Publicado em: Pecuária

Sabrina Alves 

 

Nos últimos anos, o cenário do campo, antes marcado pela tranquilidade, vem apresentando mudanças drásticas. Está cada vez mais complicada a associação de sossego e calmaria quando o assunto é a segurança da área rural. Nas propriedades existem objetos de grande valor, que não ficam restritos apenas à joias ou veículo importados, que muitas vezes são alvo dos criminosos nas áreas urbanas. Máquinas e implementos agrícolas, bem como a exposição de animais, desperta o interesse dos bandidos que usam de algumas fragilidades para se apropriar desses bens.

Entre os fatores que provocam medo, a distância e a dificuldade de acesso é um dos principais. Muitas propriedades ficam afastadas, e em alguns casos, o socorro pode demorar muito, o que facilita a estratégia de fuga. Segundo dados da Área Integrada de Segurança Pública – Rural (AISP), somente em Uberaba existem em torno de 2500 propriedades rurais cadastradas, em uma área de quase cinco mil km de extensão territorial.

Especialistas associam esse aumento ao combate efetivo contra a violência nos grandes e pequenos centros urbanos, que resultou nessa alternativa. “A zona rural, por suas peculiaridades, acaba por atrair criminosos”, ressalta o comandante da AISP Rural em Uberaba, Tenente Cintra Júnior, que foi criada como uma alternativa de minimizar e coibir a ação desses criminosos.

Instalada como um modelo para o restante do país, a Aisp Rural já era uma antiga reivindicação do setor e teria como objetivo melhorar os serviços de defesa social, como ressaltou, na época, o secretário de Estado de Defesa Social, Rômulo Ferraz.

Exato um ano de sua inauguração, e já com a implantação de novas áreas, como na vizinha Uberlândia, a violência ainda amedronta moradores. Entretanto, algumas medidas já foram tomadas como prevenção. Esse assunto vem sendo alvo de muitas discussões, principalmente em audiências públicas que mobilizaram autoridades politicas e sociais, com o objetivo de cessar a criminalidade que atinge, principalmente, os pequenos e médios produtores.

 “Existe o aspecto psicológico. Muitos crimes são atribuídos à agressão e o sentimento de insegurança, às vezes pela falta de vizinhos, causando uma maior preocupação. Ao contrário dos crimes que acontecem na cidade, os assaltos nessas áreas podem demorar horas, muitas vezes seguidos de ameaças de morte. Isso tudo acaba criando um sentimento de insegurança. É preciso olhar o crime no campo com uma maior atenção”, expressa o presidente do Sindicato Rural de Uberaba (SRU), Romeu Borges de Araújo Júnior.

O representante rural se diz preocupado com o destino, principalmente, dos pequenos produtores, que são as maiores vítimas desses crimes, que é uma realidade em todas as regiões do país. “O campo é a produção primária, se todos fecharem os olhos para esse problema e se a sociedade deixar que esses produtores saiam do seu local de origem para se mudarem para a cidade, sem dúvidas, causará um grande impacto dentro de pouco tempo. Os filhos já não querem permanecer no campo e isso é um agravante”, expõe.

Proteção

Criada como um modelo para o restante do país, a AISP Rural de Uberaba já apresentar resultados positivos, mesmo com o aumento no número de registros de ocorrências. “Uberaba sempre foi uma referência em muitos aspectos, e com o crescimento da violência em todo o Brasil, não podemos mais apontar um estado totalmente seguro. Todos passam por uma situação complicada. Por isso, a criação de uma AISP Rural trouxe uma maior segurança ao homem do campo.”, destaca o tenente Cintra Júnior.

Ele aponta também algumas ações realizadas e a importância de treinamento aos policiais. “Depois da implantação da Aisp em Uberlândia, já foi possível a realização de algumas ações, em conjunto, que resultou em algumas prisões e combate ao crime. Outra questão são os treinamentos específicos oferecidos aos policiais.  A AISP foi criada, mas, é preciso oferecer um treinamento mais especifico, com um aumento do contingente proporcional às áreas, e, números de propriedades em toda a região”, aponta.

Para atuar nessas regiões, a AISP Rural conta com um pelotão, sendo um subtenente e doze policiais. Entretanto, para atender toda a demanda seriam necessários no mínimo uma patrulha composta por um oficial e 24 policiais, ou seja, o dobro presente hoje.

Segundo o comandante, mesmo com o pequeno contingente, foi possível registrar uma redução no número de Boletins de Ocorrência, cerca de 40%.

“Há um trabalho integrado feito pela AISP Rural de Uberlândia onde existe uma troca de informações sobre quadrilhas que agem em toda a região e em Uberaba. Em meados de fevereiro foi desencadeada uma operação conjunta na divisa dessas duas AISP, que resultou na prisão dessas quadrilhas especializadas em roubos de fazendas que estavam atuando na região. Todos os mandados foram expedidos pela comarca de Uberlândia, depois de um longo trabalho de investigação e levantamentos feitos pelas policias Militar e Civil”, relata o tenente.

No início do ano, segundo dados divulgados pela 5ª Região Integrada de Segurança Pública (Risp), somente em 2012, foram 83 crimes violentos, contra 81 no ano passado. De janeiro a novembro de 2012, foram contabilizados 354 furtos. Já em 2013, o número caiu para 295.

Mapeamento

Para agilizar o atendimento das ocorrências foi feito um trabalho de georreferenciamento, ou seja, um mapa digital onde foi detalhada as informações sobre todas as propriedades rurais cadastradas no SRU.

“Uma guarnição da patrulha rural, de posse de um GPS, tem acesso a qualquer uma das propriedades e, inclusive, uma rota de acesso mais rápido, em caso de emergências. Com essa ferramenta qualquer viatura com o uso de um localizador consegue chegar à propriedade rapidamente”, relata o tenente, explicando ainda que o processo está em fase de implantação. “Dentro desse projeto, o usuário poderá acionar a polícia. Nesse momento, o número da propriedade será identificado, e não a do telefone como é de costume. Dessa forma, os militares da viatura terão a noção exata da região para onde deverão se deslocar”.

É importante citar que a patrulha rural dispõe de telefones celulares que ficam dentro da viatura e com acesso 24 horas. “A solicitação do proprietário da fazenda ou de seu funcionário acionará diretamente a viatura da patrulha rural que, em tese, já conhece o local da solicitação para proceder ao atendimento com maior celeridade”.

A iniciativa também foi comemorada pelo SRU. A AISP, que está localizada dentro do sindicato, proporciona um contato maior entre a entidade e o órgão. “É um ambiente mais voltado para o produtor, dessa forma ele se sente até mais a vontade para realizar formalizar suas ocorrências, até, mesmo para que a polícia tenha uma base maior da ocorrência desses crimes, e possa trabalhar com base nesses registros”, aponta o presidente do sindicato, Romeu Júnior.

Monitoramento Coletivo

Para que os índices de criminalidade no meio rural possam ser inibidos, é necessária a intervenção de todos. Pensando nisso, uma das formas encontradas foi a articulação coletiva. A iniciativa do Sindicato Rural em parceria com a Polícia Militar prevê a redução dos crimes.

“O Sindicato Rural de Uberaba, juntamente com a PM, está lançando o projeto Vizinho no Campo, que é o monitoramento eletrônico onde os vizinhos são interligados por meio de um sistema que permitirá a ligação de todas as propriedades. Em caso de um sinistro ou mesmo algum tipo de ameaça, o usuário irá acionar um dispositivo, que por sua vez será acionado as demais propriedades vizinhas, que serão notificadas sobre um possível problema que ali esteja ocorrendo. A própria polícia (central) também será acionada”, explica o presidente.

O sistema ainda está em fase de implantação, mas o SRU está buscando alternativas para reduzir os custos. “O Vizinhos no Campo já foi implantado em algumas propriedades. E será lançado oficialmente ainda neste semestre. Temos uma grande esperança que esse programa será replicado para o restante do país, inclusive o governo de Minas já mostrou um grande interesse”.

Porte de Armas

Alguns produtores rurais solicitaram no início do ano, ao presidente do SRU, um pedido para que seja autorizado o uso de armas nas propriedades rurais, como forma de segurança. O presidente afirma que essa medida ajudaria na redução da criminalidade. Durante uma entrevista divulgada na época, Romeu ressaltou que aqueles que tivessem uma arma, que pudessem manter o seu uso, bem como conseguissem o registro, legalmente. Para o seu uso, todos teriam que passar por treinamentos e orientações técnicas, visando a sua própria segurança.

O pedido foi, inicialmente, negado pela PM, que declarou, na ocasião, que todo o processo deveria ser analisado com muito critério, para não causar resultados negativos.

Orientações

O comandante da AISP Rural em Uberaba, Tenente Cintra Júnior, explica como o produtor rural e seus familiares devem agir durante um crime: Não reagirem em hipótese alguma. Procurar manter a calma e tentar prestar atenção nas principais características dos autores para um possível reconhecimento”.