Publicado em: Pecuária

Como a inovação tecnológica mudou o perfil da agropecuária brasileira

*por Monica Cussi

A tecnologia ultrapassa todas a fronteiras sem pedir licença, inclusive a da cidade com o campo. Ela veio para ficar até mesmo nas pequenas propriedades, onde a palavra de ordem é estar atento às novidades e à qualificação profissional.

É com essa visão de futuro, que há algum tempo, o nelorista e ex-diretor da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), Aprígio Lopes Xavier, foi o precursor do registro de animais na entidade. “Antigamente, o gado tinha dois números, um certificado de nascimento e o registro definitivo. Então, meu filho, que é especialista em informática, me ajudou a fazer um sistema óbvio, o registro de identificação único, que funciona igual ao de um automóvel, com letras básicas. Os meus eram ALX, de um a cem mil.” E, assim se dava início ao que é hoje o Ranking Nacional.

Para ele, homenageado na Nelore Fest 2013 pelos vinte anos de criação do ranking, esta iniciativa mudou e facilitou o trabalho com o rebanho brasileiro. “Passamos a dar nota e números aos animais. Não é opinião de ninguém é objetivar o subjetivo”, diz.

Na época, Aprígio conta que a proposta da ABCZ era de trocar uma máquina antiga por outra antiga, com um valor alto de investimento. E como ele sempre se identificou com a informática, achou que poderia contribuir mais. Usou apenas 10% do dinheiro disponibilizado, em três computadores, que dariam início à nova era para a pecuária brasileira. “A tecnologia contribui loucamente para o desenvolvimento de um país. Não temos como retroceder mais. A subjetividade leva a cada indivíduo a escolher o que é bom e ruim. A objetividade não. Quando você informatiza o seu plantel e compara com números e dados consegue andar para frente concretamente”, finaliza.

Tecnologia é estratégia e as inovações já chegaram para o homem do campo. É impossível pensar na agropecuária sem contabilizar resultados e desempenho do trabalho. E isso inclui organização das informações, orientações administrativas e programas sérios de gestão.

Segundo Eduardo Milani, superintendente de Tecnologia da Informação da ABCZ, até 2002, a relação dos pecuaristas com a tecnologia era bem tímida, sendo que as comunicações eletrônicas variavam em torno de 25%.

Neste período, a maioria se limitava somente a preencher um documento (cobertura, nascimento, transferência, morte e peso). Não existia a preocupação em reverter dados para informações efetivas. “Entretanto, em 2003, a diminuição dos preços dos computadores e a cobertura do acesso à internet pelo território nacional facilitaram este trabalho. Com isso, hoje chegamos a 95% dos procedimentos feitos de forma eletrônica, o que abriu o apetite dos criadores para trabalhar com os dados e, também, agregar valor ao seu negócio, exigindo inúmeras ferramentas para a decisão gerencial”, relata Milani. Para ele, a prova é o Programa de Melhoramento Genético Zebuíno (PMGZ), que reflete este perfil moderno e profissional ao criador, que além dos objetivos econômicos, busca a qualidade dos animais.

No site da ABCZ, por exemplo, além de fazer todos os procedimentos online, o criador pode consultar todos os dados referentes a cada animal, entre outros. A associação também disponibiliza ferramentas que auxiliam na informatização rural. 

Frederico Cunha Mendes, médico veterinário, da Seleção VR-JO, conta que usa o sistema Procan há cinco anos e inseriu o Produz no ano passado, ambos da ABCZ. “Os dois são de gerenciamento da fazenda. Com o Produz nós sentimos uma diferença bem grande no nosso negócio. Ele está mais ágil, mais eficiente. Ele se relaciona à parte reprodutiva, controle das vacas inseminadas e cobertas, previsão de parto e, também, à parte escriturária, quando os animais estão prontos para serem controlados, enfim, é um programa bastante completo”, diz.

E uma das vantagens é que o programa tem interface com PMGZ e consegue prever, através dos acasalamentos, se o rebanho tem determinadas tendências genéticas, se está caminhando para as características vistas como importantes. “Informação é tudo hoje em qualquer negócio e elas têm que estar disponíveis para fazer o trabalho com eficiência”, completa

Eduardo Milani informa ainda que, na ABCZ, existem duas equipes focadas neste trabalho. A primeira trata diretamente com o desenvolvimento de sistemas, com o objetivo de integrar as regras de negócio dentro do software.  A segunda atende diretamente aos usuários, dando suporte, sanando as dificuldades e promovendo o uso da ferramenta de forma efetiva.

Eficiência com tecnologia

Os avanços que discutimos aqui nesta reportagem não ficam apenas no âmbito da gestão. A empresa Alltech, por exemplo, fatura em torno de 700 milhões de dólares em todo o mundo e a América Latina é responsável por 38% do faturamento global, somente no segmento de nutrição animal. A empresa comemorou 20 anos no Brasil e de acordo com Clodys Menacho, diretor comercial, o ano passado foi desafiante. “Temos estratégias para desenvolver e produzir novas tecnologias que possam otimizar este rendimento e nossa produtividade. Uma de nossas apostas é a alga, nova matéria-prima para o mercado, que promete conquistar bons negócios”, ressalta Clodys. Em média, de 7% a 10% do faturamento mundial/ano são investidos em pesquisa na área de nutrição para o desenvolvimento de soluções naturais inovadoras. A empresa tem focado em nutrigenômica, algas e soluções diretas ao consumidor final.

Existe também inovação na eficiência alimentar, e um dos sistemas mais utilizados entre os pecuaristas é o GrowSafe. Egleu Mendes, analista do Núcleo de Apoio a Programação (NAP) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Pantanal), explica: “animais com similares desempenhos podem chegar a 20% de diferença no consumo de alimentos. Dentro dessa perspectiva, o programa entra como uma tecnologia de ponta para avaliar a eficiência individual dos animais.”

Com ele, é possível avaliar, durante 24 horas, todo o consumo animal e até a quantidade de comida ingerida pelo boi que é transformada em carne, bem como o tempo em que ele ficou no cocho. Existem diversas aplicações para os dados gerados pelo equipamento e uma das mais recentes é o Consumo Alimentar Residual (CAR). O GrowSafe é utilizado em vários países além do Brasil, nos EUA, no Canadá (país de origem), na Austrália, na Finlândia, no México, no Reino Unido e no Uruguai. O analista da Embrapa lembra que também existem outros sistemas que utilizam tecnologia para medir consumo individual de alimento para animais.

Produzindo uma média de três mil bezerros por ano, com um manejo responsável e acima de tudo investindo em tecnologias e ferramentas que elevam a qualidade da produção, a Fazenda 3R (MS), conquistou no fim do ano passado, o título de melhor produtor de bezerros Nelore de corte do país, onde disputou com outras 14 propriedades brasileiras pelo prêmio BeefPoint Brasil 2013.

“A gratificação maior é poder contar com uma equipe que preza pelo resultado. Tudo que fazemos dentro da fazenda é pensando em obter sempre o máximo, buscando difundir as tecnologias que melhoram a nossa vida, e a qualidade de tudo que o nosso país produz, contribuindo assim com o desenvolvimento de toda a pecuária”, ressalta o proprietário Rubens Catenacci.

Com um investimento intenso em ferramentas como a Inseminação Artificial por Tempo Fixo (IATF), a Fecundação in vitro (FIV) e, principalmente, por ser pioneira no uso da clonagem em Mato Grosso do Sul, produzindo os primeiros dez clones bovinos do Brasil, a marca 3R sempre participa de eventos que contribuem para a divulgação de tecnologias inovadoras. “Não adianta somente a Fazenda 3R produzir qualidade, é preciso que todos tenham acesso a informação, às ferramentas, para criarmos quantidade com qualidade que possa atender as crescentes demandas do mercado”, afima Rubens.

Pensando no futuro, ele compartilhou, durante a Showtec 2014 (Maracajú – MS), realizada em janeiro, técnicas importantes na produção de animais precoces que tragam maior rentabilidade para a propriedade. Para o criador, a conta é simples, pois quanto menos tempo o gado fica na fazenda, menor o custo de produção. “Fazer o investimento e usar tecnologia auxilia na diminuição de custo e traz o ganho lá na frente. A gestão de tudo isso é muito importante, por isso que conseguimos resultados e é isso que queremos mostrar aos produtores, que é possível produzir qualidade”, ressalta.

Mais tecnologia

Outra empresa que usa tecnologia associada à pecuária é a Prodap. No mercado há 35 anos, oferece três soluções: gestão aplicada à pecuária, programas de nutrição dinâmicos e sistemas de informação. Pedro Reis, gerente de marketing, informa que ela conta com mais de 60 consultores em projetos por todo o Brasil.

 “Temos dois sistemas, o Prodap Profissional e o Prodap Taurus. O primeiro foi lançado em 2000 e é o que possui mais licenças no país (mais de 20 mil, atingindo 300 mil cabeças). O Prodap Taurus, de gestão para pecuária de corte, é a evolução do Prodap Profissional, e foi lançado em 2011. Fizemos uma parceria com a Microsoft para desenvolvê-lo, e afirmo, com certeza, que é o software mais moderno da pecuária brasileira. Possui estrutura online/offline, controle individual, rastreabilidade, confinamento”, conta.

Na opinião de Pedro Reis, para implantar um sistema de gestão em qualquer empresa do mundo é preciso entender que o pilar de sustentação é a mensuração da evolução dos resultados. “Quando os gestores possuem dados na mão, as decisões são ágeis e muito mais assertivas, permitindo que as fazendas atinjam patamares de resultados nunca experimentados”, garante.

Com olhar no agronegócio no Brasil, ele indica que a agricultura avança um milhão de hectares por ano sobre a área de pecuária. Estima-se que os pecuaristas terão que produzir 40% a mais do que produzem hoje, por isso é essencial que eles estejam conectados e atentos às novas tecnologias para acompanhar a evolução do mercado e conseguir gerar cada vez mais resultados com a atividade.

Na Fazenda Buritis, localizada em Jussara (GO), uma das portas do Vale do Araguaia, o gerente de marketing Rodrigo Albuquerque, não conseguiria administrar a exploração pecuária de cinco mil cabeças se não lançasse mão do programa Taurus. “Iniciamos o ano de 2013 procurando um sistema que nos desse velocidade na obtenção dos dados zootécnicos, permitindo uma rápida análise dos mesmos para suportar tomadas de decisões de maneira rápida e eficaz”, comenta. 

Rodrigo diz que o objetivo foi atingido. Ele conta que antes, após o trabalho de curral, vinha a demorada digitalização das informações, o que impedia de tirar proveito delas, justamente pela demanda de tempo. “Neste sentido, estamos totalmente atendidos em nossas necessidades”.

Na análise dele, a maior vantagem é ter a possibilidade de conduzir os dados zootécnicos de modo a tê-los à mão de maneira rápida e eficaz: “A velocidade da pecuária moderna exige isto na mesma intensidade que um piloto de um jato comercial demanda, no sentido de ter os números de controle na mão. Da mesma forma que o piloto não pode demorar para saber qual a velocidade está o avião, o fazendeiro moderno também não pode abrir mão de saber, com precisão, qual o ganho de peso que sua recria engorda”.

Os maiores craques do campo

No embalo da Copa do Mundo, a 21ª Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação (Agrishow 2014), uma das maiores e mais completas feiras de tecnologia agrícola do mundo, tem como tema “Os Maiores Craques do Campo”, homenagem à dedicação e empenho do produtor rural em fazer do agronegócio brasileiro o mais competitivo do mundo. O evento está programado para o período de 28 de abril a 2 de maio deste ano, em Ribeirão Preto/SP, e é uma idealização das principais entidades do agronegócio.

A Agrishow 2014 deverá reunir as principais marcas com atuação, direta e indiretamente, nas várias atividades do agronegócio. Na última edição, a feira exibiu produtos, serviços e soluções de 790 marcas a um público visitante de aproximadamente 150 mil pessoas. Como tradicionalmente ocorre, será reservada ainda uma área de 100 hectares, na qual o visitante terá a oportunidade de conhecer, na prática, as mais recentes experiências tecnológicas com sementes, insumos e defensivos agrícolas que são desenvolvidas no local e envolve diversas culturas. No evento, o visitante também terá a chance de conferir o funcionamento de diferentes tipos de máquinas e implementos agrícolas.

Os segmentos e setores contemplados na Agrishow são: agricultura de precisão, agricultura familiar, armazenagem (silos e armazéns), corretivos, fertilizantes, defensivos, equipamentos de segurança (EPI), equipamentos de irrigação, ferramentas, implementos e máquinas agrícolas, máquinas para construção, peças, autopeças, pneus, pecuária, produção de biodiesel, sacarias e embalagens, seguros, sementes, software e hardware, telas, arames, cercas, válvulas, bombas, motores e veículos (pick ups, caminhões e utilitários, além de aviões agrícolas).

Mais qualificação

Em meio a este boom tecnológico, que vem se desenvolvendo desde a Revolução Verde, na década de 70, o campo foi invadido por novidades digitais, fertilizantes de última geração, cultivares mais resistentes e produtivas, máquinas computadorizadas e animais extremamente precoces. Porém, a implantação e manutenção dos softwares, aplicativos, máquinas e a utilização de tais ferramentas exige disciplina, boa execução e talento humano.

E até para isso a tecnologia contribuiu. Com a internet, a informação chega mais rápido e os cursos já podem ser feitos à distância. No Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), entidade vinculada à Confederação Nacional da Agricultura (CNA), as salas de aula são os locais onde os trabalhadores e produtores rurais atuam. Por meio dos Sindicatos Rurais de cada cidade, o acesso aos cursos presenciais é gratuito e os resultados excelentes. Com ações de promoção social e capacitação, a didática é oferecida às pessoas do meio rural associadas, direta ou indiretamente aos processos produtivos. Em 20 anos, o Senar fez aproximadamente 60 milhões de atendimentos no Brasil. Isso significa mais qualidade na mão de obra para o campo.

O gerente regional do Senar em Uberaba, Flávio Henrique Silveira, comenta como as atividades têm contribuído para o desenvolvimento da agropecuária e para o entendimento de como a tecnologia mudou e tem mudado a vida no campo. “Que novidade há 30 anos ter uma máquina para tirar leite de vaca! Hoje, quase todos os currais de leite tem sua sala de ordenha equipados mecanicamente. Já testam o trator sem tratorista, nossas máquinas estão com tecnologia embarcada com coisas das estrelas, isso mesmo, tudo direcionado e monitorado por satélites artificiais. As vacas têm bezerros sem nunca ter visto um touro, hoje muito comum com a Inseminação Artificial”, diz entusiasmado. Para ele, a tecnologia no campo não tem mais limites, mas “estamos atentos aos nossos trabalhadores, pois sem a afinidade com o processo, essa tecnologia não funciona, a ordenhadeira se não operada corretamente não produz o leite com qualidade, o trator se não regulado corretamente será uma arma de prejuízo, a vaca se não inseminada corretamente não irá produzir descendentes”. E é exatamente ai que entra o Senar, para treinar e capacitar a mão-de-obra rural, seja na mais simples atividade ou na mais tecnológica operação, como ressalta Flávio. 

Com todas as facilidades da modernidade, sabe-se que o mercado é promissor para a economia nacional. A sistematização de dados via tecnologia concretiza um processo que se iniciou em meados de 1950. Se for usada com os conhecimentos e treinamentos necessários, os resultados serão excelentes e o aumento da produtividade do país alcançará os índices sonhados, para que o Brasil se torne um dos maiores produtores de alimentos do mundo e uma grande potência do agronegócio.