Publicado em: Pecuária

A história de um dos projetos agropecuários mais bem conceituados do Brasil começou há mais de 70 anos, pelas mãos de José Coelho Vitor. Aos oito anos, ele aprendeu a tirar leite e cuidar do gado na fazenda do pai, e hoje, aos 83, maestra suas propriedades, todas comandadas por seus cinco filhos. O Grupo Cabo Verde é uma empresa familiar, que desenvolve, de maneira integrada, as atividades de suinocultura, cafeicultura, agricultura de milho e soja, pecuária de leite e de corte, todas em unidades de produção em Minas Gerais e no Pará. Com mais de sete décadas de atuação, é reconhecido pelo pioneirismo e arrojo, tendo sempre foco na aplicação de tecnologias sustentáveis, produzindo com eficiência, racionalidade dos recursos naturais e em equilíbrio com o meio ambiente.

A pecuária leiteira é a atividade mais antiga da família. Quando o assunto é leite, o grupo tem dois locais sagrados: a Fazenda São José do Can Can, onde fica a seleção de genética Gir Leiteiro, e a Fazenda Santa Luzia, onde se concentra o rebanho Girolando, que produz quase 30 mil litros de leite diariamente. Foi na segunda que aconteceu o mais recente investimento inovador do grupo. Comandada por Maurício Coelho, a Fazenda Santa Luzia fica em Passos, no interior de Minas Gerais, cidade natal do fundador do grupo.
Maurício implantou na propriedade a primeira ordenha carrossel projetada exclusivamente para animais Girolando - raça que representa a maior parte da produção leiteira nacional.  É a primeira vez no mundo que uma tecnologia do tipo é usada em gado mestiço. Um projeto inovador, no qual a tecnologia possibilita a exploração da atividade leiteira de maneira eficiente do ponto de vista econômico, social e ambiental. O novo projeto reúne as mais avançadas tecnologias, que interligam conceitos de racionalidade na mão de obra, produtividade, qualidade do leite e sustentabilidade. “É muita tecnologia para tornar a operação da produção de leite simples”, comenta Maurício.
Financiado pelas linhas de crédito dos programas do Governo Federal Inovagro e Agricultura de Baixo Carbono (ABC), e contando com tecnologia DeLaval, o projeto foi executado em menos de um ano. O investimento foi da ordem de R$ 5 mil por cabeça que, somados aos investimentos em infraestrutura, chegaram aos R$ 4 milhões. Mas a expectativa de retorno é boa, de quatro a cinco anos. Logo após ser colocado em funcionamento, já se observa que o sistema economiza em mão de obra, custo alimentar e tempo, além de ser altamente sustentável.

Estrutura
A Fazenda Santa Luzia possui 900 hectares (ha), boa parte destinada ao rebanho leiteiro. Neste processo de intensificação recente, a fazenda está implantando 200 ha de irrigação em três sistema: dois de pivôs centrais e uma área de 80 ha irrigada por malha, para manter seu rebanho basicamente a campo. Para a primeira fase foram escolhidos 65 ha irrigados por pivô central, e construído no centro a nova estrutura de ordenha, que já contemplava 500 vacas em lactação. Até o final do ano serão 700. Os outros 80 ha irrigados por malha serão destinados às mais de mil vacas que a Santa Luzia já ordenhava anteriormente. Outros 62 ha, também de pivô central, estão reservados para uma possível segunda etapa de crescimento.
Toda automatizada, a estrutura tem capacidade para ordenhar de 200 a 240 animais por hora. Duas vezes por dia, o rebanho é conduzido para uma sala coberta que conta com um sistema de refrescamento, onde aguardam tranquilamente pela ordenha. Ao entrar no carrossel, com capacidade de 40 animais, a vaca passa pelo sensor que faz a identificação do animal e o posto que ela ocupou. O software de gestão, DelPro, faz todo o gerenciamento das informações e ordenha, e pela produção de leite semanal da vaca, coloca a quantidade de concentrado destinada a ela, de forma individual e de acordo com sua produção. O sistema conta ainda com portão automático de separação dos animais integrado com um moderno centro de manejo e limpeza automática, todos comandados pelo software e gestão da DeLaval. 
O objetivo é ordenhar mais em menos tempo. Por isso, a estrutura foi pensada para acomodar confortavelmente os animais. Os gabinetes encorajam as vacas a entrar rapidamente na plataforma, da mesma forma que facilita sua saída, uma vez que estão no mesmo nível da sala de espera. Dessa forma, os ordenadores trabalham mais confortavelmente, pois o piso fica no ângulo de visão do úbere da vaca. A ordenha é rápida e sobra tempo para outras atividades. O sistema está planejado para trabalhar com quatro funcionários e um de folga. 
A média diária de produção por vaca é de 18 kg/dia, mas a meta é chegar aos 20 kg. Ocitocina e bezerro ao pé na hora da ordenha são duas coisas que não passam nem perto da Fazenda Santa Luzia nessa nova fase. A opção pela produção de leite a pasto e o sistema de ordenha carrossel possibilitaram a redução do custo e otimização da produção, como aponta Maurício. “Desenhamos a exploração com irrigação, pois uma de nossas fragilidades é a variação climática, que hoje é muito acentuada. Temos o pasto, mas se não há chuvas não temos alimento. Decidimos, então, por ter mais segurança e garantir os custos de produção”.
O projeto ainda se destaca pela sustentabilidade. Todos os dejetos gerados pela atividade (não só do novo projeto, mas de toda fazenda) são processados e reutilizados na irrigação das pastagens através dos pivôs, o que garante autossuficiência na adubação. O gás metano produzido pelo processamento dos resíduos alimenta um motor de biogás acoplado a um gerador que supre boa parte da demanda de energia elétrica. A fazenda tem, ainda, potencial para ser autossuficiente energeticamente, bastando apenas investir em geradores maiores. Há também reaproveitamento da água da chuva que é captada e utilizada para limpeza das instalações e refrescamento das vacas antes da ordenha. Tudo isto confere alta sustentabilidade ao sistema.

Produção em dobro
A raça Girolando se adaptou muito bem ao sistema. “Nosso rebanho é formado pela genética que vem sendo selecionada pelo meu pai, que preconiza produtividade e a mansidão dos animais. O rebanho já tem essa característica dócil, e aqui eles são manejados desde bezerros dentro das técnicas de bem-estar animal, e quando adulto passam pela ‘Escolinha de Doma’, outra inovação da Santa Luzia. Assim, adaptar os animais ao sistema foi a parte mais fácil”, conta Maurício. Agora, com rebanho, equipe e estrutura prontos e adaptados, o objetivo é dobrar a produção.
“Atualmente, estamos produzindo 28 mil litros diários com 1,5 mil vacas em lactação, sendo que no projeto novo estamos com 500, mas devemos chegar a 700 até o final do ano, estabilizando a produção em 30 mil litros/dia. Uma segunda etapa do projeto está em estudo, com previsão de implantação para 2018, contemplando mais uma sala de ordenha carrossel e alojamento de mais 700 vacas, numa área de 62 ha irrigados por pivô central (já em funcionamento), chegando a 2,5 mil vacas em lactação, o que nos permitirá atingir a produção média de 40 a 45 mil litros/dia”, descreve.