Publicado em: Pecuária

Por Natália Escobar
Colaboração Scot Consultoria e Mecânica de Comunicação
Fotos Scot Consultoria e Divulgação

 

Todos os dias o consumidor brasileiro que liga o telejornal é bombardeado com notícias sobre uma crise econômica e política que parece interminável. O clima de tensão que emana de Brasília chega a todos os cantos do país, e o cenário de incertezas faz a população consumir menos. É uma composição que necessita de urgente resolução, mas o que se vê no agronegócio brasileiro é um pouco diferente. É que pecuaristas do país inteiro, diariamente, desligam a televisão e arregaçam as mangas para trabalhar por um país melhor. 

“Essa é uma realidade que temos que enfrentar: passamos por um momento difícil. O melhor que eu consigo enxergar para o ano que vem é mais do mesmo. Na melhor das hipóteses, a economia começará a ver um cenário de reajuste. Porém, o agronegócio brasileiro não tem quem pegue. Só segurando para não fazer o gol. Vai continuar tendo a pujança que tem, mas nós vamos ter que trabalhar para mudar esse cenário econômico. E vai ser o agronegócio que tirará o Brasil dessa situação”, coloca Décio Zylbersztajn, professor e Engenheiro Agrônomo da Universidade de São Paulo (USP). 
Uma das áreas que mais conseguiu manter a força dentro da pecuária foi o segmento de seleção genética e mercado de elite. Enquanto alguns choravam a crise, selecionadores e investidores da alta pecuária apostaram grande e tiveram retorno. Em novembro, o Grupo Camargo alcançou a maior receita da história de leilões virtuais. Foram comercializados 84 lotes de touros e matrizes de elite a campo, com um faturamento total de quase R$ 4,3 milhões. E esse é só um exemplo. 
A Agropecuária Jacarezinho, propriedade de Marcos Molina, promoveu, em 23 de novembro, um remate que faturou R$ 2,1 milhões com a venda online de novilhas, prenhezes e embriões. No mesmo dia, Leandro de Aguiar levou à tela do Canal Rural 50 matrizes leiteiras selecionadas em Ibiá (MG), no Leilão Virtual Elite Gir do Engenho. A matriz Jesebel FIV Silvânia, Gir Leiteiro de 82 meses, foi vendida por R$ 42 mil para seleção Gir Polônia, um preço acima da média nacional.
Os exemplos se multiplicam. Jaime Pinheiro, um dos novos e promissores nomes da pista do Nelore, teve o terceiro maior preço médio registrado em todo ano nos leilões bovinos, de acordo com o Portal DBO. Foi no segundo dia do Leilão Vila dos Pinheiros, que arrecadou 4,8 milhões, uma na média geral de R$ 307,5 mil. Setores segmentados da pecuária de genética também crescem em meio à crise. 
Para Nelson Ziehlsdorff, diretor-presidente do Grupo Semex – uma das mais conceituadas empresas de genética bovina do país – o mercado é promissor, mas precisa ser melhor conscientizado. “Há muito para ser explorado. É um segmento que deve continuar crescendo, até porque, nos últimos 12 anos têm registrado 5% de aumento a cada ano. Nós, da Semex Brasil, temos expectativas de crescer em torno de 15% em 2016. Em 2015, devemos fechar o ano com crescimento de aproximadamente 10% comparado ao ano passado”, afirma. 
A Semex Brasil é a distribuidora exclusiva da multi-canadense Semex Alliance. Em 2015, o faturamento mundial da Semex Alliance será de 130 milhões de dólares e possui 13 touros que já venderam mais de um milhão de doses cada um.

Crise e pecuária 
Projeções do diretor da Scot Consultoria, Alcides Torres, com base nas cotações praticadas nos últimos pregões da BM&F Bovespa, avaliam que o preço do boi gordo deve subir de 3% a 4% até o final do ano. Seguindo os cálculos do especialista e considerando a arroba do boi gordo valendo R$138 em Mato Grosso do Sul - segundo informações do Departamento de Economia da Federação da Agricultura e Pecuária de MS (Famasul) – arroba do boi gordo pode encerrar o ano em aproximadamente R$ 143,5. O mercado deve se manter positivo nos próximos 14 meses, de acordo com as perspectivas dele. 
Em relação à atual conjuntura econômica vivida no país, Alcides não é otimista para o curto prazo. “A crise vai além de 2016, principalmente, porque temos problemas com a falta de credibilidade violenta em relação ao atual governo. A crise moral é maior que a econômica. O pessimismo deixa o consumo comedido”, avalia. 
Sobre a crise econômica e política, o paulistano que comanda a Sparta Fundos, criada em 2005 e com histórico de rendimentos multiplicados, Victor Abou Nehmi Filho acredita que é necessário manter o otimismo. “O que esta acontecendo é doloroso, mas é bom, e finalmente esta acontecendo. É um passo que o Brasil precisa dar para se tornar mais sério. O agronegócio brasileiro é o setor mais competitivo. Nós vamos pagar a conta, mas vamos fazer isso ganhando dinheiro. Recomendo otimismo porque o setor ganha em uma situação dessa”, garante.  
A Dow AgroSciences, com sede em Indianápolis, Indiana, nos Estados Unidos, desenvolve soluções inovadoras para a proteção de cultivos e biotecnologia de plantas para atender aos desafios de um mundo em crescimento. A empresa é uma subsidiária em caráter integral da The Dow Chemical Company e obteve um volume de vendas global de US$ 7,3 bilhões em 2014. Felipe Daltro, gerente de Marketing de pastagem da Dow, acredita que o Brasil vai ser sempre um país para bons investimentos no setor agropecuário. 
 “Em 2016, o preço do boi vai variar acima da inflação, o que configura um cenário positivo e uma possibilidade de melhorar ainda mais a relação de troca no mercado. Assim, acreditamos que o pecuarista brasileiro vai poder investir mais no próximo ano. O grande entrave é que o pecuarista usa, em média, 30% das tecnologias disponíveis no mercado. O agricultor usa 80%. Apostamos que, quão mais o nível tecnológico das fazendas, maior será o retorno do produtor. Dessa maneira, o Brasil terá a força necessária para superar o próximo ano com otimismo e continuar alimentando o mundo”, explica. 
“Apesar das dificuldades, lembro a todos que mar calmo nunca fez bom marinheiro, e falta de informação também nunca fez bom pecuarista. Porém, o mar não estará revolto. Arrisco até dizer que as ondas serão fracas”, finaliza o diretor da Scot Consultoria, Alcides.

Agronegócio brasileiro
O presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Luiz Carlos Corrêa Carvalho, encerrou o Fórum Protagonismo do Agronegócio Brasileiro, em Porto Alegre, destacando a importância estratégica do agronegócio. “Buscamos manter a lógica de aliar competência com produtividade”, observou, lembrando que o agronegócio brasileiro responde atualmente por 24% do PIB nacional, por 40% das exportações e por 30% dos empregos do país. 
Luiz Carlos mirou no futuro e projetou mais crescimento em função da mudança do padrão de consumo e crescimento da população interna e mundial.  “A produção de alimentos deve crescer 80% nos próximos anos. E o Brasil será o maior protagonismo global”, opina. 
Essa liderança deve acontecer em paralelo com a expansão da oferta com sustentabilidade e integração das cadeias, e também com a aposta em uma estrutura logística competitiva e sistêmica que inclua todos os modais de transporte. Em tempos de crise, o presidente da entidade ainda falou sobre as preocupações do setor que surgem com o desequilíbrio econômico. “Precisamos de reformas de Estado, da previdência e da política no Brasil”, destacou.