Publicado em: Pecuária

O confinamento é o sistema pecuário que mais comprova a premissa de que, quando o mundo precisa ser alimentado, não há tempo para perder. Existem sete bilhões  de pessoas no planeta, e uma cadeia enorme a ser alimentada. Mas, é necessário acelerar o processo de produção cada vez mais rápido. Com essa necessidade de urgência, a pecuária começou a implantar sistemas para intensificar a produção. O mais conhecido e usado é o confinamento bovino. O sistema de criação consiste em separar os animais em lotes, dentro de piquetes ou currais oferecendo alimentos e água necessários para seu desenvolvimento até o abate. A média de abate de animais criados a pasto, no Brasil, é de 18 arrobas aos 36 meses. Confinando, o produtor tem a promessa de abater até 21 arrobas aos 21 meses.

É uma matemática que, se bem aplicada, quer dizer mais lucro em menos tempo. Para multiplicar essa conta e fazê-la funcionar, existem ferramentas tecnológicas em todos os setores da atividade.
“Hoje, no Brasil, vivemos a ‘era do detalhe’. Se você quer ter um confinamento e que ele lhe propicie lucro, esteja atento a todas as tecnologias disponíveis”, sentencia Gustavo Rezende Siqueira, pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.
As possibilidades não são poucas. Confinamento no período da seca (entressafra), terminação para o abate, confinamento de bezerros, semiconfinamento, e até mesmo confinamento a pasto: são opções contemplam a necessidade de cada sistema produtivo.
Enquanto isso, novas tecnologias são desenvolvidas para acelerar as etapa da produção, intensificando a pecuária. “Existe um grande número de tecnologias disponíveis para confinamento. Em um animal a pasto, o desembolso diário é normalmente de R$1, considerando o custo operacional mais a suplementação mineral. No confinamento, normalmente esse valor está acima de R$ 6, justamente pelas grandes possibilidades tecnológicas”, explica Gustavo. Como em qualquer empreendimento, lucros são precedidos de investimentos altos.

Tecnologia nutricional

O pesquisador da APTA afirma que o maior gasto da atividade é a alimentação, representando até 70% dos investimentos.Para diminuir as despesas, por exemplo, o processamento do milho, pode ser realizado dentro da própria fazenda. “Milho, sorgo e outras fontes de amido são a principal despesa alimentar do animal, e nós jogamos fora muitas toneladas desses produtos. Quando processamos esse alimento, ele aumenta a digestibilidade e o desperdício é muito reduzido. A melhor técnica para processar o milho é a floculação, nos EUA amplamente utilizada. Alguns confinamentos no Brasil já possuem esse equipamento e possuem ótimos resultados”, explica Gustavo.
Tradicionalmente no Brasil, o milho é a principal fonte energética utilizada em rações para animais confinados, podendo representar até 70% da dieta.Tratamentos térmicos de grãos de cereais, como a floculação do milho e do sorgo, melhoram a utilização desses grãos pelos animais e, consequentemente, aumentam o saldo final na balança. A floculação é um processo que consiste em colocar o alimento em uma estufa e processá-lo para que fique mais palatável e digestivo.
Mas, caso essa tecnologia não se mostre aplicável na propriedade por algum motivo (como o seu alto valor), o milho ainda assim pode ser usado, através de outro processo. “Técnicas alternativas, como a ensilagem de grãos úmidos de milho ou a reidratação dos grãos, demandam menor investimento inicial e também promovem melhoria no aproveitamento do amido. Só não podemos nos dar o ‘luxo’ de perder um alimento tão nobre quanto o milho”, afirma o pesquisador.
Outra tecnologia nutricional que avança rapidamente é a de suplementação. A dieta de um bovino confinado inclui alimentos volumosos, concentrados e suplementos. Essa é uma alternativa para aumentar o desempenho do animal e acelerar o ganho de peso. Na corrida por abater o boi mais pesado mais cedo, a possibilidade de adicionar uma pitada de suplemento no cocho e ter 20% a mais na balança, brilha os olhos dos pecuaristas.

Virginiamicina

“O confinamento precisa ser mais do que para tirar o boi da seca, precisa pensar no acabamento e em produzir mais carne. Para isso, existem tecnologias nutricionais que possibilitam uma alimentação que dá ao boi a possibilidade de chegar ao máximo de desemprenho. Em especial, na fase final, que o animal mantém o consumo, mas aumenta o peso”, afirma o diretor técnico da Phibro Saúde Animal, Danilo Grandini. 
O nome é complicado, mas a proposta é simples: um antibacteriano que melhora o desempenho bovino. A virginiamicina é usada no cocho de sal mineral, e estudos apresentam um incremento médio de 20% no ganho de peso. O produto é um antibacteriano que padroniza o consumo alimentar, fazendo com que a alimentação do animal seja mais constante e este aproveite melhor os nutrientes que estão sendo disponibilizados. “A virginiamicina melhora o uso do alimento, porque, através dela, o animal não apresenta problemas digestivos e consegue comer de forma mais padronizada, melhorando o desempenho”, explica Danilo.

A dieta pré-abate, a dos quatro últimos meses antes da terminação, reflete muito no desempenho do produto final. Para esse momento, Danilo afirma que a alimentação deve ter o mínimo de fibra, o máximo de cereais e os aditivos. “No pasto, a suplementação é uma opção. No confinamento, uma obrigação”, comenta.
“Nossas dietas de confinamento ficaram mais desafiadoras e passaram a exigir maior cuidado com a saúde ruminal. Já temos vários aditivos validados no mercado, mas destacamos a associação de monensina e virginiamicina, com uma combinação que promove melhoria nos resultados em confinamento. Além desses, a utilização de leveduras vivas, ureias protegidas, gorduras protegidas, minerais de alta disponibilidade, óleos essências são ferramentas que podem e devem ser utilizadas para mento buscar a otimização técnico-financeira mínimo de fibra, o máximo de cereais e os aditivos. “No pasto, a suplementação é uma opção. No confinamento, uma obrigação”, comenta. 
“Nossas dietas de confinamento ficaram mais desafiadoras e passaram a exigir maior cuidado com a saúde ruminal. Já temos vários aditivos validados no mercado, mas destacamos a associação de monensina e virginiamicina, com uma combinação que promove melhoria nos resultados em confinamento. Além desses, a utilização de leveduras vivas, ureias protegidas, gorduras protegidas, minerais de alta disponibilidade, óleos essências são ferramentas que podem e devem ser utilizadas para buscar a otimização técnico-financeira do confinamento”, acrescenta o pesquisador da APTA, Gustavo.
As várias tipificações e marcas de suplementos podem configurar uma dúvida na hora da escolha. “Um detalhe extremamente importante é que existem vários aditivos e de várias procedências, cada um tem sua composição ou tipo de microrganismo e a variabilidade no funcionamento é muito grande”, alerta o pesquisador.

Tecnologia de gestão

 O bom funcionamento da cadeia produtiva exige que cada mínimo detalhe esteja de acordo com o planejado. A excelência na execução do plano de confinamento é tão importante quanto o próprio planejamento. Coordenar para que tudo saia perfeitamente é o papel de quem geri o negócio. Para facilitar a administração de todos os detalhes, entram em cena as tecnologias de gestão.

A Prodap Projetos de Gestão é uma empresa que desenvolve tecnologias administrativas para o agronegócio. O gerente de contas da Prodap, Walter Patrizi, explica que o Brasil precisou construir um modelo de confinamento ideal, próprio para cada situação, devido às diferenças de uma região para outra. Essa pluralidade de modelos faz com que seja difícil estabelecer

um único sistema de gestão eficiente. “As condições de produção a pasto no Brasil são únicas, e isso nos tem forçado a aprender ‘sozinhos’ como produzir ao máximo com segurança e melhor aproveitamento dos recursos. O uso da integração lavoura-pecuária e adubação de pastagens são bons exemplos. Todas essas tecnologias atraem o confinamento como parte fundamental do modelo de se produzir carne em menos área, com redução do ciclo produtivo, maior retorno financeiro, proporcionando um produto de mais qualidade e menor impacto ao meio ambiente”, diz Walter.

A tecnologia de gestão produzida pela Prodap é um sistema facilitador das etapas produtivas, organizador das tarefas. No mercado há 35 anos, a empresa oferece três soluções: gestão aplicada à pecuária, programas de nutrição dinâmicos e sistemas de informação. Um dos produtos, o software Prodap Taurus, foi desenvolvido juntamente com a Microsoft em 2011. Com estrutura online e offline, controla e rastreia individualmente os animais. 
“O uso da ferramenta de gestão Prodap Taurus permite não só coletar informações para se obter relatórios de nível gerencial que fundamente na tomada de decisão, mas também permite a incorporação de processos de gestão que direciona toda a rotina do confinamento para a aplicação de técnicas de produção e gestão das melhores empresas do setor”, explica. 
O pesquisador da APTA, Gustavo, afirma que a gestão é ponto fundamental em qualquer atividade. “Hoje, o setor de confinamento conta com empresas muito competentes, que auxiliam os projetos a gerir o negócio como uma empresa. O empresário precisa saber quanto o animal come, quanto ele ganha, e quanto ele custa. Se você tem um confinamento e não possui esses números, cuidado!”, alerta.

Confinamento x pasto  

A Associação Nacional dos Confinadores (Assocon) estima que em 2014, 4,160 milhões de cabeças sejam confinadas. São 1348 unidades confinadoras no país, com predominância na região Sudeste e no Centro-Oeste. A grande gama de tecnologias pecuárias abre um horizonte amplo de possibilidades na produção de carne. Diante de tantas opções, fica a dúvida: o que é melhor, criar a pasto ou confinar? Os especialistas parecem entrar em consenso de que é uma dúvida plausível, mas muito relativa para ser respondida brevemente. Cada caso é um, e as condições precisam ser analisadas.

O gerente executivo da Assocon, Bruno de Jesus Andrade, acredita que é necessário pensar quais as necessidades e possibilidades de cada sistema. “Predominantemente, no Brasil, o confinamento é estratégico. Na seca, falta alimento e o animal é confinado para engordar. Agora, já existem propostas de confinamento o ano todo, para raças diferenciadas. A escolha de como fazer a pecuária depende do tamanho do rebanho, nível de tecnificação, local, estrutura”, coloca. 
Marcelo Moura é zootecnista e assessor pecuário. Nascido em Três Lagoas (MS), atualmente residente em Uberaba (MG) e conhece de perto dois solos sagrados da pecuária. Em suas viagens a trabalho pelo país, conheceu vários sistemas produtivos. Nos confinamentos, tem visto animais serem abatidos com 20 arrobas aos 22 meses, em média. Ele acredita que a atividade é o curso natural que a pecuária irá seguir. “Com o alto preço das terras cultiváveis, a agricultura se mostra uma opção de retorno maior. É natural que as áreas da pecuária sejam reduzidas e cada vez mais tecnificadas. Assim, o produtor, atualmente, tem escolhido a opção de levar os animais de cria para as terras mais baratas do país e engordam o rebanho, através de confinamento, nas terras mais caras”, aponta. O pesquisador da APTA, Gustavo, acredita que o diferencial competitivo do Brasil, no mercado mundial de carne bovina, é a produção a pasto. Porém, a combinação pasto e confinamento é uma ferramenta que potencializa os ganhos quando bem aplicada. “Quando a propriedade possui um confinamento, o produtor pode explorar mais intensamente o pasto no período das chuvas. Essa é a época que produzimos uma arroba competitiva. Quando temos pastos degradados ou com baixa produtividade o custo de produção de uma arroba é mais caro que no confinamento. O diferente, é que nessa situação produtor tem baixo desembolso, porém, o animal ganha pouco peso e acaba se tornando caro”, explica.
Apesar de ser uma atividade de complicada administração, Walter, gerente de contas da Prodap, acredita no confinamento como ferramenta para pecuária. “Ainda existe um conceito muito errado de que, pelo o fato do Brasil ser um país tropical com produção bovina predominantemente a pasto, o confinamento não teria espaço. Muitos têm a perspectiva de que o sistema de produção a pasto compete com o confinamento, quando na verdade eles são complementares. Não é por acaso que essa tecnologia vem crescendo consistentemente desde a década de 1990 no Brasil”, finaliza.