Publicado em: Pecuária

Nas últimas décadas o bem-estar animal entrou para a lista de preocupações de produtores, pesquisadores e consumidores. A qualidade de vida do rebanho exige tratamento humanitário, empenho e investimentos. Porém, o pecuarista já percebeu que boi bem cuidado dá menos trabalho no curral, que reduz seu custo, produz mais carne com mais qualidade, o que aumenta o lucro. Por isso, práticas como o uso de ferrão no manejo e superlotação de baias se tornaram menos frequentes nas fazendas, assim como instalações rurais planejadas, sombreamento de pastagens e dieta nutricional personalizada passam a ser mais comuns. 
Mas esses cuidados vão muito além quando o assunto são animais selecionados, de alto valor genético, aqueles chamados de elite da raça. Açoitar com ferrão uma matriz Nelore campeã nacional poderia facilmente ser considerado loucura. Isso porque o usual é tratar esses animais como o que eles de fato são: valiosos tesouros. Como pedras de diamante, o Nelore de elite também precisa ser lapidado, polido e muito bem cuidado. É um investimento que custa caro, mas o retorno é garantido.
Nas baias da ExpoZebu, por exemplo, não é difícil encontrar animais que valem mais do que carros importados. Durante a última edição da maior feira de zebuínos do mundo, promovida entre os dias 3 e 10 de maio, em Uberaba (MG), foram 34 leilões com faturamento total de R$46,4 milhões. O animal mais valorizado foi a novilha de 18 meses da raça Nelore: Predileta da Santarém, filha de Basco de Naviraí em Grandiosa 9 de Marathaí, vendida em 50% de sua posse para o nelorista Jaime Pinheiro por R$ 1,1 milhão, no Leilão Elo da Raça.
Só que, antes de chegar à martelada final milionária, existe muito trabalho e investimento. O Leilão Guadalupe & EAO está há oito anos na agenda dos maiores investidores do país, consagrado por ofertar genética Nelore de qualidade. A edição desse ano aconteceu no primeiro final de semana de agosto, na Fazenda Guadalupe, em Santo Antônio do Aracanguá, interior de São Paulo. Foram quatro dias, de 31 de julho a 3 de agosto, e muitos negócios fechados. Segundo a leiloeira Programa Leilões, o faturamento total foi de R$8,4 milhões. Um crescimento de 31% em relação à última edição. 
A noite de sexta-feira foi agitada com o primeiro remate, mas antes do sábado raiar a equipe da Fazenda Guadalupe já estava acordada para preparar os animais para o segundo leilão, que aconteceria na ensolarada tarde daquele 1º de agosto. O time de pista e matrizes consagradas dos promotores seria colocado no palco para ofertar suas prenhezes. Precisavam estar deslumbrantes. 
Os animais foram acordados antes de o sol nascer para se alimentarem, e às 5h30 o banho já tinha começado. O melhor shampoo em abundância deixa as estrelas do leilão ensaboadas, e depois são enxaguadas e secas com carinho pela equipe. O pelo fica ainda mais branco e brilhante, podendo ser comparado a mais fina seda. Os cascos e chifres são lixados e polidos. Quando os embelezamentos terminam, o sol já vai alto e os grandes exemplares da raça Nelore são conduzidos para baias grandes, confortáveis e limpíssimas. Ali ficam expostos, como joias em vitrines, para os seus futuros compradores, que não tardam a chegarem para o remate.
Renato Vicente de Assis é quem coordena todo esse trabalho. Ele é gerente do gado da Guadalupe há 16 anos. Responsável pela apresentação do rebanho, Renato reconhece os animais de longe, conhece até o jeito de andar de cada um. Ele conta que assim que um bezerro especial nasce, já recebe tratamento diferenciado. Especial é aquele bezerro que vem de uma genealogia consagrada, que tem potencial certeiro para se tornar um campeão.
“Já temos um olho pra saber qual é o diferente, se vai pra pista ou não. Se for bom, a gente fecha ele em um tratamento especial. Ração da melhor, doma pra amansar devagarzinho, pra não estressar o animal. Alimento só concentrado, ração granulada, feno com silagem de milho. O manejo é feito com todo carinho, escovamos, damos banho. Para eles ficarem mansos e se apresentarem bem, o segredo é amansar e treinar todo dia na fazenda. Tem que ter paciência, puxar o animal, ensinar a parar”, lista Renato. 

Cuidados para estrelas
Para as exposições onde o gado compete em pistas de julgamento, o trabalho é redobrado. Os caminhões de transporte até o local da feira são especiais, e o gado vai com folga para não estressar. A cada hora e meia de estrada rodada, o motorista e a equipe param para checar se está tudo certo. Já na exposição, os tratadores cuidam dos animais 24h por dia, olhando para que eles tenham conforto e tranquilidade. 
O gerente da Fazenda Guadalupe está acostumado com esse tratamento personalizado para grandes estrelas. Cuidou da consagrada matriz Essência TE da Guadalupe desde que ela tinha dez meses, e acompanhou cada conquista da vaca premiada. “Durante as exposições a gente nem dorme direito. Quando o alojamento é longe das baias, acordo duas ou três vezes durante a madrugada para ir até lá ver se está tudo bem, senão não fico tranquilo”, conta Renato. 
Se no cotidiano da fazenda o banho é dado até quatro vezes por semana, nas exposições ele é diário. “Não fica barato. Ração cara, remédio, vitamina, tratamento, equipe. O shampoo, por exemplo, só usamos o Sweet Friend, que é o melhor do mercado. No fim das contas, o gasto é elevado, mas vale a pena o investimento. Dá resultado”, garante Renato. 
O shampoo é o Gado Branco Exposição, que possui formulação cuidadosamente balanceada e custa, em média, R$ 0,25 o litro, pronto para uso. A empresa que produz e distribui o produto, a Sweet Friend Dermatologia Veterinária, fica localizada na cidade de Indaiatuba, interior de São Paulo. Dispõe de um sofisticado conjunto de laboratórios para pesquisa, desenvolvimento e controle de qualidade, onde só utiliza matérias primas dentro dos mais rígidos padrões. O objetivo da empresa é garantir com qualidade a saúde, beleza e bem-estar dos animais.
“Nosso shampoo possui alto poder espumante, de limpeza e rendimento, remove as manchas causadas pela cama e realça a pelagem branca sem agredir a pele do animal, proporcionando a melhor relação custo/benefício do mercado”, explica o diretor da marca, Maurício Pellegrino. 

Bem-estar 
A Beckhauser, empresa fabricante de troncos e balanças sediada em Paranavaí (PR), atua há 37 anos na área e tem como compromisso a contribuição para o desenvolvimento da pecuária de qualidade, preocupada com o bem-estar do animal e do ser humano. Renato dos Santos, médico veterinário com mais de 30 anos de atuação no campo, responsável pela área de manejo racional da empresa, entende que quando o assunto é bem-estar animal, existem algumas premissas mínimas que devem ser seguidas em um ciclo pecuário moderno e eficiente. 
“O bem-estar animal é pautado no respeito a três características de todos os bovinos: a fisiológica, de comportamento e de necessidades básicas. Em primeiro lugar, a fisiologia do bovino é diferente da humana: o bovino é poligástrico, ou seja, têm quatro estômagos, por isso, ele precisa de uma dieta personalizada para espécie dele. O comportamento natural também merece respeito: o animal precisa da liberdade de seguir seu relógio biológico para acordar e comer quando sentir necessidade e, assim, desenvolver ao máximo seu potencial. E, por fim, o terceiro elemento do tripé do bem-estar animal é o respeito às necessidades básicas: o animal precisa ter acesso à comida e água suficientes para sua nutrição”, explica Renato. 

 

Renato Assis, gerente de gado da Fazenda Guadalupe 

Só que quando o assunto é Nelore de elite, os cuidados podem ir além. Renato conta que, geralmente, os pecuaristas que selecionam a raça são mais conscientes em relação aos benefícios que o bem-estar proporciona ao animal e aos negócios. Porém, alerta para o risco de superalimentação em bovinos “bem tratados demais”. “Em alguns criatórios, a alimentação é intensiva demais, e isso também é desrespeito ao animal. Causa um peso exagerado, que prejudica os cascos, articulações, e deixa o animal com dificuldade de andar. A alimentação deve ser para expor o potencial genético do animal, e não para sobrecarrega-lo de peso”. 


O nelorista João Aguiar Alvarez cuida para não cometer esse erro. De família agropecuarista, João seleciona Nelore há 22 anos na Fazenda Valônia. Situada entre os municípios de Lins e Cafelândia, em São Paulo, a fazenda tem uma área 1.674 hectares, com estrutura para a criação do gado com pastos, piquetes, baias e currais apropriados. Por lá, já passaram campeões como Rufo FIV da Valônia, que foi Grande Campeão em Fernandópolis, Reservado Grande Campeão Nacional na Expoinel e recorde de preço do Leilão Elo de Raça 2011, quando teve 50% de sua propriedade vendida.
“A dieta do rebanho é balanceada justamente para os animais não engordarem demais. Eles precisam ficar no peso ideal para ter o alto desempenho que esperamos deles. Nossas matrizes fazem aspiração uma vez por mês com ótimos resultados, precisam estar em forma”. 
Na Fazenda Valônia, bem-estar animal está relacionado a manejo de excelência. “Manejo é uma consequência do trabalho de todo mundo que está envolvido no dia-a-dia da fazenda. Toda equipe está envolvida em uma engrenagem construída ao longo de muito tempo de trabalho. Com o costume, o manejo que é diferenciado vira rotina. O segredo é ser detalhista, caprichoso, prezar por uma boa equipe com profissionais qualificados. Sempre lembrando que seleção de Nelore é uma coisa que se faz pensando no resultado lá na frente, em longo prazo”.

Rotina de um campeão 
O Grupo Camargo entrou para seleção do Nelore de genética em 1971, através da Fazenda Morro Vermelho, em Jaú (SP). Lá ficam os melhores animais, e o manejo acompanha as necessidades do rebanho. São 180 matrizes puras tratadas como um projeto. Cada uma delas, do nascimento até a pista, são cuidadas e ensinadas para serem campeãs. “O cuidado do dia-a-dia é essencial. Prestamos atenção em cada detalhe: o tratador que cuida, o banho, o trato para amansar, fazer apresentar”, conta o diretor do Grupo, Luiz Antônio Felippe.
A AgroZurita também participa do disputado mercado de elite do Nelore. Fundada por Ivan Fábio Zurita na década de 1990, hoje atua em dez diferentes segmentos do agronegócio, tendo no gado de corte duas mil cabeças de Nelore elite e Simental de linhagem sul-africana. Primeira atividade do Grupo AgroZurita, o segmento pecuário ocupa, hoje, 770 hectares em municípios dos estados de São Paulo e Minas Gerais. A empresa promove grandes leilões desde 2003, além de marcar presença nas principais mostras agropecuárias do país, e sabe da importância de um manejo diferenciado.  
Edvaldo Ribeiro é o gerente do gado da marca, e há 16 anos aparta os melhores animais para um manejo diferenciado. “As bezerras que são apostas pelo seu potencial recebem tratamento diferente desde o nascimento. Comem o melhor tipo de ração que existe, de primeira linha, e são cuidadas por uma equipe especial para elas. O manejo é diferenciado. Existe todo um cuidado na hora de colocar pra mamar, colocar o cabresto, até shampoo especial para branquear e deixar o pelo parecendo uma seda. São tratadas desde novas como uma Grande Campeã Nacional”, conta.
A rotina dos campeões consiste em acordar junto com o sol raiando, receber alimentação equilibrada e depois tomar banho de sol. Durante a tarde, pastam e passeiam pelos piquetes com os tratadores pacientemente empenhados em ensinar para eles como parar na pose certa. Recebem visita semanal do veterinário, que examina e mede o desempenho crescente de cada um. É uma rotina de manejo que muda de fazenda para fazenda, mas o objetivo em comum é estrutura-la de maneira que o animal tenha qualidade de vida e condições mais que ideais para desenvolver todo seu potencial.