Publicado em: Pecuária

Oficialmente surgido nos Estados Unidos, o Brahman nasceu de cruzamentos direcionados com outras raças importadas: Nelore, Guzerá, Gir, Khrisna Valley, Sindi, Cangaiam, Indubrasil, e possivelmente ainda outras. No Brasil, o surgimento oficial foi em 1994, quando chegou a primeira importação do país de origem. Atualmente, mais de 89 países ao redor do mundo tem o Brahman na sua cadeia de produção pecuária. São diferentes nações em diversos climas e condições pecuárias, mas, em todos, a raça consegue se firmar como uma máquina de produzir carne.
André Moura Andrade é um dos vários selecionadores que afirmam esse potencial a nível mundial do Brahman. Veterinário, assessor pecuário e juiz oficial da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), André é também criador da raça e responsável pelo desenvolvimento de vários rebanhos. Ele começou a visitar outros países criadores da raça para conhecê-la melhor e ter a certeza de que tinha escolhido a certa para as condições do seu país. “Pude ver isso de forma clara e evidente”, conta. 
Depois de conhecer vários países, começou a viajar com intenções comerciais. “Além de meu trabalho técnico, comecei a estimular o intercâmbio de material genético entre os países. Estive, por exemplo, várias vezes na Colômbia, o país detentor do maior rebanho de gado Brahman de registro do mundo.São aproximadamente 25 milhões de cabeças no país, onde a influência da raça certamente ultrapassa os 90%. Também estive nos EUA, México, Panamá e Argentina. Além disso, conhecimento sobre a Austrália e outros países pude obter através de intercâmbio de informações com criadores e técnicos de diversos países, que tive o prazer de conhecer mudo afora”, narra.”, narra. 
Ele conta que a nível mundial, podemos seguir o exemplo da Austrália. “O país é nosso principal concorrente nas exportações de carne, e se destaca em termos de produção, tendo um rebanho com 60% de influência do Brahman. A raça permite a atividade pecuária nas regiões desérticas, de clima e condições de sobrevivência castigados ao extremo, o que mais uma vez comprova a tolerância do Brahman ao calor e ambiente adverso”. 


América Latina
André conta que o Brahman está presente em quase todos os países da América Latina, com exceção do Uruguai, onde o clima é propício para as raças européias, sobretudo do Angus e Hereford. “Também o Chile não tem muita expressão em termos de criação de Brahman. Nos demais, a raça tem forte influência, sendo a base da pecuária de corte, em cruzamentos dentro da própria raça ou com outras, seja com a finalidade de corte ou para produção de leite a baixo custo, agregando valor o macho, visto que desmama bezerros mais pesados do que as raças leiteiras”, garante.
Ainda na América Latina, a Colômbia é outro país que tem uma expressiva qualidade genética e está estreitando laços com o Brasil. “Durante a ExpoZebu 2015, tivemos a honra de vender 50% do Grande Campeão Nacional Brahman, Mr. Osbornejack, filho de mãe e pai nascidos em solo brasileiro, para um expressivo criador de Brahman da Colômbia, por um valor considerável”, conta André. É a genética do Brahman brasileiro propagando a raça para o mundo. 
A marca Brahman Canaã, da Agropecuária Leopoldino, foi cinco vezes consagrada Melhor Criador e Melhor Expositor da raça. A fazenda, que fica em São Carlos (SP), exporta genética para Bolívia, Paraguai e Panamá, entre outros países. Paulo Scatolin, responsável pela seleção, conta que, devido às negociações da fazenda, é fácil concluir que o Brahman está pronto para suprir o mercado mundial. 
“O Brahman é a única raça que está em mais de 80 países. Temos um resultado muito bom nas relações exteriores. Temos uma parceria de seis anos com a Bolívia, e muitos animais que foram do Brasil para lá e conseguiram grandes campeonatos, pontuaram nas pistas e fizeram a raça crescer muito no país”, conta. 
Somente no último leilão do Brahman Canaã, em abril, foram vendidas mais de 30 mil dólares em sêmen para Bolívia, e mais 50 mil dólares em animais para exportação. E a produção não para. Nos primeiros 15 dias de maio, a marca comercializou 220 animais. Paulo conta que está sendo necessário aumentar a produção, porque a demanda está maior que a oferta. 
Mas ainda existem outros mercados a desbravar, e barreiras a vencer. Mercado para o Brahman, Paulo garante que tem. “Como o Brahman é um zebuíno mundial, você consegue vender em qualquer país que tenha um acordo sanitário. Tive demanda da Costa Rica, Grécia, entre outros mercados, mas não temos protocolos. Essa é a nossa grande dificuldade”, lamenta.

Brahman norte-americano 
O senador norte-americano pela Flórida, Javier Souto, foi um dos 362 estrangeiros de 23 países que visitaram a ExpoZebu esse ano. Mas não foi a primeira vez que Javier veio ao Brasil. O senador é de origem cubana, e veio para o Brasil como refugiado, mudando-se posteriormente para os Estados Unidos. Em 2003, voltou ao Brasil com a finalidade principal de conhecer a maior feira zebuína do mundo, em Uberaba (MG). Desde então, não perde uma só edição. Esse ano, além de visitar a feira, ele também participou de reuniões para reavaliar as negociações comerciais entre os dois países e promoveu a Miami International Agriculture Show, maior feira de agricultura do estado norte-americano. 
Além de senador, Javier também é pecuarista e brahmista. A família tem alguns animais na Flórida. Ele conta que as regiões onde a raça é mais expressiva são o Texas, Louisiana e New Orleans, mas que o Brahman se adapta a qualquer clima. Ele ainda conta da amizade com o presidente da ABCZ, Cláudio Paranhos, e da vontade de estreitar as relações comerciais com o Brasil. 
“O problema do Brasil com os Estados Unidos é que o material genético brasileiro não está permitido lá. O Brahman é originalmente americano, mas surgiu do gado zebu importado do Brasil, ou seja, a base do rebanho americano é brasileira. Além do mais, acredito que no Brasil talvez esteja mais avançado em genética em comparação aos Estados Unidos, pelo que tenho escutado”, diz. 
Quanto aos protocolos, Javier procura ajudar o Brasil a entrar no mercado norte-americano. Ele conta que há muitos anos foi à Washington com o pecuarista Rubico Carvalho, em uma reunião com os chefes do Departamento de Agricultura americano. “A reunião foi para perguntar quando teríamos um protocolo. Os americanos disseram que estavam seguros de que em cinco anos isso estaria resolvido. Já se passaram nove, e ainda estamos na espera. Mas eu acredito que, em algum momento, algo vai acontecer. O governo americano falou conosco, eu estava lá”, aposta o senador.


Alimentar o mundo
Com o crescimento da população, o mundo precisa ser alimentado, e a produção de proteína animal precisa vir de algum lugar. André acredita que esse lugar é o Brasil. “Temos a sólida noção da posição de nosso país como ‘celeiro’ do mundo. Segundo projeções da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), ao longo das próximas quatro décadas, a população mundial vai aumentar em dois bilhões de pessoas, ultrapassando nove bilhões de pessoas até 2050. Para atender a demanda projetada, a produção agrícola global terá que aumentar 60% em relação aos níveis de 2005/2007. Para isso, precisaremos de aumento de produtividade da proteína animal”, explana. 
Nesse cenário, o cruzamento industrial com o Brahman tem dado resultados. O veterinário e pecuarista afirma que o Brahman é a “raça de ciclo curto”, tornando viável o uso da monta natural em países tropicais. “No caso do Brasil, lembramos que pouco mais de 10% das matrizes brasileiras emprenham através de Inseminação Artificial, incluindo aí as raças leiteiras. Portanto, o touro Brahman é uma ferramenta essencial para o aumento da produtividade de proteína vermelha”, afiança. 
Além da raça, André também acredita no potencial nato do Brasil para crescer em produtividade e potencial futuro. “O brasileiro tem o dom e a capacidade de desenvolver o melhoramento genético, seja com vegetais ou com animais das mais variadas espécies. Temos o melhor rebanho de gado zebuíno do mundo, ferramenta essencial para produção de leite e carne nos trópicos”, finaliza.