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O que é ser eficiente em pecuária de corte hoje?

   Em tempos de pandemia do Covid-19, o novo e agressivo coronavírus, o mundo vive um momento sem precedentes para a atual geração da humanidade. Riscos de mortes em massa, crises financeiras mundiais eminentes e possibilidade de limitação no abastecimento geral da população assombram todo o globo. Em todos os setores da humanidade é momento de questionamentos e transformações, adaptações e novas diretrizes. Após uma situação tão atípica e grave como esta, sem dúvida o planeta nunca mais será o mesmo.

É assim também na pecuária. Há momentos onde mudanças são necessárias no sentido de adaptar os negócios à realidade das situações específicas de cada um. Os objetivos mudam e a necessidade se transforma em realizações para melhores resultados financeiros. A palavra de ordem da pecuária de corte atual é eficiência. Sim, caros amigos, hoje para trabalharmos com pecuária de corte, em qualquer nível, de uma ponta a outra da cadeia, é necessário ter eficiência. Isso porque, as margens dos pecuaristas em geral estão extremamente apertadas, ainda que os preços do boi gordo tenham reagido desde o segundo semestre de 2019. Nós sabemos que a pecuária de corte é cíclica, e quem não tem eficiência em todos os períodos deste ciclo, está fadado a deixar a atividade.

Em termos gerais, o que seria eficiência? Tem várias formas e vários parâmetros para se medir isso. Lotação (UA/ha), margem de compra/venda, uso de estratégias de manejo nutricional, quantidade de arrobas produzidas por hectare... São muitos, e cada pecuarista tem seu parâmetro ou parâmetros preferidos. Mas, se tivermos que definir de uma só maneira, em termos gerais, ser eficiente em pecuária de corte hoje seria: produzir uma determinada quantidade de arrobas num determinado espaço de tempo numa determinada área com um determinado “input” de recursos e insumos e obter a maior margem de lucro possível. Perdeu o fôlego? Realmente fica difícil até de ler em voz alta, mas esse é apenas um pequeno resumo dos fatores que influenciam a eficiência de produção de carne.

O mais interessante é saber equilibrar esses fatores gerais dentro do sistema de produção. Porque as variáveis são inúmeras e os processos se interligam mutuamente. É muito complexo atingir isso. Mas ao final, o que acontece é que nem sempre o mais rápido é o mais eficiente. Nem sempre o menos oneroso é o mais eficiente. Nem sempre o mais numeroso é o mais eficiente. E assim por diante. Entende a complexidade disso? Então podemos dizer que nem sempre os extremos são os mais eficientes. Esse é um fator fundamental em seleções de plantéis PO e também em unidades produtoras de animais para o abate. No final o que realmente pesa é o bolso do pecuarista. Ele sim tem que pesar. Não necessariamente o animal mais pesado traz a ele a maior margem de lucro, especialmente porque a sua fazenda não é exatamente igual a de ninguém.

Ela pode ser limitada em recursos e não ter condições de produzir um animal extremamente pesado. Mesmo com genética. E esse é só um exemplo do que pode acontecer. O recado então é o seguinte: planejar e dimensionar um sistema de produção de gado de corte é tarefa complexa por si só, inserir a fundamental eficiência produtiva então, demanda muito mais conhecimento e mais bom senso na escolha de estratégias. As estratégias são muitas: qual manejo nutricional (variáveis como clima, solo, espaço, disponibilidade de concentrado para dietas intensivas, dentre outras)? Qual ciclo? Qual nível de investimento? E por fim, qual material genético?

Dada essa grande complexidade e variações ambientais, vem a discussão sobre os materiais genéticos disponíveis. É de fundamental importância que o pecuarista, seja ele selecionador, criador ou terminador, entenda quais genéticas podem responder de forma mais eficiente no seu sistema de produção. Se a palavra de ordem é a eficiência, é bom conhecer quais genéticas já demonstraram que atingem os níveis precisos de eficiência. Quais delas já tiveram resultados práticos no rebanho de corte brasileiro? Quais têm direta aplicabilidade no gado comercial? Aí vem novamente o que temos levantado nas discussões: quanto mais informações e ferramentas de seleção utilizarmos, melhor vamos decidir. Avaliações genéticas, genômica, eficiência alimentar, ultrassonografia, abates técnicos, avaliações visuais, certificações em geral. Cada uma dessas ferramentas tem sua participação para o melhoramento real do rebanho de corte nacional. Cada uma delas pode ser eleita como a que mais se adequa para um determinado objetivo de uma fazenda. Se tem uma coisa que não existe na pecuária de corte é a solução mágica. Nenhuma informação isolada pode definir qual genética usar. Toda informação deve vir pautada e acompanhada da sua aplicabilidade, inclusive financeira, do senso crítico do pecuarista e do seu técnico, e deve ser usada com sabedoria. E lembrem-se: extremos chamam a atenção, mas o equilíbrio é fundamental. Nada é proibido e ninguém é dono da verdade. Até porque cada um vive uma situação diferente na sua fazenda. E hoje, a melhor decisão é a decisão equilibrada, pautada em eficiência.

 

Carlos Alberto Marino Filho
Assessor Pecuário
camarinof@gmail.com