Publicado em: Pecuária

Por Natália Escobar 

 

Dentro da pista de julgamento é o juiz que avalia as características que pressupõe um bom desempenho produtivo e funcional do animal. Os olhos do profissional rastreiam o exterior do gado, a procura de sinais que indiquem sua boa funcionalidade e produtividade, em uma tarefa de observação minuciosa.

O julgamento é uma ferramenta que avalia as características morfológicas dos animais e pode mensurar aspectos para os quais não dispomos de nenhuma outra ferramenta, a não ser o olho humano bem treinado. Alan Marcolini Campidelli é jurado efetivo da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) desde 2011. Formado em Medicina Veterinária e com pós-graduação em julgamento de raças zebuínas, ele explica que o julgamento funciona como uma forma de seleção dos melhores animais através da avaliação fenotípica criteriosa feita por um profissional bem treinado.

 “Além do mais, é uma importante ferramenta para detectar e mostrar os progressos no melhoramento genético das raças”, explica. A carreira de jurado passa por várias exigências preparatórias para função antes de chegar à posição de decidir o valor genético de animais, que são a base da pecuária nacional. Além do curso exigido em Agronomia, Medicina Veterinária ou Zootecnia, quem pleiteia a carreira participa de cursos e estágios de preparação.

Para ser jurado efetivo, por exemplo, a ABCZ exige que o candidato seja acompanhando e avaliado por outros profissionais formados, em no mínimo 15 exposições, oficializadas, acarretando dez pareceres favoráveis ao seu desempenho, de sete jurados diferentes, e de no mínimo, três raças diferentes.

Trabalho de pista

A zootecnista Lucyana Malossi Queiroz é especialista em exterior e julgamentos de zebuínos. Ela já julgou animais pelas pistas do Brasil, Bolívia, Colômbia e México e foi a primeira mulher a julgar uma Expoinel Nacional e a raça Guzerá durante uma ExpoZebu.

Para ela, o trabalho do jurado é, sem dúvida, de grande responsabilidade, e exige posturas profissionais. “Faz-se necessário manter respeito e credibilidade aos criadores apresentadores e tratadores. Ter humildade e ética nas decisões que serão tomadas é fundamental, pois a avaliação na pista de julgamento é um empenho de anos que está sendo avaliado em horas”, coloca a jurada.

Na constante busca por sistemas eficientes de pecuária produtiva, o julgamento exerce o papel de ferramenta para seleção genética. Por isso, a exatidão do olhar é essencial. Para Rafael Mazão, consultor, zootecnista e jurado efetivo da ABCZ, o resultado da pista interfere em toda cadeia produtiva. “O julgamento busca o equilíbrio entre funcionalidade, produtividade, padrão e beleza racial, em conjunto com as aptidões naturais de cada raça. O maior desafio é estabelecer os animais melhoradores que vão representar a raça, e deixar sua contribuição para as gerações futuras, o que, consequentemente irá refletir também na outra ponta da cadeia, que é o produto final: carne/leite de qualidade”, explica.

Critérios

O padrão racial, assim como os critérios do julgamento, são definidos pela ABCZ. Lucyana explica ainda que esses critérios são estabelecidos de maneira estratégica, pensada para atender a necessidade do elo final da cadeia pecuária: o mercado consumidor. “O julgamento é mais uma ferramenta para o melhoramento genético. A avaliação fenotípica consiste em encontrar um indivíduo com um biótipo ideal, para posteriormente correlacionar as avaliações genéticas do mesmo. Quem dita o caminho, que nós técnicos devemos seguir, é o mercado, por isso observamos e estamos constantemente atentos às mudanças que são preconizadas pelas associações de cada raça”.

No momento de avaliar, o jurado se embasa na cartilha do Colégio de Jurados das Raças Zebuínas (CJRZ), da ABCZ, que estabelece qual o padrão e critério para cada raça e categoria. Rafael explica, ainda, que os jurados passam por constantes atualizações para que tenham a maior uniformidade de julgamento possível. Ele acredita que os critérios foram muito bem estabelecidos pela ABCZ, e possibilita a mesma análise de todos os participantes, proporcionando chances iguais. “Julgamento é como um jogo de futebol, ‘só acaba quando termina’! Todos os animais merecem análise especial na disputa das categorias, campeonatos e grande campeonato”, garante.

Olhar de criador na pista

Luís Renato Tiveron é zootecnista e jurado da ABCZ desde 2004. Ao lado do irmão, o veterinário Osvaldo Tiveron Júnior, administra a Estância Ilha, criatório de Nelore PO no município de Uberaba (MG). Os criadores estão há dez anos investindo na raça, uma paixão que veio da infância, quando o pai, senhor Osvaldo Tiveron, ao lado da esposa, Maria Amélia, eram pecuaristas.

Iniciando o trabalho em pista, Luís Renato e Júnior pretendem estrear nas feiras  agropecuárias no próximo ano. Para empreitada, os irmãos contam com um plantel que tem a genética de grandes matrizes da raça, como Jordania 27, Mareia I, Sérvia e Espanhola. Enquanto preparam o time de pista, os criadores administram duas propriedades em Tocantins, produzindo 120 tourinhos PO por ano. 

Para Luís Renato, o maior desafio ao julgar animais de genética consagrada é avaliar o melhor. “É muito difícil definir o modelo perfeito para pecuária em um país continental que apresenta diversas variações de clima, relevo, pastagens e outros fatores. É preciso ser correto na escolha, para ser sempre justo com o trabalho dos criadores e contribuir com o melhoramento genético zebuíno brasileiro”, coloca.

O jurado e pecuarista ainda afirma que o objetivo é buscar um padrão produtivo que  atenda a demanda do mercado e funcione para o criador. “O que fazemos é buscar um modelo que atenda, cada vez mais, a necessidade do mercado, e ainda seja eficiente no nosso sistema de criação”, pontua.