerais.
No Controle de Desenvolvimento Ponderal (CDP) realizado pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), o Tabapuã também é destaque em precocidade. Seus bezerros têm a desmama mais pesada a pasto aos 205 dias, com 192 kg e também em regime semi-confinado, com 226 kg. Já em regime de confinamento total, a raça deixa de ser vantajosa, perdendo para várias outras. 
Fernando destaca que a precocidade de acabamento de carcaça do Tabapuã reflete também na fertilidade do animal. “Se termina mais cedo, a fêmea cria mais cedo. Essa fase de recria é um dos grandes gargalos da pecuária brasileira e estamos tentando diminuir isso”, aponta. 
Entre outras características do Tabapuã, os criadores se atraem pela docilidade e habilidade materna. Em cruzamentos com Nelore, quase 90% dos animais nascem mochos logo na primeira tentativa. Além disso, o Tabapuã tem comportamento ameno durante o confinamento, que é repassado nas combinações com outros zebuínos. 

Cruzamentos
Na década de 1990, os cruzamentos diretos entre Tabapuã e Limousin foram um sucesso. A conformação da carcaça mostrou resultados esplêndidos para os pecuaristas. Foi também nesta época que o Tabanel entrou em ascensão, também com um resultado de carcaça excelente. 
Posteriormente, o Tabapuã puro-sangue passou a fazer parte do tricross entre Nelangus (meio-sangue Nelore x Red Angus), experiência que se mostrou sucesso em índices de precocidade e fertilidade, principalmente da vacada a campo. 
Em rebanhos Tabanel, também já foram inseridos no tricross Chianina, para precocidade, e Charolês, para habilidade materna. Com Tabapuã puro se testou Devon, raça inglesa, para lhe acrescentar rusticidade; e Aberdeen, no Sul do país, onde o clima é frio. 
Na seleção da raça há 40 anos, Marcos Germano promove em seu plantel os cruzamentos de Tabapuã com taurinos e zebuínos. A Fazenda Chapadão já experimentou o resultado do Tabapuã com Charolês, Pardo Suíço (corte), Angus e, agora, avalia com Sindi. Por enquanto, a aposta é no Angus, que acrescenta ainda mais precocidade ao Tabapuã. 
Enquanto os bezerros puro sangue mais novos foram desmamados com 266 kg para machos e 245 kg para fêmeas, em média, os meio-sangue Angus, foram desmamados com uma média de 305 kg os machos e 280 kg as fêmeas. 
Agora, Marcos aguarda o nascimento dos primeiros cruzados Sindi para verificar as características dos animais. Entre os objetivos, está a análise de quantos serão mochos. Germano destaca a rusticidade e o tamanho do Sindi como suas principais características para o cruzamento ganhar adeptos principalmente nas regiões do semi-árido brasileiro. 
Já no Sul da Bahia, berço do Tabapuã, uma nova modalidade de cruzamento ganha destaque. É o Tabolando. Após a substituição do mercado da carne pelo do leite, as fêmeas Tabapuã estão sendo utilizadas pelos produtores locais como matrizes para o cruzamento com Holandês. O criador Paulo Porto, da fazenda Kaylua, aponta como única desvantagem o tamanho da vaca Tabapuã, sendo que a procura por produtores de leite na região é crescente. A novilha prenha, criada a pasto, chega a ser vendida por R$ 4,5 mil. “O Tabapuã como matriz é fantástico, por causa da habilidade materna, beleza do animal e pelo fator mocho”, observa Paulo.
Antes de passar para o leite, Paulo fez grandes avanços nos cruzamentos de corte, por volta de 10 anos atrás. Os melhores resultados de precocidade foram atingidos através do Limousin e do Angus. Os animais estavam prontos para o abate entre os 24 e 30 meses, porém não tinham a camada de gordura de 5 a 6 milímetros exigida pelos frigoríficos para o bom armazenamento da carne. Nos leilões, os cruzados também não ofereciam retorno financeiro. O criador acabou voltando para os animais puros. “É inegável que o caminho era aquele”, afirma Paulo. 
Para atender aos frigoríficos, hoje, o problema foi resolvido com a terminação em confinamento. O caminho certamente era o cruzado, devido à sua precocidade, sendo este um mercado que deve entrar em expansão. 
Estudo realizado pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) com animais confinados mostra que o aproveitamento de carcaça do Tabapuã puro chega a 54%. Os abates realizados apontaram carcaças com maior quantidade de músculos, mínimo de ossos e gordura adequada conforme as exigências do mercado. 
Agora, o desafio dos criadores é mostrar a qualidade de carcaça dos animais cruzados. “Em nível de fazenda, estamos começando a fazer testes de carcaça, é um projeto novo, para comprovar que o Tabapuã acumula gordura mais cedo – ou seja, é mais precoce”, explica Fernando.