Publicado em: Pecuária

A história da Chácara Mata Velha, em Uberaba (MG), se mistura à do Nelore no Brasil. O idealizador deste projeto é Jonas Barcellos, um dos maiores nomes entre os criadores nacionais. O criatório da fazenda teve início há 40 anos, quando uma das mais importantes linhagens do Nelore nacional foi adquirida. Não tardou para que o trabalho fosse evoluindo, e a fazenda se tornasse uma referência em seleção, realizando anualmente, no dia 4 de maio, durante a ExpoZebu, o leilão Elo de Raça, um dos mais importantes do país. Ao longo destes anos, o Nelore se transformou e agora é referência para outros países em animal produtivo. Jonas, que trabalha desde a genética ao corte, fala sobre como todo esse processo aconteceu e o que isso trouxe de positivo para a pecuária brasileira. O criador acredita em cada vez mais inovações tecnológicas para atender às demandas de mercado e em uma pista que alie avaliações genéticas e fenotípicas no futuro. 

Pecuária Brasil . Além de um apaixonado, o senhor é um dos maiores incentivadores e agregadores do Nelore. Como analisa a participação da Mata Velha na evolução da raça ao longo dos últimos anos?
Jonas Barcellos . Trouxemos vários investidores. Vários amigos que vieram se entusiasmaram e acabaram entrando na raça Nelore. É uma raça muito boa, então dá muita satisfação e alegria. E a evolução que o Nelore teve nesse período todo é muito grande. Ao longo do tempo, a pecuária brasileira saiu de um gado horrível, abatido com até cinco anos, sem condições de exportar, e isso mudou completamente. Uma vez, um comissário da agricultura da Comunidade Econômica Europeia veio conhecer a fazenda com intenção de ficar uma hora. Acabou ficando o dia inteiro. Ficou entusiasmadíssimo, tirou fotos com as vacas todas, muito bem conformadas, pesadas. No final do dia, comentou que com o gado feito aqui, com esse volume de carcaça e custo reduzido, é impossível o mundo segurar o Brasil, ou chegar perto de produzir a quantidade de carne boa com esse nosso custo. É satisfatório ver e constatar essa evolução, e ainda melhor ter participado dela. Sempre me entusiasmei com melhorar a qualidade dos animais e da produção de carne.

 Rebanho Mata Velha 

PB . Como essa evolução em qualidade aconteceu? 
JB . Antigamente, era muito difícil o crescimento dessa força da qualidade. Era um touro para 25 vacas, o que limitava o trabalho, além de não haver tecnologia. Através das tecnologias reprodutivas, como a Inseminação Artificial (IA), começamos a produzir touros melhores, que davam os melhores bezerros e corrigiam as vacas. Depois veio a transferência de embriões, e com isso houve a primeira grande melhoria. Até então, cada vaca produzia 0,8 bezerros por ano. A partir desse momento, era possível uma vaca ter de 10 a 12 por ano. Foi uma loucura o tamanho da evolução. O que você vê nos campos em termos de qualidade do gado hoje em dia está em um padrão extraordinário, por causa disso. Depois, com a Fertilização in Vitro (FIV), que multiplicou a fertilização da vaca, esses números aumentaram mais ainda. Antigamente, como era mais difícil e não tinha essa produção, os produtores fechavam nas mãos deles a qualidade do gado. Depois disso, os criadores abriram o negócio e a genética Nelore foi democratizada para todo país. Hoje, todo lugar que você vai tem gado bom.

PB . E hoje, quais ferramentas e princípios a Mata Velha usa na sua seleção?
JB . Evolução genética é o que sempre buscamos. Temos um laboratório que produz realmente qualidade genética, além de termos um convênio com uma empresa americana, a maior em clonagem genética no mundo. Estamos desenvolvendo uma série de coisas. Depois da FIV, vêm os marcadores genéticos e ainda existe muita coisa para ser feita. A tecnologia e a ciência não param. E quanto mais ferramenta você tiver, maior a possibilidade de ampliar o trabalho. Agora, por exemplo, que estamos trazendo os embriões da Índia. Comecei isso há quase 20 anos sozinho, depois com a ajuda de amigos da Bahia. Ficamos oito anos tentando conseguir a licença do Mapa aqui, o que era um negócio dificílimo. Depois disso, ficamos mais oito anos na Índia buscando autorização e agora estamos trazendo genética fresca para o rebanho do país. Esse conjunto de coisas está criando um cenário para o Brasil cada vez melhor. 

PB . Como se divide o seu trabalho de seleção? Qual é o animal buscado?
JB . Aqui na Mata Velha, em Uberaba, concentramos o trabalho em um gado mais de elite, no padrão máximo que conseguimos do animal, tanto em termos de desenvolvimento como de caracterização. Já na Santa Marina, em Araçatuba (SP), fazemos um trabalho com a Geneplus e a Embrapa, mais voltado para o desempenho do gado. Lá buscamos o desempenho do gado em termos de produção de carne, que também tem dado um resultado muito bom. Já temos vários touros em centrais, muito procurados. Os leilões virtuais também têm sido muito bons. Estamos satisfeitos principalmente com o resultado do gado.

PB . Depois de um período distante, a Mata Velha retornou às pistas de julgamento da raça. Como foi esse retorno?
JB . Eu não voltei para pista como fazia antigamente. Eu tinha um interesse muito grande na pista antes, hoje em dia eu gosto de participar para acompanhar o movimento. Mas minha intenção agora é de fazer uma pista completamente diferente. Manter o padrão, estar de olho, estar bem posicionado e atentar ao que estou fazendo. Não tenho a intenção de disputar ranking, porque isso exige um trabalho maior em vários lugares, o que já fizemos, mas não é nosso interesse atual. Agora queremos levar animais produzidos por nós e só fazer pistas nas exposições de Uberaba, que são as mais difíceis. O que me interessa é ir melhorando sempre o gado. Para isso, nada melhor do que levar o gado nas pistas mais difíceis. Aqui você tem a Expoinel Mineira, que se tornou uma das maiores exposições, a ExpoZebu e a Expoinel Nacional. Minha intenção é manter a turma acesa, acompanhando e vendo para não perder o foco na qualidade.

PB. O senhor acredita que o Nelore que está na pista é o mesmo que produz carne?
JB. Todo mundo que está na pista está buscando também o animal que produz carne. Não sei se uma hora esses dois trabalhos vão se fundir, mas hoje não é o caso. Mas hoje se vê que quem faz animal de elite também está olhando os índices genéticos, o que não era habitual até então. No futuro, espero que a tendência seja unir esses dois trabalhos, de genética e pista, pensando no Nelore para produzir carne.

PB. E como essas duas vertentes de seleção vão evoluir? Como estará o Nelore daqui dez anos? 
A diretora Cláudia Monteiro e jornalista Natália Escobar, da revista Pecuária Brasil, durante a visita à Fazenda Mata Velha, em Uberaba JB . Eu não sei. Eu gosto de fazer, de analisar e desenvolver as coisas. Todos os dois trabalhos estão evoluindo, cada um de um jeito. Mas a tendência que vejo é que haverá uma aproximação daqui um tempo. Todos os dois trabalhos, de seleção genética e pista, são muito úteis para a raça e seu desenvolvimento. Eu não critico nada de ninguém. Se eu conhecer alguém experimentando uma coisa que pode parecer a maior loucura, eu vou ter curiosidade de saber o que é aquilo. O interessante é pensar no que pode acontecer para mudar e melhorar. 

A diretora Cláudia Monteiro e jornalista Natália Escobar, da revista Pecuária Brasil, durante a visita à Fazenda Mata Velha, em Uberaba